O céu sobre El Manchén está tão azul como sempre. Neste subúrbio da capital das Honduras, Tegucigalpa, as ruas estão repletas de pessoas a caminho do trabalho e os carros buzinam no trânsito intenso. A olho nu, esta zona urbana densamente povoada parece-se em tudo com o que era há dois anos. Mas uma equipa da Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem estado a trabalhar arduamente nos últimos três anos para fazer uma mudança microscópica que pode salvar vidas.
Testes realizados logo em 2024, cerca de um ano após o arranque do projeto, revelaram que oito em cada dez mosquitos capturados em El Manchén transportavam Wolbachia, uma bactéria inofensiva presente em mais de 50 por cento dos insetos. Um ano antes, praticamente nenhum dos mosquitos locais era portador desta bactéria natural. E El Manchén apresentava, nessa altura, uma das mais elevadas taxas de dengue da cidade. Atualmente, a prevalência de Wolbachia na população de mosquitos Aedes aegypti em El Manchén é de 97,8 por cento.
Isto é importante porque a Wolbachia reduz drasticamente a probabilidade de os mosquitos transmitirem doenças como a dengue, que é potencialmente fatal e afeta entre 100 milhões e 400 milhões de pessoas em todo o mundo, todos os anos.
A equipa da MSF envolvida no Projeto de Prevenção de Arbovírus em Tegucigalpa libertara, desde meados de 2023, mais de oito milhões de mosquitos deliberadamente infetados com a bactéria Wolbachia no subúrbio de El Manchén – o propósito era que estes mosquitos prosperassem, se reproduzissem e transmitissem a Wolbachia através de gerações, reduzindo drasticamente a incidência de dengue na região.
Esta iniciativa inovadora combinou a ciência e a participação das comunidades para reduzir a transmissão da doença. Quase três anos passados, o projeto com mosquitos foi concluído com resultados promissores e os investigadores zumbem de entusiasmo.

Analisar os resultados científicos finais
Cessadas as atividades do projeto de prevenção nos subúrbios de Tegucigalpa, em setembro de 2025, o momento agora é de analisar os resultados científicos finais, estando prevista a publicação das conclusões do estudo no primeiro trimestre de 2026. Em simultâneo, as equipas da MSF continuam a fazer monitorização epidemiológica da dengue e de outras doenças por arbovírus na região.
“Este projeto mostra que a inovação e a participação das comunidades podem caminhar juntas para dar resposta às doenças que são transmitidas por vetores”, sublinha o coordenador deste projeto da MSF, Edgard Boquín. “Foi um projeto único dentro da MSF a nível global, que nos proporcionou lições valiosas em prevenção e saúde pública”.
Fruto de uma colaboração com o Ministério da Saúde hondurenho, a Universidade Nacional Autónoma das Honduras, o Programa Mundial de Mosquitos, a Região Metropolitana de Saúde do Distrito Central e as comunidades locais, o Projeto de Prevenção de Arbovírus em Tegucigalpa incidiu nos bairros de La Joya, El Edén e El Manchén. E, em todas as fases das atividades deste projeto de prevenção, houve uma forte participação das comunidades.
Além do uso de mosquitos portadores da bactéria Wolbachia, foram também levados a cabo outros métodos de controlo vetorial, como a pulverização do interior das casas e a aplicação de discos de piriproxifeno em poços de água. Em La Joya e em El Edén mais de 7500 casas foram pulverizadas e receberam tratamento das águas dos poços.
“Foi um verdadeiro trabalho de equipa”, aponta Edgard Boquín. “Esta é a primeira vez que a MSF e o Programa Mundial de Mosquitos trabalharam em conjunto na prevenção de arbovírus como a dengue. A nossa força no envolvimento comunitário e a perícia técnica do Programa Mundial de Mosquitos complementaram-se para tornar isto numa realidade”.
O coordenador do projeto recorda que “conforme os mosquitos eram libertados, cada vez havia mais mosquitos nesta zona, o que causou alguma aflição às comunidades locais”. “E quando eclodiu um novo surto de dengue na capital [no ano passado], ficou mais difícil abordar as pessoas para lhes falar sobre a dengue. Mas ao envolvê-las diretamente nas atividades, conseguimos fazer tudo o que tínhamos planeado.”
As primeiras análises estatísticas sugerem que a introdução da Wolbachia terá mesmo contribuído significativamente para a redução da incidência de dengue em El Manchén durante aquele surto. Os casos da doença foram notoriamente mais baixos do que acontecera nas tendências históricas de comparação entre este subúrbio e outras zonas que não receberam os mosquitos portadores da bactéria.
“O método da Wolbachia vai ser uma ferramenta muito positiva para reduzir a dengue nas Honduras. Há muito tempo que vemos o quanto as pessoas têm sofrido com a dengue, mas estamos já a ouvir histórias positivas das comunidades, de que algo está a mudar, depois de a Wolbachia ter sido libertada. Isto dá esperança às pessoas que tiveram dengue ou viram alguém que lhes é próximo ficar doente”, expressa ainda Edgard Boquín.


