Guerra Rússia-Ucrânia

Análise

EUA e Rússia em negociações secretas: "Moscovo compra tempo para continuar ofensiva na Ucrânia"

O comentador da SIC Daniel Pinéu analisa as alegadas negociações secretas entre Estados Unidos e Rússia para pôr fim à guerra na Ucrânia. O especialista sublinha que Moscovo tenta ganhar tempo e que os pontos centrais continuam por esclarecer.

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Os Estados Unidos estarão em negociações secretas com a Rússia para pôr fim à guerra na Ucrânia. O comentador da SIC, Daniel Pinéu, considera que é uma forma de Moscovo ganhar tempo para deixar passar o inverno e uma forma de manter Washington envolvido.

A agência Axios revelou que Estados Unidos e Rússia estão a discutir um plano de paz de 28 pontos. Moscovo terá dito que “finalmente está a ser ouvida”, mas Daniel Pinéu acredita que é apenas uma forma de Moscovo ganhar vantagem:

"A Rússia está a tentar bastante manter os Estados Unidos engajados porque isso lhe compra tempo para continuar a sua ofensiva. À medida que o outono e o inverno se fazem sentir, a ofensiva militar abranda e vamos ver mais iniciativas deste tipo"

Sem os detalhes sobre este plano, há pontos previsíveis:

“A ideia de garantir que a Ucrânia não se junte à NATO já é quase um fait accompli. Os países da NATO não têm interesse nisso, já o disseram várias vezes, já negaram os pedidos da Ucrânia várias vezes, já atiraram para as calendas gregas qualquer discussão disso e, portanto, isso é uma coisa fácil dos Estados Unidos oferecerem""

O maior obstáculo continua a ser a cedência territorial.

“A Rússia tem feito bastantes ganhos na narrativa de que os ucranianos é que estão a ser teimosos por não quererem dar ainda mais concessões territoriais do que aquelas a que já se tinham disposto nos últimos dois quadros de acordo".

Nós estamos a ver Zelensky a tentar recomeçar o processo de paz com mais apoio europeu, mas mantendo os americanos. E a Rússia está preocupada com as sanções e com a janela temporal dessas sanções e em 2026 o que isso dirá para a sua economia e, portanto, está também a tentar isso.

Zelensky procura apoio a nível europeu

O Presidente ucraniano tem procurado apoio na Europa - Grécia, França, Espanha e Turquia - sobretudo em armamento.

O ponto de vista militar mais importante em relação a Zelensky tem a ver com o fornecimento de apoio aéreo e de continuado fornecimento ou do aumento do fornecimento de mísseis de médio e longo alcance que têm sido muito importantes para a estratégia ucraniana de, com perdas na frente de batalha em vários lugares, fazerem ataques atrás das linhas inimigas sobre a capacidade de refinação da Rússia".

Mas há também pressão interna. “Quando a agenda política doméstica é terrível, a política externa torna-se uma distração importante”, diz Daniel Pinéu referindo-se ao escândalo de corrupção que envolve Andrí Yermak. Zelensky tenta, por isso, “manter o apoio da coligação de países europeus”.

Venda de F-35 à Arábia Saudita e impacto em Israel

A venda de F-35 à Arábia Saudita não põe em causa a soberania nuclear de Israel, diz Daniel Pinéu, “não é sequer posta em causa por nada que possa ser feito por nenhum país do Médio Oriente", mas admite que a supremacia militar tecnológica pode mudar.

A Arábia Saudita só normalizará relações com Israel se houver a criação de um Estado palestiniana e usa esta exigência como alavanca política junto de Washington.

"A Arábia Saudita passa a ter um estatuto muito importante, porque passa a ser um dos países que é determinado pelos Estados Unidos como um dos aliados principais dos Estados Unidos, que não são países natos, e esse estatuto, bem como a compra dos F-35, oficialmente muda o estatuto do equilíbrio de forças no Médio Oriente, embora não belisque a soberania de Israel".