UEFA Euro 2024

A 'última dança' de Cristiano Ronaldo na Europa

20 anos depois da estreia no Euro 2004, Cristiano Ronaldo vai para a sexta participação em Campeonatos da Europa, naquela que poderá ser a sua última aparição em grandes torneios no Velho Continente.

A 'última dança' de Cristiano Ronaldo na Europa
Rafael Carvalho Ferreira

12 de junho de 2004, Estádio do Dragão, Portugal-Grécia.

Era o jogo inaugural do Campeonato da Europa que Portugal acolhia com grande euforia e no relvado estava um 'menino' de 19 anos cheio de sonhos, com a ambição de vencer o troféu em casa.

Após ter entrado ao intervalo para o lugar de Simão Sabrosa, Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro, com o 17 estampado na camisola, não se acanhou e mesmo em cima do apito para o fim do jogo fez o gosto ao pé diante dos gregos.

Cristiano Ronaldo em ação na estreia de Portugal no Euro 2004 frente à Grécia, no Estádio do Dragão.
MLADEN ANTONOV


Apesar da derrota, ficou para sempre nos livros de História: a estreia de Cristiano Ronaldo na alta roda europeia. 20 anos depois esse menino amadureceu e vai para o seu sexto Campeonato da Europa, naquela que poderá ser a sua última dança na Europa.

Mas voltando a onde tudo começou, em 2004, no campeonato maldito para Portugal.

Depois de um arranque em falso diante os gregos, a Seleção Nacional aprendeu a lição e encontrou o rumo das vitórias na segunda jornada frente à Rússia.

Apesar do golo na ronda anterior, Luiz Felipe Scolari optou por deixar novamente o jovem madeirense no banco de suplentes e deu-lhe “apenas” 12 minutos de jogo, os suficientes para fazer estragos na defesa russa ao assistir Rui Costa para o segundo tento luso a um minuto do final do encontro.

Cristiano Ronaldo e Rui Costa a celebrar um golo no encontro de Portugal frente à Rússia, no Euro 2004.
Claudio Villa

“Felipão” sabia que tinha em mãos um diamante em bruto que precisava de lapidar e na derradeira jornada da fase de grupos, frente à Espanha, concedeu-lhe pela primeira vez a titularidade.

Portugal venceu a “vizinhança” e seguiu em frente na competição. Cristiano Ronaldo agarrou a titularidade a partir desse encontro para nunca mais sair.

Depois de ter sido um dos batedores dos penáltis que deram a vitória contra a Inglaterra, Ronaldo faturou na ronda seguinte diante os Países Baixos, ajudando assim a Seleção Nacional a chegar à final no Estádio da Luz.

A 4 de julho, Lisboa acolhia a tão aguardada final da competição. Se perguntassem às mais de 60 mil pessoas nas bancadas quem iria ser o campeão europeu, a maioria responderia a equipa da casa.

Mas tal feito não aconteceu. Nem a "Força" nem as bandeiras portuguesas à janela ajudaram a concretizar o sonho.

Um antagonista chamado Angelos Charisteas, de cabeça, gorou as aspirações lusas de conquistar o troféu pela primeira vez na história, e ainda por cima em casa.

Cristiano Ronaldo, no auge dos seus 19 anos, foi um dos mais inconformados com o duro golpe e as suas imagens a chorar copiosamente, colocaram os festejos dos gregos em segundo plano.

As lágrimas de Cristiano Ronaldo na final do Euro 2004 perdida diante da Grécia
Ben Radford

2008 com um peso na camisola

Quatro anos mais tarde, Portugal estava de regresso à maior competição europeia de seleções. Era altura de enxugar as lágrimas vertidas em pleno Estádio da Luz.

Novamente sob o comando de Luiz Felipe Scolari, a "Equipa das Quinas" apresentava-se na Áustria e na Suíça renovada e Cristiano Ronaldo assumia o peso da camisola 7, que Luís Figo deixara vaga após o Mundial 2006.

Cristiano Ronaldo, o "novo" número 7 português no Euro 2008.
Alex Livesey

Todas as atenções incidiam sobre o então jogador do Manchester United, que só ao segundo jogo deu ar da sua graça. Depois de ter ficado em branco frente à Turquia, CR7 anotou um golo e uma assistência diante da Chéquia.

Mas a prestação da Seleção Nacional e de Cristiano Ronaldo não iria além dos quartos de final. Frente a uma Alemanha poderosa, Portugal ainda mordeu os calcanhares da mannschaft mas foi mesmo para casa mais cedo, despedindo-se do Europeu e de Scolari, que foi anunciado como novo treinador do Chelsea já no decorrer da competição.

Cristiano Ronaldo em ação contra a Alemanha, nos quartos de final do Euro 2008.
PATRICK HERTZOG

2012, o ano da "injustiça"

Mais quatro anos e mais um Campeonato da Europa. Polónia e Ucrânia recebiam 16 seleções nos seus estádios e Cristiano Ronaldo era um dos maiores protagonistas.

Depois dos dois primeiros jogos em branco, o madeirense só viria abanar as redes ao terceiro jogo, frente aos Países Baixos, não com um mas com dois golos apontados, fazendo jus à expressão que dissera dois anos antes na África do Sul.

"Os golos são como o ketchup, quando aparece é tudo de uma vez", Cristiano Ronaldo, 13 de junho de 2010.
Cristiano Ronaldo em ação no Euro 2012
Julian Finney

Nos 'quartos', frente à Chéquia, marcou o golo solitário que deu a passagem da "Equipa das Quinas" às meias-finais, onde iria defrontar os "nuestros hermanos" espanhóis.

Depois do nulo no tempo regulamentar e no prolongamento, a passagem à final decidiu-se nos penáltis. A Espanha foi mais feliz na lotaria e seguiu em frente, após marcar quatro golos contra apenas dois portugueses.

"Injustiça": a única palavra de Cristiano Ronaldo após Portugal cair nas meias finais do Euro 202 diante da Espanha.
PATRICK HERTZOG

Enquanto os jogadores espanhóis faziam a festa, as câmaras focavam o rosto de desalento de Cristiano Ronaldo que, em pleno relvado da Donbass Arena, apenas dizia repetidamente que o resultado fora uma injustiça. Ainda não era desta, Cristiano.

2016, de empate a empate rumo à glória

Portugal começou a prova com duas exibições tímidas frente à Islândia e Áustria, só ao terceiro jogo é que a veia goleadora surgiu. Apesar dos três golos marcados à Hungria, dois deles apontados pelo capitão, a Seleção Nacional não saiu vitoriosa desse encontro, fazendo o pleno de empates na fase de grupos.

CR7 festeja um golo diante a Hungria na última jornada da fase de grupos do Euro 2016.
© Robert Pratta / Reuters

Apesar de ter conquistado apenas três pontos, Portugal conseguiu seguir para os 'oitavos' como um dos melhores terceiros classificados. Seguiram-se a Croácia e a Polónia no "mata-mata" mas Cristiano só viria a festejar um golo seu na meia final diante do País de Gales.

Um salto de outro mundo e um cabeceamento letal ajudaram Portugal, 12 anos depois, a marcar presença novamente numa final de um Campeonato da Europa.

Golo de Cristiano Ronaldo diante o País de Gales na meia final do Euro 2016.
Stu Forster

10 de julho de 2016, Stade de France. De um lado, a anfitriã França que queria fazer o 'tri' e logo em casa. De outro, estava uma seleção portuguesa que queria conquistar a Taça Henri Delaunay pela primeira vez.

Mas Portugal teve logo uma contrariedade na primeira parte. Cristiano Ronaldo, a maior figura, foi obrigado a abandonar o terreno de jogo após uma lesão no joelho esquerdo.

O capitão ainda tentou continuar em campo mas nem a borboleta que pousou no seu rosto o ajudou. Aos 25 minutos, teve mesmo de ser substituído por Ricardo Quaresma e não conteve as lágrimas por não conseguir ajudar a sua seleção.

Ronaldo não conteve as lágrimas ao aperceber-se que não conseguia continuar a jogar a final frente à França.
Laurence Griffiths

Após o nulo nos 90 minutos, o encontro foi a prolongamento, até que um jogador improvável vestiu a capa de super-herói e resolveu o encontro. Éder, aos 109 minutos, de fora de área fuzilou a baliza à guarda de Hugo Lloris e deu o primeiro título europeu de seleções a Portugal.

Cristiano Ronaldo com a taça de campeão europeu, conquistada no Euro 2016.
VI-Images

As lágrimas que Cristiano Ronaldo verteu de tristeza aquando da sua saída forçada transformaram-se em lágrimas de felicidade por finalmente vencer um título coletivo ao serviço da Seleção Nacional.

Depois de vencer tudo o que havia por vencer a nível de clubes e também individualmente, aquele menino que nasceu na ilha da Madeira conseguiu vingar a tragédia grega de 2004.

2020, o chocolate belga que trouxe azia

Depois de uma pandemia de covid-19 que assolou o mundo inteiro, o Euro 2020 realizou-se em 2021. Portugal ficou cinco anos como campeão europeu em título e um dos favoritos a vencer a competição, que se realizou em várias cidades europeias.

A Seleção Nacional estava no "grupo da morte", juntamente com Alemanha, França e Hungria e chegava à competição como o "rei da Europa", era o campeão europeu em título e tinha vencido a Liga das Nações dois anos antes, no Estádio do Dragão.

Festejo de Cristiano Ronaldo após golo frente à França no Euro 2020, em Budapeste.
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Na fase de grupos, Portugal fez um 1X2. Venceu os húngaros no arranque, perdeu com os alemães e empatou com os franceses. Resultado? A "Equipa da Quinas" qualificou-se para os 'oitavos' ao terminar no terceiro posto. Nada de novo...

Na fase seguinte, em Sevilha, a seleção defrontava a Bélgica, orientada por Roberto Martínez. Um golo belga ainda na primeira parte deixou um amargo de boca aos portugueses, que foram para casa mais cedo do que o planeado.

Final do encontro entre Portugal e Bélgica que ditou o adeus luso do Euro 2020.
Thanassis Stavrakis

Terminada a competição em que a Itália saiu coroada como a nova campeã da Europa, Cristiano Ronaldo também recebeu a coroa de melhor marcador da competição, com cinco golos em quatro jogos.

2024, a oportunidade de bisar

Se três é a conta de Deus fez, seis é a conta que Cristiano Ronaldo quer. Aos 39 anos está a caminho da sua sexta participação em Campeonatos da Europa.

Cristiano em ação pela Seleção Nacional no particular frente à Eslovénia, em março de 2024.
MB Media

Agora sob o comando de Martínez, o carrasco de 2021, Portugal quer voltar a sagrar-se campeão europeu e para isso conta com a experiência de jogadores como Cristiano Ronaldo, Pepe ou Danilo mas também com a juventude e irreverência de Rafael Leão, João Neves e Francisco Conceição.

A experiência de Cristiano Ronaldo e a juventude de João Félix e Vitinha coincidem na Seleção Nacional.
Jurij Kodrun

Na sua provável 'última dança' na Europa, Cristiano Ronaldo apresenta-se na Alemanha com a mesma ambição que tinha há 20 anos, quando defrontou a Grécia no Dragão, na abertura do Euro 2004.

Entre as alegrias e tristezas que já passou, CR7 quer bater novos recordes e defender os já conseguidos.

Recordes, recordes e mais recordes

Desde janeiro de 2023 ao serviço dos sauditas do Al Nassr, Cristiano Ronaldo tem estado fora dos holofotes europeus desde então. Mas nos mais de 20 anos de carreira pelo Velho Continente, o capitão português acumulou vários recordes e terá ainda alguns à sua espera.

Ronaldo é o jogador com mais presenças em Campeonatos do Europa (cinco), com mais jogos disputados (25) e o melhor marcador (14 golos), marcando em todas as edições que participou.

Cristiano Ronaldo em jogo frente à República da Irlanda em que apontou dois golos e ampliou o recorde de golos pela Seleção Nacional. São agora 130 remates certeiros.
JOSE COELHO

O que há ainda por alcançar?

No dia 18 de junho de 2024, se entrar em campo frente à Chéquia, CR7 torna-se no jogador de campo mais velho a atual num Europeu, com 39 anos, quatro meses, e 13 dias, se o compatriota Pepe não fizer um minuto. Se nesse encontro em Leipzig, o madeirense fizer o gosto ao pé, será também o jogador mais velho a marcar numa fase final de um Europeu.

Se Portugal repetir o feito alcançado em 2016, CR7 poderá tornar-se no jogador mais velho a jogar, marcar e vencer uma final de um Campeonato da Europa.