Donald Trump está a pressionar Volodymyr Zelensky a aceitar a perda de territórios ucranianos ocupados pela Rússia, numa estratégia que visa uma rápida reconciliação com Moscovo, considera Pedro Cordeiro.
A agência norte-americana Axios diz que Trump está a pressionar Zelensky a ceder e há, inclusivamente, fontes ucranianas que denunciam uma tentativa de afastamento do Presidente ucraniano dos líderes europeus.
"Trump quer a paz rapidamente e a qualquer custo e até recentemente conhecemos um documento de estratégia de política externa dos Estados Unidos que mostra que o fim da guerra na Ucrânia será um ponto importante para uma almejada reconciliação entre os Estados Unidos e a Rússia. Isso é tudo mais importante para Trump do que o que é que acontece à Ucrânia ou quais são as fronteiras com que fica".
Os territórios são um dos pontos que estão neste momento a impedir que haja um acordo de paz.
"Mesmo que fizesse um reconhecimento de facto - como eu acho que provavelmente um dia vai ter que fazer, de que perdeu aqueles territórios - não o faria do ponto de vista jurídico, mas mesmo fazê-lo do ponto de vista factual é algo que neste momento Kiev não está ainda em disposição de fazer e isso é a principal pedra na engrenagem".
Zelensky defende "união entre a Ucrânia com a Europa" em altura crítica das negociações de paz
Face ao afastamento americano, o Presidente ucraniano intensifica contactos com líderes europeus procurando garantias de segurança e apoio continuado. Ontem esteve em Londres e Bruxelas e hoje está em Roma para se encontrar com a primeira-ministra italiana.
"O objetivo continua a ser angariar garantias de segurança para a Ucrânia, do apoio continuado dos europeus, nesta posição em que os Estados Unidos se afastam das posições de Kiev (...) Zelensky na Europa, porque já percebeu provavelmente que embora tenha de manter boas relações com Trump para a vida não se dificultar ainda mais, é do lado europeu que tem mais garantias de apoio".
Entre os europeus há a questão de decidir se usam ou não os ativos russos que sequestraram para ajudar a Ucrânia, sob a forma de um empréstimo, há uma tentativa de encontrar um esquema que permita que a Ucrânia use esse dinheiro, mas nem todos os países da União Europeia estão de acordo.
Trump: viragem para a Rússia, desprezo pela Europa e a China como um adversário a enfrentar
A mudança na política externa dos EUA representa uma rutura fundamental na relação transatlântica, com Trump a desprezar a Europa em favor de uma aproximação à Rússia e confronto com a China.
"Essas declarações mostram que a relação transatlântica mudou fundamentalmente. O aliado de fiar que os Estados Unidos foram durante várias décadas, (...) e um dos pilares que é a relação bilateral transatlântica, entre a Europa e os Estados Unidos, foi fundamentalmente quebrada por vontade do Presidente Trump
"Trump tem outras prioridades, quer aproximar-se da Rússia, quer competir com a China, acha, julgo eu, que pode puxar a Rússia para fora do abraço chinês, eu tenho as maiores dúvidas que isso assim seja, e portanto despreza a Europa".
Pedro Cordeiro salienta que "a Europa não lhe interessa do ponto de vista do que Trump pode obter dos seus interesses sejam políticos sejam comerciais, a Europa interessa-lhe pouco, as tradições políticas da Europa, a soberania partilhada na União Europeia são coisas que lhe são estranhas, são coisas que Trump não valoriza, pelo contrário, e isso realmente mostra-se, e este último documento que se foi revelado sobre a política externa dos Estados Unidos da América é a prova disso mesmo: viragem para a Rússia, desprezo pela Europa e olhar para a China como um adversário a enfrentar ".

