Histórias de 28mm

Não consigo chegar a casa e não dar um beijo na minha filha

Rui Caria

Rui Caria

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Repórter de imagem/ Fotojornalista

Renato, de 31 anos, natural da ilha do Pico, é enfermeiro há dez, e pela primeira vez diz estar assustado.

"Acabamos sempre por ter aquele pensamento; será que estou a levar para casa alguma coisa que vá pôr em risco os outros, a minha família?"

Rui Caria

A pandemia levou-o a ser destacado para integrar as equipas que prestam assistência dedicada à Covid-19 no Hospital de Santo Espírito, em Angra do Heroísmo, nos Açores. Neste hospital é, também, enfermeira, a Catarina, mulher do Renato. Escolheram os dois esta profissão para poderem ajudar pessoas, e ajudam.

No hospital, trabalham em turnos desfasados por causa da pequena Alice, a filha de dois anos e meio, que já está habituada a ficar com os pais ou outros familiares deste casal de cada vez que os horários do serviço se encontram; o que acontece, agora por causa da pandemia, algumas vezes por mês.

Rui Caria

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"Podíamos não fazer turnos em conjunto por termos uma filha, mas abdicámos disso nesta altura porque queremos ajudar. E sabemos que há colegas em ansiedade nas suas casas, que não podem trabalhar, por não terem com quem deixar os filhos. Tivemos sorte, nesse aspecto".

As rotinas do casal, em casa, são sempre definidas pela pequena Alice. Se ela tiver mais sono, também os pais podem dormir mais um pouco.

À chegada a casa, depois dos turnos de doze horas, que agora praticam, procuram perceber qual deles teve mais trabalho durante a noite e assim decidem quem vai dormir até à hora do almoço, enquanto o outro, cuida da pequena Alice. "À tarde, a sesta é para todos. Adormecemos os três até à hora de ir trabalhar outra vez".

Rui Caria

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Há oito anos a trabalhar na obstetrícia do hospital, a Catarina, 30 anos de idade, natural da ilha Terceira, sente-se bem preparada para lidar com os casos de Covid-19 que possam aparecer neste serviço.

"Mesmo com o receio que tenho agora, por causa dos riscos de contaminação desta nova doença, não me vejo a fazer outra coisa". Explica, enquanto se prepara para administrar um medicamento a uma jovem mãe que deu à luz há dias.

Rui Caria

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"Não consigo ultrapassar isso. Não consigo chegar a casa e não dar um beijo à minha filha". Diz o Renato, com a voz tremida.

A mãe, a Catarina, diz que vai arriscando e dando uns abraços à pequenina. Todos parecem querer o regresso da normalidade como a conhecemos.

As famílias foram postas em espera. A viagem ao Pico, para a Alice poder rever os avós paternos, está adiada. Não se sabe por quanto tempo vamos ter, ainda, de ter "Renatos" e "Catarinas" a adiarem os encontros e a família; tudo por causa de um vírus que chegou no início de Março e não tem dia de partida.