Apesar de enfrentar um desafio urgente, eSwatini é um país que raramente chega às manchetes internacionais. Num contexto onde persistem fragilidades médicas em áreas como a saúde sexual e reprodutiva e no apoio a vítimas de violência sexual, o país foi recentemente classificado em segundo lugar no ranking global de suicídios pela Organização Mundial da Saúde.
A combinação infeliz de baixos rendimentos, fracos apoios sociais, acesso limitado à educação, baixo nível de desenvolvimento e cuidados de saúde insuficientes cria circunstâncias difíceis e complexas que, muitas vezes, se perpetuam de geração em geração.
“Atualmente, temos mais de um milhão de habitantes, mas apenas um hospital psiquiátrico em todo o país: o Hospital Nacional de Referência Psiquiátrica, situado em Manzini. Esta unidade recebe pessoas das quatro regiões e o acesso é difícil para a maioria, devido à distância que têm de percorrer”, frisa Nomthandazo (“Nomté”), psicóloga da Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Clínica Sitsandziwe.
Nestas condições, as questões de saúde mental e de saúde sexual estão profundamente interligadas. As dificuldades socioeconómicas e a desvalorização social destas áreas podem conduzir tanto a problemas de saúde mental como a comportamentos sexuais de risco, comprometendo o bem-estar das pessoas. Os transtornos mentais podem também afetar a autoestima e o controlo emocional, o que pode aumentar a probabilidade de práticas sexuais inseguras.
“Os problemas de saúde mental podem ser tão graves quanto doenças físicas, como a sífilis ou a gonorreia e, por vezes, até mais difíceis de tratar. É por isso que, na clínica da MSF, fornecemos não só diagnóstico e tratamento médico para infeções como a gonorreia e a hepatite, mas também apoio especializado em saúde mental para questões como o stress, a ansiedade e a depressão”, explica o responsável médica do projeto da MSF, Florian Prechter.

Um espaço seguro para os homens também
Os serviços de saúde sexual e reprodutiva são, muitas vezes, vistos como destinados sobretudo às mulheres. Essa perceção, porém, está longe de refletir a realidade. Os homens também enfrentam necessidades urgentes de apoio, tanto em saúde sexual como em saúde mental, apesar dos estereótipos que os desencorajam a procurar ajuda.
“Existem também crenças culturais, como a ideia de que os homens não choram e não devem mostrar-se vulneráveis. Isso torna-se numa barreira para quem precisa de pedir apoio”, sublinha Nomté. “As baixas taxas de emprego e as dificuldades económicas também contribuem para comportamentos associados ao suicídio, como o desejo de morrer ou a automutilação. As pessoas acabam por adotar maneiras pouco saudáveis de lidar com as situações difíceis que têm e, na maioria dos casos, isso torna-se extremo.”
Por estas razões, a saúde mental é frequentemente desvalorizada, num momento crítico em que a população enfrenta múltiplas vulnerabilidades. Na cidade de Manzini, o maior centro industrial do país, onde vivem estudantes universitários, trabalhadores fabris e uma população jovem e marginalizada, estes serviços são vitais.
“Apesar dos nossos esforços para reforçar a sensibilização e encorajar o apoio, apenas 20 por cento dos nossos pacientes são homens”, aponta Prechter. “Procurar acompanhamento psicológico ainda é, muitas vezes, visto como um sinal de fraqueza. Mas, para sermos mesmo saudáveis, temos de cuidar da mente como cuidamos do corpo. Falar com um psicólogo não é um sinal de mais fraqueza do que falar com um médico.”
Um projeto para a população
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) trabalha no eSwatini há cerca de 20 anos, centrando-se nas necessidades de comunidades que enfrentam taxas elevadas de doenças como o VIH e infeções sexualmente transmissíveis. A Clínica MSF Sitsandziwe (que em português significa “Somos Amados”), inaugurada em outubro de 2023, fornece cuidados médicos e psicológicos integrados.
A clínica disponibiliza testes laboratoriais e tratamento para infeções sexualmente transmissíveis, testes de VIH e encaminhamento para tratamentos redobrados, bem como profilaxia pós-exposição e terapia antirretroviral. Os profissionais de saúde apoiam sobreviventes de violência sexual e baseada no género, providenciam planeamento familiar e cuidados de interrupção segura da gravidez, ao mesmo tempo que realizam rastreios e prevenção do cancro do colo do útero. Os serviços de saúde mental e acompanhamento psicológico estão integrados em todas as áreas de atendimento, reconhecendo a forte ligação entre o bem-estar emocional e a saúde sexual.
No lado de fora das paredes da clínica, as equipas da MSF realizam ações de consciencialização e apoio comunitário, em colaboração com líderes locais e organizações parceiras. Atividades que ajudam a reduzir o estigma e a incentivar tanto homens como mulheres a procurar cuidados.
“Cuidamos tanto do corpo como da mente. Os problemas físicos podem causar problemas mentais, e o inverso também é verdade. Há muitos fatores que podem afetar o nosso bem-estar psicológico: um diagnóstico recente, dificuldades no trabalho ou problemas numa relação, um futuro incerto ou simplesmente o peso constante de más notícias”, explica Florian Prechter.
“Fui abusada sexualmente, agora sofro psicologicamente”
Apesar do forte estigma que impede muitas pessoas de falar sobre os problemas que enfrentam – físicos ou mentais – Zia* (nome fictício), uma jovem de 21 anos do eSwatini, quis partilhar a sua história com a MSF:
“Nasci em KaHltatsi e vivi com a minha avó até aos sete anos. Depois, tive de ir viver com familiares, o que me deixou desconfortável, porque um dos meus parentes abusou sexualmente de mim. Isso tornou a minha vida muito difícil.
Conheci a Maphalala, psicóloga da MSF na Clínica Sitsandziwe, depois de descobrir que estava grávida. Ela perguntou-me se eu conseguiria lidar com a situação. Respondi que seria muito difícil, e ela sugeriu que tivéssemos algumas sessões de apoio psicológico. Desde então, temos tido essas sessões.
Foram mesmo muito úteis. Demorei algum tempo a voltar a sentir-me bem comigo, porque a gravidez fez reviver a dor do abuso sexual. As sessões deram-me mecanismos para enfrentar o trauma, sobretudo para conseguir dormir.
Eu gosto de estar sozinha, mas digo sempre a mim mesma que estas sessões estão a ajudar-me. Continuo a frequentá-las até hoje.
Neste momento, ainda não estou bem. Continuo a ter insónias e a enfrentar o trauma, mas espero que, com o tempo, tudo se resolva. Esta é a minha história.”
Zia é uma das 314 pessoas que receberam consultas de saúde mental pelas equipas da MSF até setembro de 2025: homens e mulheres que procuraram apoio devido a ideias suicidas, stress, trauma, ansiedade ou sofrimento emocional. Estes casos não se limitam a questões de saúde sexual e reprodutiva, mas abrangem também dificuldades familiares e desafios emocionais mais amplos.
“A nossa clínica fica em Manzini, a região mais populosa do país. Tem uma população jovem e móvel, com um caráter temporário ou migratório. Inclui grupos socioeconómicos diversos – estudantes universitários, operários fabris e trabalhadores do sexo, entre outros –, tornando-se num ponto crítico onde a necessidade de cuidados de saúde sexual e mental é extremamente elevada”, conclui o coordenador médico da MSF no eSwatini, Joseph Joe.
NOTA - eSwatini ou Essuatíni é um país da África Austral, anteriormente designado por Suazilândia. A organização Médicos Sem Fronteiras preferiu optar pela grafia eSwatini por ser a forma estilística usada no idioma local.


