Jorge Sampaio 1939-2021

Das lágrimas ao mar de problemas: momentos que marcaram as Presidências de Jorge Sampaio

© Reuters Photographer / Reuter

De porventura o maior êxito da diplomacia portuguesa com a independência de Timor-Leste, passando pela tragédia Entre-os-Rios, a visita emocionada à comunidade lusa no Canadá, terminando na dissolução da Assembleia da República.

Tomar decisões difíceis, contra a expectativa dos próximos e do próprio partido, é uma das marcas políticas de Jorge Sampaio. Recorde alguns dos momentos marcantes de um dos líderes da história da democracia portuguesa.

Timor Leste: o maior êxito da diplomacia portuguesa?

Jorge Sampaio, Presidente da República durante 10 anos, fica na história pela forma como acompanhou a transição de Macau e o processo da independência de Timor-Leste. Por este último, foi agraciado com o Grande Colar da “Ordem de Timor-Leste”, como “profundo reconhecimento” pela “solidariedade e apoio ativo” na luta pela independência.

Na visita ao país, em 2000, o então Presidente comprometeu-se a “reconstruir esta pátria destruída. Arranjar emprego e escolas para as crianças de quem depende o futuro de Timor”.

A tragédia de Entre-os-Rios

A 4 de março de 2001, a Ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios a Castelo de Paiva, caiu e arrastou para o Douro três carros e um autocarro. Não houve sobreviventes, 59 pessoas morreram, 36 corpos nunca foram encontrados.

Dez anos depois, em 2011, Jorge Sampaio, então Presidente da República, recuou aos acontecimentos daquele trágico dia para afirmar que jamais se esqueceria “do sofrimento, a gravidade das coisas, a tristeza, um povo inteiro junto ao rio, o rio a passar com uma velocidade extraordinária”.

“E depois fui visitar todas as casas pelos campos fora, das pessoas que tinham perdido pessoas, e isso é uma imagem muito dura, de grande sofrimento. Felizmente que as pessoas foram apoiadas psicologicamente, mas eu não poderei esquecer o que eram aquelas caras daquelas pessoas que ficaram sem os seus entes queridos e a gente percebia, no fundo, apesar dos esforços e da capacidade sobretudo daqueles que estudam estas coisas e que sabem agir, que a velocidade daquela corrente era de tal ordem que algumas pessoas nunca mais seriam encontradas, embora tivéssemos feito tudo o que era possível”.

A visita ao Canadá

Em 2001, Jorge Sampaio deslocou-se, em visita de Estado, ao Canadá, onde se encontrou com a comunidade lusa, que o recebeu em festa, e onde não conseguiu conter a emoção.

“Tive a sorte de viver nestes dias o que significa ser Presidente da República. É importante que eu diga isto, é o símbolo”, afirmou, visivelmente emocionado.

Um dos pontos altos da visita foi a participação nos diversos eventos promovidos pelas comunidades portuguesas, sobretudo em Toronto, onde viviam, na altura, cerca de 200 mil portugueses e lusodescendentes.

A dissolução da Assembleia da República

O segundo mandato presidencial reservou-lhe um mar de problemas.

Chegou a obrigar António Guterres a demitir o ministro-adjunto Armando Vara, na sequência de um escândalo na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

Em 2001, Durão Barroso sucede a Guterres para governar. O grande choque dá-se com a cimeira dos Açores, em que Durão Barroso se colocou na fotografia da declaração da guerra ao Iraque. Mantido à margem do processo, Sampaio discorda e proíbe o envio de tropas portuguesas, obrigando o Governo a recorrer à GNR.

Pouco depois, Barroso é o segundo a desistir. Aceita o lugar de presidente da Comissão Europeia na condição de entregar o poder a Santana Lopes, sem eleições.

Depois de quatro dias de reflexão, com o PS a braços com o processo Casa Pia, Jorge Sampaio dá posse a Pedro Santana Lopes. Seis meses depois, uma sucessão de confusões e mal-entendidos no novo Governo levantaram-no a tomar uma decisão radical. Dissolve a Assembleia da República e convoca eleições. Eleições essas que abririam a porta a José Sócrates e à primeira maioria absoluta do PS.

Jorge Sampaio deixou a presidência da República em 9 de março de 2006 e recusou, de forma taxativa, todos reptos para protagonizar uma terceira candidatura presidencial.

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