A SIC em Tóquio

Jogos do Medo e do Silêncio

Enviados SIC

O testemunho do jornalista da SIC, Miguel Guerreiro, enviado a Tóquio para acompanhar os Jogos Olímpicos.

A pandemia está a elevar ao extremo a capacidade que, naturalmente, os japoneses já têm para estabelecer regras e zelarem com muito afinco pelo seu cumprimento. A região metropolitana de Tóquio tem 14 milhões de habitantes e esta semana bateu o recorde diário de novos casos dos últimos 2 meses: 1.149.

Uma realidade bem menos complicada do que aquela que se vive em Portugal mas que é mais do que suficiente para fechar o país e provocar uma contestação pública à organização dos Jogos Olímpicos. O medo de uma nova vaga de Covid-19 é tanto que o maior evento desportivo do Mundo vai decorrer debaixo de apertadas restrições, para todos.

Quem entra no Japão oficialmente acreditado por “Tokyo 2020” fica obrigado a tantas regras e tantos requisitos que precisa de uma boa dose de calma para manter a racionalidade.

Com testes negativos obrigatórios 96 e 72 horas antes da partida, vacinação completa, testes negativos à chegada e também ao 1º, 2º, e 3º dias será necessário cumprir uma quarentena de 14 dias?

Será lógico ignorar certificados de vacinação? Fará sentido estar sem luvas a trocar objectos com alguém que vão “prender” num quarto de hotel tanto tempo? É ou não um atentado à liberdade proibir os jornalistas de falar com cidadãos japoneses nas ruas depois de cumprida a quarentena? Há razão no controlo de tudo isto? E lógica?

É que este ano os jornalistas vão ter um papel ainda mais relevante, para espalharem pelo Mundo aquilo que ninguém vai poder ver das bancadas - e muito do encanto de uns Jogos Olímpicos vai além do que as transmissões televisivas das provas conseguem mostrar.

Mas as restrições calham a todos, até aos que sobem ao palco. O presidente do Comité Olímpico Internacional garantiu esta semana já aqui em Tóquio que nunca esteve em hipótese o cancelamento.

Thomas Bach disse que este evento vai ser realizado por respeito aos atletas, ao esforço que fizeram para aqui chegar e para evitar que se perdesse uma geração de olímpicos. São ideias fortes e esclarecidas. Mas o que sentirá alguém que sonhou competir a este nível, com público ao rubro, quando estiver prestes a decidir uma medalha perante o silêncio de bancadas vazias?

Em Tóquio as comitivas vão viver em bolha, entre Aldeia Olímpica e as áreas de treino e competição. Quem termina a participação nos Jogos Olímpicos tem indicação para deixar o Japão em 48 horas. Desta vez não há hipótese para conhecer a cultura dos anfitriões.

O espírito do olimpismo vai ser completamente estrangulado, a sã convivência entre os povos parece estar proibida nesta edição.

É fechado em 12 m2 de quarto há 4 dias que grito no meu teclado “COMECEM OS JOGOS” e “SIMPLIFIQUEM”! Sei que o primeiro vai ser ouvido dentro de uma semana. Quanto ao segundo… vai ser absorvido pelo medo e abafado pelo silêncio.