Football Leaks

Rui Pinto "não é um delinquente" e ajudou "o interesse público"

RODRIGO ANTUNES

As declarações são de Edwy Plenel.

Edwy Plenel, fundador do jornal francês Mediapart, que colaborou na investigação do Football Leaks, defende que o pirata informático português Rui Pinto não deveria ser processado e que o direito de informar e ser informado é central para haver debate.

"[Rui Pinto] Não é um delinquente, permitiu revelar factos de interesse público sobre o peso do dinheiro no desporto mais popular do Mundo, evasão fiscal e foi muito importante para a justiça, nomeadamente em França. Nós defendemo-lo e achamos que o trabalho que fizemos em conjunto, durante meses, é de utilidade pública", disse Edwy Plenel, fundador, diretor e presidente do jornal francês Mediapart, em entrevista à Lusa.

Edwy Plenel estará em Lisboa no dia 15 de maio para participar na conferência "Democracia e Liberdade de Imprensa", promovida pela revista Sábado. Plenel conta com mais de 40 anos de jornalismo, tendo sido diretor do diário Le Monde antes de fundar, há 11 anos, o jornal Mediapart.

Com um modelo económico quase único no Mundo, o jornal é pago integralmente pelos seus 160 mil subscritores, sem publicidade nem outros tipos de apoio.

Os recursos angariados através das subscrições pagas tornam ainda possível que algumas investigações sejam divulgadas ao público em geral e o portal na Internet conta com 4 milhões de acessos únicos por mês.

"O modelo pioneiro do Mediapart é o único modelo viável para ter informação de qualidade, com rigor, leal e ao serviço do direito de informação do público, ou seja, o contrário do entretenimento, das opiniões, da facilidade e da superficialidade", defendeu o seu fundador.

A par do sucesso comercial, o Mediapart tem feito manchetes que fazem tremer o poder económico e político em França como a denúncia do financiamento líbio da campanha do antigo Presidente Nicholas Sarkozy, financiamento ilegal da herdeira da L'Oreal, Liliane Bettencourt, à direita francesa ou a evasão fiscal do antigo ministro Jérôme Cahuzac, que se demitiu em 2013 depois da notícia do jornal francês.

"O Mediapart está ao serviço do direito de informar. Nós não queremos demitir ministros, queremos sim colocar em cima da mesa questões de interesse público para que o debate aconteça. Claro que temos processos contra nós, em 11 anos perdemos cinco processos entre mais de 200 que nos foram interpostos. E nunca perdemos por causa das notícias em causa", referiu Edwy Plenel.

Para este jornalista, "o critério para a divulgação de uma informação é o interesse público" e avaliar isso fica a cargo dos tribunais.

"Claro que já nos aconteceu publicarmos informações que saem do próprio segredo de justiça, do segredo da Defesa, do segredo dos negócios e até da vida privada. São segredos legítimos e, 'a priori', devem ser respeitados, mas se descobrimos que esse segredo é um álibi para esconder informações de interesse público, é nossa responsabilidade divulgá-las", indicou.

No entanto, Plenel compreende a desconfiança crescente face ao jornalismo.

"Há razões válidas para as pessoas desconfiarem dos meios de comunicação que, face à crise do digital, derivaram para o comentário, para as opiniões e para superficialidade das notícias. É a nós, aos jornalistas, que cabe reconquistar essa confiança. O Mediapart mostra que não há fatalidades, há muitos jovens que cresceram com o Mediapart e que nos leem", contou.

Para manter a independência financeira do Mediapart, Edwy Plenel e os restantes fundadores estão a preparar a criação de uma fundação.

"O nosso objetivo é agora que a independência económica do Mediapart seja duradoura, inviolável e sólida. Temos o projeto de uma fundação sem fins lucrativos que vai abranger todo o capital do Mediapart, tal como já acontece com The Guardian", concluiu.

Lusa