Especialista na área de proteção civil e professor de gestão de segurança, emergência e proteção civil, Joaquim Leitão considera que Portugal continua a errar na forma como enfrenta os incêndios florestais. Defende uma mudança estrutural na estratégia de prevenção, com maior envolvimento das populações, gestão ativa do território ao longo do ano e investimentos mais eficazes.
Joaquim Leitão sublinha que o combate direto às chamas só é eficaz em condições muito específicas, como durante a noite, quando a temperatura desce e a humidade aumenta.
"É à noite que se combate o incêndio. Durante o dia, o que se faz é gerir o incêndio, proteger pessoas e bens e garantir que ele não progride descontroladamente", explica o especialista.
A partir do final da manhã, com o aumento da temperatura e a descida da humidade, o fogo ganha energia e torna-se mais difícil de dominar. É nesse momento que os meios aéreos ganham importância.
"Mas os meios aéreos não apagam incêndios. São uma ferramenta para os operacionais no terreno. Permitem baixar a intensidade da chama, criando condições para que os bombeiros possam atuar".
"A estratégia pós-Pedrógão assentou numa mentira"
Para Joaquim Leitão, o que falhou em Pedrógão não foi o combate, mas sim a falta de preparação do país para fenómenos extremos: "O que falhou foi que Portugal e a Europa não estavam preparados para um fenómeno extremo como foi o fenómeno Pedrógão".
"Criou-se a ideia de que o combate falhou, mas isso é falso. O que falhou foi a estratégia, e o combate fez o que podia fazer, nas condições que tinha".
"A partir de 2017, construiu-se uma narrativa errada, que afastou o foco da verdadeira prevenção. E é isso que continua por fazer".
"As pessoas não conhecem os riscos onde vivem"
Outra falha estrutural, diz, está na falta de literacia de risco da população, ou seja, a maioria das pessoas desconhece os riscos a que está exposta. Por isso, defende que a proteção civil deve investir seriamente em formação e sensibilização, envolvendo os cidadãos na prevenção.
"Se queremos que as pessoas estejam protegidas, temos de começar por informá-las".
