Incêndios em Portugal

Incha, desincha e passa: Incêndios, guerras e festas de agosto

Incêndio na Serra da Estrela
Incêndio na Serra da Estrela
PATRICIA DE MELO MOREIRA

Incha, desincha e passa - costuma a minha mãe dizer. Seja quando desato em prantos porque alguma coisa não correu como desejava ou quando irrompo em felicidade à conta de uma boa nova.

O lema é sempre o mesmo: incha, desincha e passa. Melhor ou pior, tudo é passageiro e, por isso, há que relativizar. Os estoicismos da minha sábia progenitora permitem-me manter a sanidade no dia-a-dia, contudo, há quem pergunte em tom provocador: se afinal tudo passa, não estará tudo perdoado à partida? O escritor Milan Kundera (1986) legitima a questão com exemplos, no livro a Insustentável Leveza do Ser. Afinal, uma guerra qualquer do século XIV entre dois reinos africanos é uma sombra desprovida de qualquer importância nos dias de hoje, embora nela tenham perecido trezentos mil negros entre suplícios indescritíveis. E a Revolução Francesa, estudada como grande feito pela História, só nutre tamanho orgulho entre os franceses porque Robespierre não anda por ali, pelos Champs-Élysées, a cortar cabeças entre os turistas que escolhem uns bons sapatos.

Verdade seja dita, nem é preciso recuar assim tanto na história para entender a provocação do escritor. Foquemo-nos apenas nos eventos mais próximos e frescos da nossa memória. Se há um ano o mundo vivia atordoado por uma pandemia que fez questionar a existência humana e inundou a agenda mediática mundial com imagens de urgências hospitalares à beira do colapso e cidades desertas … hoje, os pivots trocam os dados da Direção Geral de Saúde e da Organização Mundial de Saúde por mapas de estratégia bélica à moda do Game of Trones.

O inimigo é a Rússia e não um vírus, a salvação não é a vacina mas outra coisa qualquer. E a crise energética chega a reboque, aproveitando a boleia que o medo pré-covid da emergência climática deu à descarbonização da economia. E a inflação aparece... não se sabe bem se da guerra se da pandemia, ou de outra coisa qualquer. Pelo meio, o nome daquele senhor norte-americano sufocado até à morte, e que deu origem a manifestações por todo o mundo ficou esquecido. E ao hashtag #blacklivesmatter, já se acrescentaram uma infinitude de outros mais. A imagem do arco-íris, que encheu inúmeras janelas durante o confinamente, mais rapidamente é associada aos protestos contra a transfobia e comunidade LGBT+ do que a qualquer mensagem sobre “vai ficar tudo bem”.

Afinal, como se pode condenar algo que é efémero? Kundera vai buscar a ideia de que está tudo perdoado porque vivemos num mundo marcado pela fugacidade. E como não há uma ideia de retorno – e o que passou, passou – tudo é, portanto, cinicamente permitido.

Incêndios em 2013 e 2022: De jornalista a doutoranda em alterações climáticas

Atualmente, e fazendo justiça aos meses de verão, a agenda nacional pinta-se de cenários dantescos na Serra da Estrela, entre outros incêndios infernais que têm assolado o país. Em tom de grande novidade e urgência repetem-se os discursos entre o que se deve fazer, o que se poderia ter feito, e os comentários sobre quem tem culpas ou deixa de ter. Novamente os dados interativos e o discurso dos pivots sofrem um extreme make-over. Os números apresentados dizem agora respeito ao número de zonas afetadas, meios de combate ou número de feridos e danos materiais a nível nacional e as peças do costume sobre o tema.

A agenda mediática é feita das pessoas que vivem na pele as consequências do fogo, as análises dos especialistas, as promessas dos políticos. Situação de calamidade (outra vez.) Tantas frentes ao mesmo tempo, tantos quilómetros a arder em simultâneo. Não é possível ter um bombeiro por cada metro quadrado. Os líderes locais lançam também suspeitas sobre a origem criminosa de alguns fogos que estão a devastar o país. A exemplo, destaca-se o autarca da Guarda que, a propósito do fatídico incêndio na Serra da Estrela, disse: "Aquilo que aconteceu ontem (dia 15 de agosto), com tantas frentes ao mesmo tempo, algo se passa."

E se já parece diabólico admitir que tudo está perdoado à partida, porque é fugaz e vai desaparecer, parece mais difícil ainda concluir que muitas das atrocidades perdoadas pela premissa da fugacidade, afinal, constantemente, se repetem. Não fosse, afinal, a História da Humanidade estar marcada vezes e vezes sem conta pelos mesmos erros.

A prova do mesmo, sem ter que recorrer a enciclopédias e livros de História, pode ser apenas um exemplo da minha vida. Seja como jornalista, como bolseira de doutoramento em alterações climáticas, ou simplesmente como pessoa.

Afinal, há precisamente nove anos, em agosto de 2013, estava eu avidamente a trabalhar na redação da SIC na preparação de uma sessão especial sobre incêndios. Com vinte e um anos, e no meu primeiro ano como jornalista, fazia justiça às motivações que me tinham levado a ingressar naquele caminho profissional (e moral, porque para mim era a mesma coisa). Pondo de parte qualquer prioridade pessoal, afundei-me de cabeça na produção e realização de uma emissão especial sobre incêndios, que conseguisse combinar o lado de quem perde tudo no terreno para, depois, discutir as razões do porquê de tal inferno acontecer. Naquele ano, a morte de mais um bombeiro marcou a abertura da emissão. (Todos estávamos longe de adivinhar o que viria a acontecer em Pedrogão Grande).

O trabalho de reportagem a uma pequena aldeia em Góis levou-me a aprender bastante sobre separar as emoções dos objetivos do meu trabalho. E a discussão entre vários especialistas levou-me a pensar na minha especialização académica. Ser responsável pela produção de meia hora de antena em direto levou-me a acreditar que, finalmente, poderia ser possível aliar o formato informal dos programas da tarde ao conteúdo informativo do jornalismo de investigação. PORQUE ARDE PORTUGAL – assim se chamou a emissão. Eu ia fazer a diferença!

Hoje, quase uma década depois, percebo que a mesma sessão poderia ser emitida hoje, e poucos desconfiariam da data. Tão pouco mudou e tanto se continua a repetir. Se algo é novidade, será apenas a relevância dada pela comunicação social à relação entre o clima em mudança e a descarbonização da economia e (propositadamente) a evolução da minha formação académica que me trouxe um mestrado na área do ambiente e um doutoramento em conclusão na área das alterações climáticas. Atualmente, consigo conjugar a experiência no meio da comunicação social com a formação no meio académico e na comunicação de ciência. Consigo perceber a física por detrás dos fenómenos climáticos e a perceção da esfera pública, que recebe as narrativas que transformam a ciência, a política, a humanidade... em histórias de vilões e heróis, ódio e esperança. Porque ia eu fazer a diferença?!

Perante as evoluções que são poucas, a vontade de mudar o mundo e tornar o imperdoável imperdoável, já não me assiste. Porque, afinal, a diferença entre o conselho da minha mãe e a provocação de Milan Kundera reside no facto da minha progenitora me ter ensinado que para cada experiência há sempre um resultado a tirar. E que depois de inchar, desinchar e passar se deve sempre aprender alguma coisa, de forma a que o que sucedido não se volte a repetir. Contudo, no caso da evolução humana, tal não parece ser uma verdade. E, sinceramente, a consciência deste mesmo facto – que o imperdoável é perdoado porque é efémero mesmo não sendo - cansa. Cansa mesmo muito.

Lei do Eterno Retorno: A caravana passa e os cães ladram, até à próxima

A propósito desta conclusão, e refletindo sobre este oxímero onde a efemeridade se perpetua, o filósofo Frederich Nietzsche constrói um conceito a que chama Lei do Eterno Retorno. Um conceito simples, que é como quem diz: “imagina que qualquer segundo da tua vida se vai repetir para todo o sempre, cada instante perdura um número infinito de vezes.” Um lema capaz de transformar facilmente qualquer sentido da nossa vida num pesadelo.

Por um lado, como diz Milan Kundera, tudo está perdoado porque tudo passará. Contudo, e porque não há aprendizagem, tudo se repete no tempo - seja a nível da História da Humanidade, da nossa vida social ou pessoal. E esta é a ideia do eterno retorno e o fardo mais pesado (das schwerte Gewicht). Por um lado, imaginar que vamos viver qualquer decisão que tomemos para sempre faz com que cada ação ganhe um peso de responsabilidade insustentável. E por outro, pensar que momentos importantes se podem repetir até à exaustão acaba com eles, tornando-os fúteis e frívolos. O filme After Life (Koreeda, 1998) personifica o símbolo da futilidade do destino eterno e do tédio absoluto, no eterno retorno de Nietzche. Clientes recém-falecidos entram tropegamente num prédio de escritórios e são obrigados a escolher uma única recordação, a mais querida, para recordar eternamente. Da lista contam-se: um dia na Disney, um orgasmo fenomenal, uma dança com um vestido vermelho. Por muito bela e maravilhosa que seja, essa recordação não tem qualquer sentido quando repetida por todo o sempre.

E enquanto as palavras se me saem da ponta dos dedos no teclado, oiço o bailarico na rua e do fogo de artifício. Como boa terra que se preza (e a minha é das boas), em agosto há festa. Trabalhou-se o ano todo e há que fazer a catarse anual dos restantes meses de trabalho. Portanto, há que festejar para dar algum sentido à vida. E como não há festa há três anos... há que celebrar a triplicar. Repetem-se as tradições, a gente sai à rua, e põem-se as conversas em dia. A procissão mostra-se com mais flores que nunca, a igreja é enfeitada com ânimo e a coreografia no baile faz-se com mais ímpeto. Ao longo de todo o país, os festivais voltam, as viagens, os anúncios a créditos para essas viagens, as feiras gastronómicas, o ritmo avassalador do turismo e todos os outros afins.

Porque enquanto agosto passa, tudo estará perdoado novamente. Até se despertar novamente, perante nova desgraça. Como se novidade fosse… que de guerras sempre viveu o homem, que de ameaças, catástrofes e cataclismos sempre se alimentaram civilizações e que, se não fosse um pezinho de dança pelo meio, a consciência do perdão do imperdoável daria cabo de nós e tornaria a existência humana insustentável. Portanto, incha, desincha e passa. E cá eu faço por tudo para aprender com cada experiência, entre os ciclos repetidos de catarse, entre as multidões e os cartazes de festa à minha volta.

- A curto prazo, eu ia ficar feliz em ir brincar lá para fora

- A longo prazo, eu ia ficar mais feliz ainda em dar-me bem na escola e ter sucesso.

- Mas a muito longo prazo, eu sei aquilo que fará as melhores memórias!

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