Guerra Rússia-Ucrânia

Ucrânia propôs um pacto de não-agressão à Bielorrússia, diz Lukashenko

Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko.
Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko.
Gavriil Grigorov

Kiev receia que o exército de Moscovo utilize a Bielorrússia para atacar a Ucrânia pelo norte e Minsk vê Kiev como potencial ameaça.

O líder da Bielorrússia anunciou que a Ucrânia propôs um pacto de não-agressão com o país. Kiev tem manifestado o receio de que o exército de Moscovo utilize a Bielorrússia para atacar o país pelo norte e Minsk vê Kiev como potencial ameaça.

Lukashenko, um aliado próximo do Presidente russo, Vladimir Putin, divulgou a alegada oferta numa reunião entre o Governo e as autoridades de segurança, avançou a a agência de notícias estatal Belta, por sua vez citada pela agência Reuters.

Na reunião terá acusado a Ucrânia - sem apresentar provas - de permitir que o seu território esteja a ser usado pelo Ocidente para treinar e armar militantes que poderiam desestabilizar a situação na Bielorrússia.

"Eles estão a pedir-nos para não entrarmos em guerra com a Ucrânia em nenhuma circunstância, para não movermos as nossas tropas para lá. Eles estão a propor que concluamos um pacto de não agressão", disse Lukashenko citado pela Belta.

Não é claro se Lukashenko se refere à Ucrânia ou ao Ocidente.

Kiev receia que Moscovo utilize a Bielorrússia para atacar a Ucrânia

Kiev nada falou ainda sobre este assunto, mas as autoridades estão preocupadas com a possibilidade de Moscovo usar a Bielorrússia como plataforma de lançamento para um novo ataque do norte à Ucrânia.

O Kremlin recusou-se a comentar "por enquanto" se Lukashenko discutiria a alegada oferta com Putin.

Minsk permitiu que Moscovo usasse o território bielorrusso para enviar tropas para a Ucrânia em 24 de fevereiro do ano passado. No entanto, as suas próprias tropas ainda não lutaram na guerra, mas têm intensificado o treino militar conjunto com as forças russas destacadas na Bielorrússia.

No mesmo discurso de hoje, Lukashenko acusou a Ucrânia de receber militantes que farão parte de um alegado plano ocidental a longo prazo para desestabilizar o seu país, segundo a Belta.

O líder bielorrusso acrescentou que as suas forças de segurança responderiam duramente a qualquer ameaça à ordem interna e que não queria uma repetição de protestos de 2020/21 contra si, classificando-os como parte de um alegado plano ocidental para uma mudança de regime na Bielorrússia.

Lukashenko fala em "situação complexa" com forças nos países vizinhos

Esta segunda-feira, Alexander Lukashenko já tinha alertado para a “situação complexa” na fronteira com a Polónia e a Ucrânia, com a concentração de mais de 23.500 militares ucranianos e de elementos de Estados-membros da União Europeia.

"A peculiaridade deste ano é que, como nunca antes, a situação em torno da Bielorrússia é complexa", disse Lukashenko durante uma reunião com representantes do Conselho de Segurança, do exército e do Serviço de Guarda de Fronteiras (SBC) do país, citado pela agência oficial Belta, na segunda-feira.

Lukashenko disse que a proteção da fronteira bielorrussa envolve também a "polícia e as autoridades locais", além de uma força própria, segundo a agência espanhola EFE.

Referiu ainda o apoio dado por unidades das forças armadas, depois de ter ouvido um relatório do presidente do Comité de Fronteiras do Estado, tenente-general Anatoli Lappo, sobre a situação fronteiriça.

"As formações militares mais numerosas estão concentradas na Ucrânia, 17.200, e na Polónia, 3.700", disse o SBC no relatório, segundo o portal "SB Bielorus Today", citado pela agência russa TASS.

O comité fronteiriço referiu que os países vizinhos continuam a construir uma "cortina de ferro" ao longo da fronteira bielorrussa, "não só a partir de estruturas e barreiras de engenharia estacionárias, mas também de campos minados no sul".

Bielorrússia faz fronteira com cinco países, três são membros da NATO e da UE

A Bielorrússia tem uma fronteira de cerca de 3.600 quilómetros (km) de extensão que partilha com cinco países: Rússia (1.312 km), Ucrânia (1.111 km), Lituânia (640 km), Polónia (375 km) e Letónia (161 km).

O SBC disse que "mais de 980 km de barreiras de engenharia de vários tipos foram erguidos" desde 01 de janeiro, dos quais 553 km pela Lituânia, 202 km pela Polónia, 141 km pela Ucrânia e 86 km pela Letónia.

Polónia, Letónia e Lituânia são membros da UE e da NATO (sigla em inglês da Organização do Tratado do Atlântico Norte), organizações a que a Ucrânia pediu a adesão.

A possibilidade de a Ucrânia aderir à NATO foi uma das razões citadas pela Rússia para ter invadido o país, exatamente há 11 meses.

A força fronteiriça informou também Lukashenko de que o território bielorrusso tem sido alvo de reconhecimento aéreo por 'drones' (aeronaves não tripuladas), com o registo de 463 voos desde a invasão da Ucrânia.

Lukashenko acusa o Ocidente de tentar utilizar a Ucrânia contra a Bielorrússia

Num encontro que manteve em Minsk com o chefe da diplomacia russa, Sergei Lavrov, na quinta-feira, Lukashenko acusou o Ocidente de tentar utilizar a Ucrânia contra a Bielorrússia e disse estar "agradavelmente surpreendido" com a resistência de Kiev a essas pressões.

"Conhece as intenções dos nossos vizinhos ocidentais, não apenas as da Ucrânia. Eles estão a tentar usar a Ucrânia contra a Bielorrússia", disse a Lavrov, segundo uma transcrição disponibilizada no 'site' da Presidência bielorrussa. “Mas o que me surpreende, e surpreende agradavelmente, é que a Ucrânia tem conseguido resistir até agora. Ainda não se envolveu em provocações contra a Bielorrússia, embora seja ativamente encorajada pelos nossos vizinhos ocidentais”.

Moscovo e Minsk decidiram formar uma força regional conjunta e a Rússia enviou mais tropas para a Bielorrússia recentemente, mas disse que participam apenas em exercícios militares regulares.

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