Presidenciais

Marcelo Rebelo de Sousa: aprender a perder para depois ganhar o país

Rafael Marchante

Marcelo Rebelo de Sousa foi um predestinado. Nasceu e cresceu à boleia da ditadura, mas a sua luta foi pela democracia. Parecia não alimentar a vontade de alcançar altos cargos políticos e chegou mesmo a invocar o nome de Deus em vão: "Nem que Cristo desça à Terra!", dizia Marcelo. Declarou também que dez anos como Presidente da República era muito tempo. Mas ei-lo de novo a contrariar-se e a seguir o caminho que já lhe vinha a ser apontado.

“Nasci em finais de 1948, numa família de média burguesia lisboeta, o pai médico, de origem minhota, salazarista da primeira geração da Mocidade Portuguesa, a mãe assistente social, de ascendência beirã. Um e outro, curiosamente, reticentes aos excessos do liberalismo económico, preocupados com os mais pobres”, contou Marcelo Rebelo de Sousa num perfil publicado em 1998.

Cada pormenor por si referido veio a revelar-se visceral. O pai, Baltazar Rebelo de Sousa, ocupou o cargo de subsecretário de Estado da Educação no Governo de Salazar, quando Marcelo tinha ainda seis anos.

“O meu pai levou-me a cerimónias e conheci por dentro os bastidores da ditadura. Isso permitiu-me conhecer as estruturas políticas, assistir aos debates políticos, caladinho, desde muito cedo.”

Visita de Baltazar Rebelo de Sousa a Figueiró dos Vinhos

Visita de Baltazar Rebelo de Sousa a Figueiró dos Vinhos

Biblioteca Municipal de Figueiró dos Vinhos from Portugal, CC BY 2.0 , via Wikimedia Commons

Gerou-se, literalmente, à boleia da política. A sua mãe Maria das Neves, entrou em trabalho de parto à saída do trabalho. Baltazar não tinha carro e foi Marcello Caetano, padrinho de casamento dos pais de Celinho - como era chamado em criança - que levou a mãe até ao hospital. Caetano era, na altura, Presidente da Comissão Executiva da União Nacional. Não quis ser seu padrinho, mas emprestou-lhe o nome.

A 12 de dezembro de 1948 nasceu Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa - Marcelo Nuno para se distinguir do outro Marcello, que sucedeu no poder a Salazar e que viria ainda a ser seu professor na faculdade.

Foi o primeiro de três filhos rapazes, um aluno excecional - toldado pelo rigor e exigência dos pais -, que chegou a receber o prémio de melhor aluno do liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Foi sombra do pai a correr país de lés a lés na infância e íntimo da mãe, que o ajudava a estudar.

“Os meus pais eram muito afetivos. Tinham tido uma juventude infeliz. A minha mãe porque era órfã de pai e de mãe e o meu pai ficou órfão também aos quatro anos. E quiseram formar uma família que compensasse aquilo que tinham tido de menos bom quando filhos.”

Após o 25 de Abril, os pais e irmãos procuraram refúgio no Brasil, à semelhança de outros ministros e governantes do regime. Marcelo ficou em Portugal com a promessa de jantar semanalmente em casa de Marcello Caetano.

Família Rebelo de Sousa

Família Rebelo de Sousa

Câmara do Comércio Portugal Moçambique

Na juventude dedicou-se a colaborar com as Conferências de São Vicente Paulo para entregar comida aos pobres e integrou vários movimentos católicos. Manteve sempre uma forte ligações à Igreja e, como gosta de aproveitar bem o tempo, às vezes reza o terço no carro entre compromissos. É um homem de fé, que coloca a crença acima da razão.

Gostava de conviver com os amigos e de lhes pregar partidas ao mesmo tempo que estudava afincadamente. Aliás, aproveitava as férias de verão para antecipar a matéria. “Não sou sobredotado”, esclareceu Marcelo numa entrevista onde fez questão de referir que as conquistas académicas foram fruto de uma dedicação intensa.

Licenciou-se em Direito na Universidade de Lisboa com a classificação de 19 valores. Foi lá que se voltou a encontrar com Marcello Caetano, seu professor de Direito Administrativo. Nos corredores, Marcelo Nuno cumprimentava-o, mas Caetano não retorquia. Só depois de uma prova oral é que confessou ao jovem aluno que gostava que ele se dedicasse à vida académica.

Os loucos anos 80

Aos 23 anos, saltou para o jornalismo e integrou a equipa do Expresso. Passa também a ser homem casado e de família, apesar de dedicar mais tempo às notícias. Casou-se com Ana Cristina Motta Veiga, com quem viria a ter dois filhos, Nuno e Sofia. Separou-se em 1980 e, por convicção católica, nunca mais se voltou a casar.

“O casamento foi, talvez, a história menos bem sucedida da minha vida”, admitiu.

Marcelo namora desde os anos 80 com Rita Amaral Cabral.

Como jornalista era irreverente, forçando a corda com a censura. Fez com que o Expresso passasse a ser sujeito a prova de página - isto é, uma revisão prévia da censura, que atrasava a impressão e distribuição do jornal. Balsemão não teria ficado satisfeito. Mas menos satisfeito ficou Marcello Caetano que rompeu a relação com o seu homónimo. O jovem jurista, jornalista e também deputado da Assembleia Constituinte - participou na criação da Constituição de 1976 - endereçou-lhe cartas que não mereceram resposta.

No semanário Expresso, a excentricidade e capacidades quase sobrehumanas de Marcelo continuaram a chamar a atenção. Segundo confessa o próprio, conseguia ditar textos em simultâneo a duas secretárias, intercalando entre um e outro sem nunca perder a última palavra que tinha proferido. Aos 31 anos, chega à direção do jornal. Em 1983, passou a dirigir o jornal Semanário, publicação da qual também foi acionista fundador.

Seguia a carreira como jornalista, ao mesmo tempo que alavanca com a carreira académica e política. Os anos 80 foram passados a dar cartas em várias frentes. Em 81, ingressou no Governo de Francisco Pinto Balsemão como Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e, em 82, assumiu a pasta dos Assuntos Parlamentares. Com Durão Barroso, José Miguel Júdice e Santana Lopes criou uma oposição interna no PSD contra o Bloco Central, que viria a resultar na chegada de Cavaco Silva à liderança dos sociais-democratas em 1984.

Nesse mesmo ano, doutorou-se em Ciências Jurídico-Políticas na Universidade de Lisboa, onde viria, seis anos mais tarde, a ser professor catedrático. Consta que Marcelo era um professor muito próximo e popular entre os alunos e que, inclusive, chegava a reuni-los em jantares e saídas à noite.

Mas um novo desafio estava prestes a bater-lhe à porta com a chegada dos anos 90. Jorge Sampaio candidatava-se à Câmara de Lisboa pelo PS e era preciso um adversário que lhe pudesse desafiar a popularidade. O objetivo não foi atingido e Marcelo acabou por perder, mas até lá protagonizou momentos ao estilo dos que vemos hoje em dia.

Perder para depois ganhar

Atirou-se ao rio Tejo para chamar a atenção para a poluição da água, mesmo sendo hipocondríaco. Diz que chegou a consultar um médico que lhe recomendou algumas vacinas, mas não havia tempo. Marcelo mergulhou de cabeça na campanha. Fez recolhas de lixo, foi taxista por um dia e visitou bairros de lata. A educação que recebera dos pais marcava as suas atitudes.

“A minha mãe dizia-me: não te esqueças de A, B ou C, que são a maioria dos portugueses”, contou numa entrevista intimista a Daniel Oliveira.

Nessa campanha, Marcelo Rebelo de Sousa terá conhecido uma aluna de 19 valores que queria seguir Direito, mas não tinha dinheiro para entrar na Faculdade. O professor, então candidato à autarquia de Lisboa, pagou-lhe os estudos e as roupas. E este não terá sido caso único.

Numa entrevista, Vítor Matos, jornalista e biógrafo, revelou: “Lembro-me que fiquei surpreendido quando descobri que ele pagou os estudos universitários a dezenas de jovens que tinham capacidades mas não possuíam condições económicas. Quando soube disso, já estava a rever as provas do livro e acrescentei essas informações escritas à mão em páginas que já estavam fechadas”.

Ficou como vereador sem pelouro na Câmara Municipal de Lisboa, mas, mesmo assim, compareceu em quase todas as reuniões municipais. Nesses anos, começou a dar notas aos políticos, num espaço de comentário na TSF. Foi o primeiro passo para o que viria a ser o seu grande palco: a televisão.

Chegou à liderança do PSD em 1996 e lá se manteve enquanto o seu amigo António Guterres , do Partido Socialista, liderava o país. Na altura, o governo socialista era minoritário e foi a bancada laranja que viabilizou os Orçamentos do Estado. A proximidade com os socialistas é ainda hoje criticada a Marcelo, mas a aposta em entendimentos e estabilidade já vinha de trás.

“Sou um fazedor de pontes até ao limite”, confessou, em 2015.

Jose Manuel Ribeiro

Mas foi uma ponte mal construída com o CDS-PP, na altura liderado por Paulo Portas, que fez com que Marcelo caísse da liderança do PSD e sucumbisse o desejo de ser primeiro-ministro. Marcelo tentou reeditar a aliança democrática com os centristas, mas não houve entendimento.

Marcelo na TV: Timidez passou a extroversão em excesso

Em 2000, aceitou o convite da TVI para entrar na casa de todos os portugueses e levar a política através de um discurso simples e próximo. A investigadora Rita Figueiras, que estudou o “efeito Marcelo na televisão”, sublinha a “nova forma de fazer comentário”, com uma “linguagem acessível a quase todos”. Mas a relação com a televisão não foi tão imediata.

“Sou um tímido corrigido. As pessoas achavam que era extrovertido. Quando era criança e jovem era tímido. Uma timidez corrigida dava uma extroversão em excesso e isso notava-se muito na ligação com a TVI no início”, confessou Marcelo no programa Alta Definição.

Marcelo foi um fenómeno de popularidade. Criticou o PSD, apontou o dedo a Santana Lopes quando chegara a primeiro-ministro e não foi perdoado. O na altura ministro Rui Gomes da Silva atacou o comentário de Marcelo e o facto de “perorar 45 minutos sobre política sem qualquer contraditório". A direção da TVI pediu a Marcelo para se moderar. Marcelo saiu e a imagem de Santana Lopes foi abalada.

Seguiu para a RTP, tendo voltado para o canal quatro em 2010, de onde só saiu para anunciar a sua candidatura à Presidência da República em 2015. Foi na terra da sua avó Joaquina, em Celorico de Basto, que se lançou no novo desafio. E era o passo que faltava a Marcelo.

Já em 2012, o jornalista Vitor Matos tinha vaticinado acerca da biografia de Marcelo: “É qualquer coisa de não realizado na vida. Ele acha que não. Mas acho que para fechar a biografia tinha de ser primeiro-ministro ou Presidente da República.”

Nem que Cristo desça à Terra!

Parece que Marcelo tem em si o gosto de recusar aquilo que lhe está, de certa forma, predestinado. Quando foi indicado como líder do PSD, respondeu: “Nem que Cristo desça à Terra”. O mesmo aconteceu quando o seu nome começou a ser mencionado como um possível candidato a Belém em 2015. Acabou por se candidatar e por vencer. Apesar de não defender um mandato único, Marcelo chegou a dizer “dez anos, para um Presidente, é demais”. E ora que, em 2020, guardou até à última o anúncio da recandidatura que já todos davam como certa.

Cristo não desceu à Terra, mas Marcelo seguiu-lhe os passos e tornou-se omnipotente e omnipresente ao longo dos últimos cinco anos. Tornou-se o Presidente dos afetos, das selfies, que dançou em São Tomé e Príncipe e que começou a ser tratado por Tio Celito em Angola. O Presidente nadador-salvador, que aparece de tronco nu na televisão, quer esteja na praia quer esteja a ser vacinado.

“Quem avança para esta eleição é exatamente o mesmo de há cinco anos”, afirmou Marcelo na apresentação da sua recandidatura.

As sondagens apontam-no como vencedor certo das eleições presidenciais, sem margem para uma segunda volta. Disse, antes ainda de vencer o primeiro mandato, que gostaria de ser recordado como um bom pai, um bom avô e um bom professor. Será, certamente, também lembrado como o "Presidente Marcelo".