Operação Lava Jato

MP do Paraná nega intervenção de Moro em troca de equipa no interrogatório de Lula

Adriano Machado

"A força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná vem a público repudiar a notícia falsa sobre troca de procuradores em audiência do caso Triplex"

Responsáveis da operação Lava Jato negaram esta sexta-feira que a substituição de uma procuradora num dos interrogatórios do ex-Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva tenha resultado de uma orientação do então juiz Sérgio Moro.

"A força-tarefa Lava Jato do Ministério Público Federal no Paraná (MPF/PR) vem a público repudiar a notícia falsa sobre troca de procuradores em audiência do caso Triplex [processo criminal sobre a posse de um apartamento de luxo no Guarujá que motivou a primeira condenação de Lula da Silva] através de publicação (...) equivocada e sem checagem [confirmação] dos factos pelo blogueiro Reinaldo Azevedo", lê-se num comunicado.

Na quinta-feira, o jornalista Reinaldo Azevedo revelou na rádio Band News um conteúdo considerado inédito que lhe foi cedido pelo portal The Intercept sobre uma suposta troca de mensagens entre dois procuradores da Lava Jato após um deles ter sido criticado por Moro, ex-juiz da operação e atual ministro da Justiça, contra a procuradora Laura Tessler.

Moro terá escrito que a procuradora tinha dificuldade nos interrogatórios, numa troca de mensagens privada com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato do Ministério Público Federal em Curitiba.

Após estas críticas, Dallagnol terá passado a informação ao procurador Carlos Fernando Santos Lima, pedindo-lhe que mantivesse sigilo e apagasse as mensagens depois de as ler.

Os dois terão então combinado escalar outros membros da equipa para acompanhar o depoimento do ex-Presidente Lula da Silva, segundo o material obtido pelo The Intercept.

Em resposta à divulgação destas mensagens, a assessoria de comunicação da Lava Jato defendeu que "não houve qualquer alteração na sistemática de acompanhamento de ações penais por parte de membros da força-tarefa".

"Os procuradores e procuradoras responsáveis pelo desenvolvimento de cada caso acompanharam as principais audiências até ao interrogatório, não se cogitando em nenhum momento a substituição de membros, até porque todos vêm desenvolvendo os seus trabalhos com profissionalismo, competência e seriedade", frisou.

"Também como é público, os procuradores da República Júlio Noronha e Roberson Pozzobon, que participaram em 11/05/2017 no interrogatório de Lula [da Silva] na ação penal sobre o triplex no Guarujá foram os mesmos que estiveram presentes nas principais medidas investigatórias do caso", acrescentou.

O Ministério Público brasileiro considerou que a conversa revelada é "desrespeitosa, mentirosa e sem contexto".

"Como o site The Intercept Brasil, de quem se diz parceiro, Reinaldo Azevedo, de modo tendencioso, tentou criar artificialmente uma realidade inexistente para dar suporte a teses que favoreçam condenados por corrupção e branqueamento de capitais na Lava Jato", referiu-se no comunicado.

O órgão de Justiça brasileiro voltou a frisar que as revelações do Intercept são fruto de um "material cuja autenticidade não foi confirmada".

Para a 'task force', as reportagens estarão a "reforçar o aparente intuito de criar notícias às custas de publicações que distorcem supostas conversas entre autoridades, atacando o Sistema de Justiça e as instituições da República, na mesma linha do que é verificado nos ataques cibernéticos".

Desde o dia 9 de junho, o portal de investigação The Intercept tem publicado uma série de reportagens com base em alegadas mensagens secretas obtidas de uma fonte anónima, que terão sido trocadas por Moro com procuradores da Operação Lava Jato na aplicação Telegram quando era o juiz responsável por analisar os processos da investigação em primeira instância.

Segundo o Intercept, as conversas obtidas lançam dúvidas sobre o desempenho de Moro e dos procuradores da Lava Jato nos processos, nomeadamente no julgamento que levou à prisão do ex-Presidente Lula da Silva.

O The Intercept é um portal de jornalismo de investigação liderado por Glenn Greenwald, jornalista a quem o ex-analista norte-americano Edward Snowden revelou os programas de espionagem da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA, na sigla em inglês).

Lusa