Para Ricardo Alexandre, é improvável que as novas sanções europeias e americanas passem despercebidas em Moscovo. Mas lamenta que a União Europeia só agora, no 19.º pacote, esteja a atingir o “sistema nervoso” da economia russa. O jornalista acredita ainda que Putin poderá reagir com o prolongamento da guerra e comenta o mais recente atrito entre Donald Trump e o Canadá.
O novo pacote de sanções da União Europeia contra a Rússia, aliado às medidas já comunicadas pelos Estados Unidos, “dificilmente não terá impacto” na economia russa, considera Ricardo Alexandre.
“Quando se fala das empresas petrolíferas russas que foram sancionadas, Rosneft e Lukoil, estamos a falar de 55% da produção nacional. Além do peso que essas empresas têm na economia russa, há o impacto global nas exportações e na presença muito significativa no mercado energético".
O jornalista chama a atenção para o efeito das sanções secundárias: "Bancos da Índia e da China vão deixar de financiar importações de petróleo russo. Especialistas indianos já deram a entender que as importações por parte da Índia podem ser reduzidas praticamente a zero”.
A Índia importava cerca de 1,6 milhões de barris por dia em setembro “números muito significativos. É muito difícil que isto não tenha impacto na economia russa".
A lentidão europeia nas sanções
Ricardo Alexandre salienta que o processo de decisão europeu é mais lento do que em regimes autoritários "ou num regime democrata que esteja a ser gerido conjunturalmente por alguém ao estilo autocrata".
“É evidente que a construção de consensos está no âmago da União Europeia. É muito mais difícil tomar decisões a 27 do que num regime autoritário. Faz-me alguma espécie que, sabendo-se desde o início da invasão da Ucrânia que era preciso sanções que atingissem o sistema nervoso central da economia russa, a União Europeia só consiga fazer algo do género ao 19.º pacote, que ainda nem está totalmente aprovado".
Putin pode prolongar a guerra
O Presidente russo classificou esta quinta-feira as sanções adotadas pelos Estados Unidos contra as duas maiores petrolíferas do seu país como um "ato hostil". Ricardo Alexandre acredita que Putin tenderá a prolongar as conversas de paz e a endurecer a ofensiva militar.
“Pode, de facto, intensificar os bombardeamentos sobre a Ucrânia, pode prolongar a guerra, pode manter uma postura mais titubeante no processo negocial. Mas temos de esperar para ver, até porque a Casa Branca muda de versão e de opinião a cada dois dias”.
Zelensky e o reforço europeu
A visita de Zelensky a Londres, após o anúncio do reforço europeu, deve servir essencialmente para confirmar o apoio político, defende Ricardo Alexandre.
“Creio que vai ser a confirmação do apoio político que Zelensky continua a ter no âmbito desta coligação das vontades. Tenho dúvidas de que se traduza num apoio substancialmente diferente daquele que tem sido até agora".
O jornalista prevê que as dificuldades ucranianas em obter armamento de maior alcance persistam.
“Vamos continuar a ter muitas reticências em relação aos Tomahawk, como o próprio Donald Trump já deu a entender na última reunião com Zelensky".
Trump em rota de colisão com o Canadá
Mais um desentendimento entre Donald Trump e o Canadá, desta vez por causa de um anúncio que Donald Trump diz ter sido forjado.
“Esta história é muito curiosa. Acontece depois de um anúncio do estado de Ontário ter usado a voz de Ronald Reagan numa mensagem radiofónica em que o então Presidente dizia que as sanções e tarifas aduaneiras não funcionam.
Podem ter benefícios no curto prazo, mas no médio e longo prazo prejudicam os cidadãos, e principalmente os norte-americanos
“O anúncio foi promovido por um governador conservador, o que doeu bastante a Donald Trump. E Trump, provavelmente num acesso de fúria, decidiu romper as negociações com o Canadá relativamente às tarifas".
