Dois anos depois do massacre do Hamas, Israel tem uma prioridade declarada: evitar que um ataque como o de 7 de outubro se volte a repetir. O correspondente da SIC, Henrique Cymerman, investigou as mudanças já adotadas nos serviços de informações militares, que tentam agora aprender com os erros do passado.
No dia 7 de outubro de 2023 teve lugar o maior fracasso da história de Israel. O principal atentado terrorista da sua história não foi identificado a tempo. Os sinos não tocaram para avisar que 5.700 militantes do Hamas e da Jihad Islâmica se preparavam para um pogrom nas localidades do sul de Israel.
Mais de 1.200 pessoas foram assassinadas, queimadas vivas e algumas delas violadas, sendo 251 levadas para os túneis de Gaza.
Depois do 'sábado negro'
No Estado-Maior, na divisão de Gaza, muitos soldados estavam de licença, já que o "sábado negro" coincidiu com o dia de Simchat Torá, a última de uma série de festividades iniciadas com o Ano Novo judaico e o Yom Kipur, o Dia do Perdão.
Um jovem soldado de 19 anos, que nos dias anteriores tinha lido todos os comunicados de inteligência, percebeu que era iminente um ataque sem precedentes do Hamas. Em pleno período festivo, tentou alertar todos os seus superiores, mas ninguém acreditou nele.
Na noite de sexta-feira para sábado, já de madrugada, o jovem soldado, extremamente tenso, manteve-se acordado durante toda a noite.
Às 6:30 da manhã começou uma chuva de milhares de mísseis, seguida da invasão do Hamas nas cidades de Sderot, Ofakim e em 20 kibutzim e moshavim, comunidades agrícolas civis, na sua maioria de tendência pacifista.
Nos últimos dias foram divulgadas gravações com declarações à porta fechada do então chefe da inteligência militar (AMAN), que recentemente se demitiu, o general Aharon Haliva.
As missões israelitas
Esta é a mesma unidade de inteligência que, meses mais tarde, conseguiu desmantelar 90% do arsenal de mísseis do Hezbollah, a organização não estatal mais poderosa do mundo e que controlou o espaço aéreo do Irão, um país 80 vezes maior, durante 12 dias de guerra.
Em junho de 2025, a unidade, conjuntamente com a força aérea, criou um corredor aéreo de 2.000 quilómetros para centenas de caças israelitas entre Israel e o Irão.
Em setembro e outubro de 2023, o Hamas tinha conseguido adormecer a liderança israelita, que acreditava que o grupo estava a mudar e tinha decidido governar Gaza sem atentados terroristas.
Na inteligência israelita vive-se uma revolução cultural, que inclui, segundo dizem, a adoção do cepticismo. Por um lado, querem romper com a dependência excessiva da tecnologia, ou seja, da inteligência baseada em escutas e material online (SIGINT – Signal Intelligence), preferindo agora a informação proveniente de agentes (HUMINT – Human Intelligence) ou da inteligência de fonte aberta (OSINT – Open Source Intelligence).
Na prestigiada unidade 8200 da inteligência militar, há agora mais soldados que não só falam árabe, como também possuem um conhecimento profundo e íntimo do Islão, da cultura árabe e também da iraniana.
A AMAN voltou a ter agentes próprios em zonas palestinianas como Gaza e a Cisjordânia, onde até ao 7 de outubro atuava apenas o Shin Bet (SHABAK), o serviço de segurança interna.
No passado, 70% dos soldados desta unidade ingressavam nos setores tecnológicos, pensando no futuro das suas carreiras civis. Agora, apenas 30% seguirão para unidades tecnológicas.
Guerra dirigida a partir de um 'poço'
No Ministério da Defesa, em Telavive, a guerra é dirigida a partir do chamado "poço" ou 'bor'. O exército investigou o fracasso de Simchat Torá, mas os israelitas continuam à espera de uma investigação estatal e independente.
Como resultado do 7 de outubro, foi criada no poço de Telavive uma sala especial que coordena, a todo o momento, 24 horas por dia, a informação de todas as fontes de inteligência que ali convergem.
Inteligência visual, humana, pública e tecnológica fornecem uma fotografia panorâmica do Médio Oriente que também serve de base à preparação das operações militares e às decisões do gabinete de guerra.
E o plano de Trump
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou um plano elaborado com o apoio do mundo árabe para pôr fim à guerra em Gaza e criar um conselho internacional na Faixa palestiniana, dirigido temporariamente pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e pelos principais países árabes.
O Hamas ficaria fora da política palestiniana, pelo menos de forma oficial. Mas em Israel sabem que é impossível eliminar a ideologia islamista e que esta, ainda que enfraquecida, de uma forma ou de outra, permanecerá viva.
E o objetivo dos grupos jihadistas não mudou: eliminar o Estado de Israel.
Em todas as bases da inteligência militar existe agora um oficial cuja função é tocar os alarmes. A sua missão é tentar evitar surpresas como a do 7 de outubro e, quando estas acontecem, permitir uma reação o mais rápida possível.
A guerra de cérebros já começou
E, apesar de todas estas mudanças, em Israel têm consciência de que, num bairro como o Médio Oriente, as surpresas são inevitáveis.
Em 1973, o Egito e a Síria atacaram Israel no Yom Kipur, o dia mais sagrado do ano, em que muitos jejuavam e iam às sinagogas. No início, o Estado de Israel esteve em perigo e, embora três semanas depois tenha conseguido vencer os seus inimigos, o trauma ficou gravado na memória dos israelitas até hoje.
Em outubro de 2023, o ataque do Hamas despertou os fantasmas da guerra do Yom Kipur. Algo semelhante pode voltar a repetir-se. Mas em Israel estão a tentar fazer tudo para o evitar.
A guerra de cérebros com os seus inimigos já está em curso.
