George Floyd

Antuérpia retira estátua do rei Leopoldo II de praça pública devido a protestos anti-racismo

OLIVIER HOSLET

No seu tempo, o rei aprovou a exibição de um "zoológico humano".

Uma estátua do rei dos belgas Leopoldo II, figura controversa do passado colonial da Bélgica, foi retirada esta terça-feira de uma praça pública em Antuérpia (norte) e transportada para um museu local.

A retirada, noticiada pela agência AFP citando fontes do município, ocorre depois das manifestações que juntaram milhares de pessoas em várias cidades belgas contra o racismo e em homenagem a George Floyd, o norte-americano negro morto em maio por um polícia branco nos Estados Unidos.

A estátua em causa, situada perto de uma igreja em Ekeren, foi vandalizada na semana passada.

A sua remoção do local, segundo Johan Vermant, porta-voz do burgomestre (presidente da câmara) de Antuérpia, Bart De Wever, já estava prevista no âmbito de uma remodelação da praça programada para 2023, mas a transferência para o Museu Middelheim foi antecipada depois de ter sido "seriamente vandalizada na semana passada".

"Devido à renovação da praça, a estátua não voltará a ser lá colocada e continuará provavelmente a fazer parte da coleção do museu", disse Vermant à AFP.

Um porta-voz do Museu Middelheim, conhecido por expor as esculturas ao ar livre, confirmou ter recebido a estátua e indicou que ela está no armazém do museu.

"Vamos ver em que estado está e depois veremos" que destino lhe será dado, disse.

Uma figura polémica

Leopoldo II (1835-1909) é há muito uma figura polémica na Bélgica pelos excessos do seu governo no antigo Congo belga, atual República Democrática do Congo, incluindo, segundo historiadores, a morte de cerca de 10 milhões de congoleses, mas a discussão pública em torno do antigo monarca reacendeu-se com o caso George Floyd.

Já este mês, os partidos maioritários no parlamento belga pediram ao executivo a criação de um grupo de trabalho para a "descolonização" do espaço público, através da revisão e remoção dos nomes de ruas e praças relativos à história colonial do país.

Nas últimas semanas, várias estátuas de Leopoldo II pelo país foram vandalizadas e foi lançada uma petição, de um grupo intitulado "Reparar a História", para a retirada das estátuas e bustos do antigo rei da capital belga.

"Estas estátuas não têm lugar em Bruxelas, com os seus 118 distritos com quase 200 nacionalidades representadas", lê-se na petição, que já tem mais de 40.000 assinaturas e está aberta a assinantes até 30 de junho, 60.º aniversário da independência do Congo.

Leopoldo II aprovou a exibição de um "zoológico humano"

O Congo foi declarado colónia da Bélgica em 1885, durante a Conferência de Berlim, que dividiu África entre as potências coloniais europeias. A colonização do Congo permitiu a Leopoldo II transformar a Bélgica numa potência através da exploração dos recursos congoleses, nomeadamente a borracha.

Para competir com os países que exploravam as vastas plantações de borracha da América Latina e Sudeste da Ásia, Leopoldo II escravizou a população congolesa e submeteu-a a grande violência, com historiadores a estimarem que, durante o seu domínio, a população do Congo foi reduzida a metade, em consequência da violência, fome, exaustão e doenças.

Na Exposição Universal realizada em Bruxelas em 1958, Leopoldo II aprovou a exibição de um "zoológico humano" de homens, mulheres e crianças congoleses, hoje um símbolo da desumanização dos congoleses promovida pelo monarca.

A fortuna reunida com a exploração e o comércio dos recursos congoleses foi aplicada pelo rei em grandes obras públicas, como o Palácio da Justiça de Bruxelas, um dos edifícios de pedra maiores do mundo.