Luanda Leaks

Isabel dos Santos processa consórcio de jornalistas e órgãos de comunicação social

Paulo Duarte

Empresária diz que documentos foram utilizados para construir "narrativa enganosa".

A angolana Isabel dos Santos informou esta segunda-feira que vai processar o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) e os órgãos de comunicação social seus parceiros envolvidos na divulgação do Luanda Leaks.

“Refuto as alegações infundadas e afirmações falsas e informo que deram início as diligências para as ações legais contra a ICIJ orquestrada por vários órgãos de comunicação social”.

"Foram usados seletivamente imagens e documentos, mal interpretados e supostamente baseados em e-mails obtidos criminalmente por via de 'hacking', para construir uma narrativa enganosa sobre as minhas empresas, investimentos e trabalho em geral", afirmou.

Isabel dos Santos lamenta o que considera "ações irresponsáveis de alguns jornalistas que [...] desencadearam uma tragédia humana e negligenciaram o respeito pelo direito à privacidade".

Empresária diz que investimentos em Portugal são lícitos

A empresária, que depois das revelações da investigação jornalística tem anunciado a intenção de alienar as suas participações em várias empresas portuguesas, garante que nenhum desses investimentos foi feito com "fundos de origem ilícita".

"Os investimentos realizados em Portugal foram constituídos por fundos lícitos, tendo sido respeitados os procedimentos do Banco Nacional de Angola (BNA) no que se refere ao licenciamento de exportação de capitais", disse.

"As empresas com as quais opero são legítimas, pagam impostos, e nenhuma foi jamais condenada por atividade criminal", acrescentou.

Entre os investimentos, destacou a relação empresarial com a Portugal Telecom Ventures, adiantando que a parceria em Angola gerou mais de mil milhões de euros em dividendos.

Isabel dos Santos considerou ainda que lei do repatriamento de capitais de Angola "não se aplica a fundos lícitos" e "devidamente licenciados pelas autoridades", antes visa "fundos de proveniência criminal".

Esclarecimento sobre a Matter Business Solutions

De acordo com a investigação jornalística, Isabel dos Santos terá montado um esquema que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) para uma empresa sediada no Dubai, a Matter Business Solutions.

Sobre esta acusação concreta, Isabel dos Santos adianta, no comunicado, que a referida empresa funcionou como responsável pela coordenação das várias consultoras internacionais que trabalharam na reestruturação da Sonangol, incluindo, entre outras, a BCG, PWC, McKinsey e VdA.

"Estas consultoras internacionais trabalharam com a Matter Business Solutions na sua qualidade de coordenador transversal do projeto de reestruturação do Grupo Sonangol e receberam pagamentos de cerca de 90 milhões de dólares, efetuados pela Matter Business Solutions", disse Isabel dos Santos.

Por isso, sublinhou, "as informações de que a Matter é uma empresa fantasma que recebeu injustificadamente mais de 100 milhões de dólares são particularmente enganosas e manipuladoras".

A empresária adianta ainda que os trabalhos de consultoria e apoio à reestruturação da Sonangol decorreram ao longo de 18 meses em mais de 20 empresas do grupo, tendo "contribuído para gerar resultados positivos" no grupo.

Rui Pinto recolheu 715 mil documentos de empresas de Isabel dos Santos

O anúncio das ações legais surge no mesmo dia em que William Bourdon, advogado de Rui Pinto e presidente da PPLAAF, uma plataforma de proteção de whistleblowers em África, revelou ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação que o português é a fonte da fuga de informação.

O disco rígido com os documentos foi entregue ainda em 2018 à Plataforma para a Proteção de Denunciantes em África, que os partilhou com o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, do qual a SIC e o Expresso fazem parte.

Os milhares de documentos sobre Isabel dos Santos detalham transferências feitas para contas offshore e um esquema de empresas de fachada.

LUANDA LEAKS: A INVESTIGAÇÃO

A Luanda Leaks, uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação, é a maior investigação jornalística alguma vez feita aos negócios da empresária angolana Isabel dos Santos. Milhares de documentos foram analisados por 120 jornalistas dos maiores órgãos de comunicação social de todo o mundo começaram a ser divulgados.

O Expresso e a SIC associaram-se a este consórcio internacional e revelam como a filha do antigo Presidente de Angola fez chegar pelo menos 115 milhões de dólares dos cofres da Sonangol a uma sociedade do Dubai, controlada por pessoas próximas. Todas elas portuguesas.

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