Eleições nos EUA

As reações dos governos da América Latina à invasão do Capitólio nos EUA

Jose Luis Magana

Alguns devolveram com ironia as críticas que historicamente receberam.

Governos de direita elogiaram a democracia atacada pela invasão ao Capitólio, enquanto governos de esquerda, contrários a Donald Trump, devolveram com ironia as críticas que historicamente receberam dos Estados Unidos quanto à falta de democracia nos seus países.

Repúdio à violência

A primeira reação surgiu do Governo da Venezuela, liderado pelo Presidente Nicolás Maduro, cuja legitimidade é contestada por vários países.

"A Venezuela expressa preocupação com a violência na cidade de Washington, condena a polarização política e aspira que o povo norte-americano possa abrir um novo caminho rumo à estabilidade e à justiça social", publicou, nas redes sociais, o ministro dos Negócios Estrangeiros venezuelano, Jorge Arreaza.

Também o Presidente da Argentina, Alberto Fernández, aliado de Maduro, repudiou "a grave violência e ao atropelo ao Congresso" dos Estados Unidos.

"Confiamos numa transição pacífica, que respeite a vontade popular, e expressamos o nosso mais firme apoio ao Presidente eleito, Joe Biden", publicou Fernández nas redes sociais. Há cinco anos, a atual vice-Presidente argentina, Cristina Kirchner, recusou transferir o poder para o então chefe de Estado eleito Mauricio Macri e não foi ao Congresso para a cerimónia de transição.

O caos gerado pelos apoiantes do Presidente dos Estados Unidos cessante, Donald Trump, na invasão do Capitólio, em Washington, lembrou cenas ocorridas na América Latina ao longo de décadas de instabilidade política, durante as quais foram criticados ou mesmo invadidos pelos Estados Unidos sob pretexto de defesa da democracia.

Para o analista político argentino Sergio Berensztein, "os Estados Unidos sempre se apresentaram como um exemplo de governabilidade democrática e de vigências das instituições, mas agora deixam um péssimo exemplo para a região".

"Se até há pouco tempo, os Estados Unidos viam a necessidade de impor a democracia em outras latitudes, incluindo invasões, agora terão uma oportunidade para uma autorreflexão", disse.

O analista apontou uma publicação na qual se afirmava sobre a invasão do Capitólio que "devia levar os Estados Unidos a invadirem-se a si mesmos, já que este enorme retrocesso democrático precisaria de uma intervenção, como as que os Estados Unidos acostumaram a região".

O Chile, através de uma mensagem difundida nas redes sociais pelo Presidente Sebastián Piñera, indicou rejeitar "as ações destinadas a alterar o processo democrático nos Estados", ao mesmo tempo que condenou "a violência e a indevida interferência nas instituições constitucionais".

Piñera sublinhou que o "Chile confia na solidez da democracia norte-americana para garantir o império da lei e do estado de direito".

Numa mensagem quase idêntica, o Presidente da Colômbia, Iván Duque, também destacou a solidez das instituições norte-americanas.

"A Colômbia tem plena confiança na solidez das instituições dos Estados Unidos, assim como nos valores do respeito pela democracia e no império da lei partilhados pelos nossos países", disse.

Para Berensztein, o episódio no Capitólio é uma evidência das consequências do populismo que, no continente americano, afeta tanto a direita quanto a esquerda.

"Para aqueles que banalizam o populismo, essas são as consequências: a rotura da ordem institucional e a crise da cultura democrática. A força impõe-se sobre a lei e traduz-se numa perda da convivência civilizada com respeito e pluralismo", concluiu.

Pelo menos quatro mortos na invasão ao Capitólio

Apoiantes do Presidente cessante dos EUA, Donald Trump, entraram em confronto com as autoridades e invadiram o Capitólio, em Washington, na quarta-feira, enquanto os membros do congresso estavam reunidos para formalizar a vitória do Presidente eleito, Joe Biden, nas eleições de novembro.

A sessão de ratificação dos votos das eleições presidenciais dos EUA foi interrompida devido aos distúrbios provocados pelos manifestantes pró-Trump no Capitólio, e as autoridades de Washington D.C. decretaram o recolher obrigatório entre as 18:00 e as 06:00 locais (entre as 23:00 e as 11:00 em Lisboa).

O debate no Senado foi retomado pelas 20:00 (01:00 de hoje em Lisboa).

A polícia usou armas de fogo para proteger congressistas e anunciou já que quatro pessoas morreram na sequência da invasão do Capitólio, que quatro horas após o início dos incidentes foi declarado em segurança pelas autoridades.

O Presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou que os violentos protestos ocorridos no Capitólio foram "um ataque sem precedentes à democracia" do país e instou Donald Trump a pôr fim à violência.

Pouco depois, Trump pediu aos seus apoiantes e manifestantes que invadiram o Capitólio para irem "para casa pacificamente", mas repetindo a mensagem de que as eleições presidenciais foram fraudulentas.