Presidenciais

Ana Gomes: a mulher, diplomata e eurodeputada que marcou a história de Portugal

Manuel Almeida

Tem muitos críticos, mas também reúne um grupo de apoiantes aguerridos. Não é uma mulher consensual e, talvez, seja esse o seu principal objetivo. É conhecida pelas opiniões vincadas e pelas expressões acentuadas - principalmente, o semicerrar dos olhos. Inegável é o seu currículo: lutou pela independência de um país em guerra, trabalhou como diplomata e como eurodeputada.

Ana Maria Rosa Martins Gomes, nascida a 9 de fevereiro de 1954, em Lisboa, foi uma das mais altas representantes de Portugal em vários países. É conhecida pelas suas funções como diplomata e eurodeputada, dois cargos aos quais dedicou anos de vida, mas aos quais não pode ser reduzida.

É mulher, mãe, avó, política, ativista pelos Direitos Humanos. Tem traços revolucionários e progressistas, que não vêm descritos no currículo, mas que se denunciam no seu o discurso: “Vivi 20 anos em ditadura e, quando vejo uma, reconheço-a”. É uma frase usada por si muitas vezes, mesmo antes de ser candidata à Presidência da República. E, quando a profere, adota um tom sério, muda a expressão e coloca um semblante de quem, no fundo, quer dizer: “Estou a alertar-vos”.

O regime de Salazar, o 25 de Abril e o colonialismo tocam-lhe no íntimo. O ativismo da jovem Ana parece ainda correr-lhe nas veias. Foram esses anos de desafio que a conduziram até ao momento atual.

No tempo de liceu procurou juntar-se aos que combatiam o regime por achar que o “colonialismo era o outro lado do fascismo”. Filiou-se no MRPP, partido que tinha como prioridade a luta contra a Guerra Colonial. Mas pouco tempo durou. Numa entrevista ao site da SIC Notícias admitiu que foi uma escola importante, que não renega, embora hoje considere algumas posições do partido condenáveis. Afastou-se do partido em 1976 por descrença do MRPP em relação ao regime democrático, que a própria defendeu a 25 de novembro de 75 aquando da tentativa de um golpe militar.

Licenciou-se em Direito em 1979 e obteve um diploma em Direito Comunitário em 1981. Inicialmente, queria ser advogada, até que começou a interessar-se por tudo o que estivesse relacionado com a ação internacional do país.

As viagens com o pai, que era comandante da marinha mercante, trouxeram-lhe a perceção de que a imagem de Portugal era muito má no exterior e que queria contribuir para a mudança, "ao promover a nova imagem do novo Portugal democrático”.

Aos 28 anos em Belém

Depois da faculdade, concorreu para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde trabalhou durante dois anos, antes de ter recebido um convite para ser consultora do então Presidente da República, Ramalho Eanes. Chegou a Belém aos 28 anos. "Tinha um olhar e tinha um relacionamento com toda a Administração Pública, com todo o MNE, com toda a área de relações internacionais, intervindo em visitas de Estado, ajudando a organizar."

Começou a ser o braço direito do Presidente nas visitas de Estado, que contava com ela para a interpretação. Esteve com a Rainha Isabel II, com o Presidente norte-americano Ronald Reagan e com o francês François Mitterrand.

"Há imensas histórias extraordinárias que vivi e, portanto, foi uma experiência diplomática incrível que me deu muita boa base para o resto da minha carreira", disse, explicando que foi nessa altura que começou a tratar a questão de Timor, que tanto interessava a Ramalho Eanes.

A missão em Jacarta

A 30 de janeiro de 1999, chegou a Jacarta, na Indonésia, naquela que viria a sua maior missão como diplomata: conseguir restabelecer as relações diplomáticas com o país e resolver o processo de Timor, que esteve sob domínio indonésio durante 24 anos. Foram anos de execuções, de tortura e fome - estima-se que tenham morrido 100 mil timorenses ao longo do período de ocupação. A invasão da ex-colónia portuguesa deu-se no final de 1975 sob o pretexto de anti-colonialismo, enquanto Portugal ainda estava a tentar implementar um regime democrático.

O sufrágio do povo timorense era um assunto que interessava a Portugal e, em particular, a Ana Gomes que já o acompanhava de perto desde a entrada para o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Foi a escolhida pelo ministro Jaime Gama para liderar o processo de independência de Timor-Leste e a retoma das relações diplomáticas com a Indonésia, a partir da embaixada da Holanda em Jacarta.

Tinha 45 anos quando chegou ao território indonésio para participar num jogo diplomático, que acabou por ser bem sucedido e por lhe valer o prémio de personalidade do ano, atribuído pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal. Durante o ano de 1999 manteve conversas com Habibie, o então Presidente da Indonésia, e com o ministro Ali Alatas, sempre com o processo de Timor-Leste em cima da mesa.

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Trabalhou em Jacarta para que Portugal conseguisse o acordo com a Indonésia assinado a 5 de maio em Nova Iorque, com vista à realização de um referendo para determinar o futuro do território, que veio a realizar-se a 30 de agosto. Na consulta pública, a esmagadora maioria votou a favor da independência de Timor-Leste, levando a uma onda de violência pelos militares indonésios que devastou o país.

Só em outubro de 1999, o governo indonésio aceitou o resultado do referendo, revogando a legislação que anexava Timor-Leste à Indonésia. A decisão permitiu às Nações Unidas aprovar uma resolução com o objetivo de criar uma administração transitória, que acabou com a independência de Timor-Leste em maio de 2002.

“Como diplomata foi, sem dúvida, a mais importante missão, de tal maneira que, quando cheguei ao fim de quatro anos em Jacarta, não quis ir para mais posto nenhum e entendi suspender a minha carreira diplomática porque achei que qualquer outro posto seria um anticlímax comparado com o que tinha sido o privilégio de servir Jacarta, não só por causa do processo de Timor.”

A relação sinuosa com o Partido Socialista

Ainda estava em Jacarta quando foi desafiada por Ferro Rodrigues a integrar a direção do Partido Socialista em 2002. Tem o PS como um posto de grande pluralidade e grande vivacidade e, talvez por isso, continue a ser militante apesar das constantes críticas internas.

Foi no dia 10 de fevereiro de 2003 que assumiu funções no Partido Socialista. Admite que gostou imenso de trabalhar na direção de Ferro Rodrigues - integrada também por António Costa.

Em entrevista ao site da SIC Notícias, feita antes de anunciar a candidatura a Belém, Ana Gomes admitiu que os tempos mudaram e que "muita água passou sobre as pontes, por baixo das pontes" e que a situação de hoje é diferente.

A amizade com Ferro Rodrigues, agora Presidente da Assembleia da República, mantém-se, mas confessa a inimizade e a falta de empatia política e pessoal com outros rostos fortes do partido.

"Passei por várias fases, conheço hoje melhor o partido, há certas coisas com as quais me identifico e, por isso, sou membro do partido. Há outras coisas com as quais não só não me identifico como combato e, por isso, sou a crítica que sou. E não abdicarei nunca de ser. Como nunca deixei de o ser.”

A relação sinuosa com o Partido Socialista ficou patente nestas eleições presidenciais, optando por não apoiar Ana Gomes.

Workhaolic no Parlamento Europeu

Chegou em 2004 ao Parlamento Europeu, depois de ter sido eleita eurodeputada pelo Partido Socialista, dedicando-se a um trabalho duro. Foram 15 anos de vida, ao longo de três mandatos, em que se empenhou a criar respostas para a crise dos refugiados, para os constantes casos de corrupção, integrando a área de segurança e relações internacionais do parlamento.

Os primeiros anos foram de frustração pela falta de visibilidade que era dado ao trabalho desenvolvido em Bruxelas, quer pela própria, quer por outros eurodeputados portugueses.

(Arquivo)

(Arquivo)

Darrin Zammit Lupi

Ainda durante esse ano tudo viria a mudar com a crise económica e financeira, que levou à queda do banco de investimento Lehman Brothers. Com as políticas de austeridade a bater à porta dos portugueses, Ana Gomes sentiu a necessidade de intervir mais, de mostrar que esse caminho não seria bom para Portugal e, consequentemente, para a Europa. A partir daí, passou a ter mais espaço nos media com o objetivo de explicar as políticas europeias.

Em 2019, não se recandidatou ao Parlamento Europeu por defender a limitação de mandatos.

Carrega bandeiras importantes para a democracia, como a luta pelos Direitos Humanos e o combate à corrupção. Tem alma de ativista, de socialista, de combatente - uma alma marcada pela revolução e vincada pela perspetiva europeia.

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