Match Point

Rei leão termina jejum!

Pedro Nunes

A opinião escrita de José Manuel Freitas.

A história do futebol profissional do Sporting Clube de Portugal no Século XXI contempla a conquista de 15 títulos (2 Ligas, 5 Taças de Portugal, 5 Supertaças e 3 Taças da Liga), mas o mais importante, aquele que catapulta os clubes para o placo internacional, só aconteceu agora, pela segunda vez, sinal de que o foi colocado um ponto final numa enorme travessia de deserto que durou 19 anos.

A indiscutível conquista leonina, quando ainda faltam duas jornadas para o termo da competição, foi o corolário de um domínio que se acentuou a partir da 6.ª jornada, quando se isolou na liderança, e chegou a ter 10 pontos de vantagem. Mas, porque o futebol é momento, uma questão que deve ser colocada desde já é esta: terminado o jejum, conseguirá o Sporting, como nas décadas de 40 e 50, intrometer-se sistematicamente na luta pelo título como os seus dois grandes rivais? Pelo que se viu na Liga que acaba de conquistar… tudo indica que sim!

"ALL IN" CERTEIRO DE VARANDAS

A 8 de setembro de 2018, Frederico Varandas, até aí responsável clínico pelo futebol profissional, foi a votos e tornou-se presidente do Sporting, sucedendo no cargo a Bruno de Carvalho – o próximo ato eleitoral terá lugar, estatutariamente, em março de 2022. À altura, o treinador era José Peseiro, demitido pouco tempo depois para lugar ao holandês Marcel Keizer, também ele rendido na época 2019/20, primeiro por Leonel Pontes, que seria substituído por Jorge Silas, que daria o seu lugar a Rúben Amorim, contratado ao SC Braga, a troco de 10 milhões de euros, valor da cláusula de rescisão, número exorbitante para a realidade do futebol português.

Era o "all in" de Varandas, mas paralelamente aposta forte naquele que já nesse tempo era tido como o mais prometedor treinador luso. Pelas ideias que tinha sobre o jogo e porque não tinha problemas em apostar em gente jovem. Com pouca margem de investimento… era sopa no mel. Hoje, com o Sporting campeão, é fácil dizer-se que Varandas tinha razão na aposta. Porque os riscos foram devidamente compensados, que dizer?

Neste processo, lugar de destaque, igualmente, para Hugo Viana, o diretor desportivo, também ele campeão, como futebolista, pelos leões no anterior título, sob o comando de Laszlo Boloni: o modo criterioso como foi montado o plantel que conquistou esta Liga, resultado do forte entendimento com o "scouting", mas também com Antero Henrique, capital em muitas das contratações por força da sua experiência no FC Porto e PSG, e curiosamente cunhado de Rúben Amorim, merece aplausos por parte da nação leonina.

MÉTODO E DISCURSO DE RÚBEN AMORIM

Os meses de trabalho que levava no SC Braga, culminados com a conquista da Taça da Liga, confirmavam aquilo que se murmurava, que Rúben Amorim era homem talhado para grandes cometimentos. Pela forma metódica como organizava a equipa, pelo estilo de jogo, assente num moderno e versátil 3x4x3, pela aposta em futebolistas jovens, vertentes assentes num discurso escorreito, pragmático e objetivo, sem sofismas e subserviências.

Foi por tudo isto, a que se juntou a relação de proximidade com Hugo Viana, que levou a SAD do Sporting a apostar forte no então denominado treinador da moda. Os resultados estão à vista, aproveitando, porque é fundamental falar disso, o facto de a equipa ter ficado cedo fora da Europa e com um calendário menos carregado. Amorim chegou a Alvalade em março do ano passado, não conseguiu levar a equipa a melhor do que o 4.º lugar, mas nesse tempo, também, foi lançado as bases do futuro: ficou sem dúvidas de quem necessitava para o seu projeto e de quem não cabia no seu projeto, observou atentamente a formação (um dos mais fortes motivos que levaram à sua contratação) e avançou para a nova época a suspirar… por Paulinho.

Paulinho, a mais cara aquisição de sempre do clube, só chegou na reabertura de mercado e embora ainda esteja longe da total adaptação fica na história do título, pois foi dele o golo que ditou o triunfo frente ao Marítimo. Mas ainda antes do ex-bracarense chegar já tinham partido Acuña, Wendel, Doumbia, Vietto, Battaglia, Rosier ou Bolasie, e mais tarde Ristovski. Limpeza de balneário? Entenda-se como se quiser, mas que a face do leão mudou completamente, não restam dúvidas. Futebolisticamente assente, sempre, num 3x4x3 atrativo, pontualmente transformado em 3x5x2, que teve em determinada fase o seu desgaste, mas que foi suficiente para esta alegria indescritível da nação sportinguista. Sempre metódico e com discurso coerente, apenas alterado quando o Sporting ficou a uma vitória de ser campeão!

CAPITÃO COATES, MAIS A FIRMA MENDES & PALHINHA

Até ao jogo com o Marítimo, os leões utilizaram 28 futebolistas. Entre eles Vietto e Wendel, que no início da época se transferiram para Al Hilal e Zenit, respetivamente, Sporar e Borja, que viajaram para Braga no negócio de Paulinho. É bem provável, porém, que mais profissionais se tornem campeões, casos do guarda-redes André Paulo e até de Luiz Philippe e Joelson Fernandes. Já Renan Ribeiro…

E dos futebolistas utilizados, da minha observação, há três nomes que sobressaem: Coates, o capitão, que realiza a melhor época de sempre em Portugal, fundamental pela liderança, experiência, capacidade de sofrimento e golos capitais, como os dois em Barcelos e o da vitória frente ao Santa Clara – para mim, por muito estranho que isso possa parecer a outros analistas, o uruguaio é o melhor futebolista desta edição da Liga -, ele que na época passada passou por momento bens complicados; Nuno Mendes, por se ter confirmado que talento não tem idade e que aos 18 anos estamos perante aquele que, provavelmente, será um dos melhores laterais esquerdos mundiais por muitos e bons anos, e que, garantidamente, possibilitará aos leões um considerável encaixe financeiro com a sua transferência, para mais devendo estar presente no Europeu; e João Palhinha, outro que deverá integrar a Seleção Nacional, sem dúvida alguma o melhor número 6 da Liga, que muito cresceu futebolisticamente e conferiu à equipa o equilíbrio de que tanto necessitava em todos os desafios.

NÚMEROS DE SONHO DO NOVO CAMPEÃO

Faltam dois jogos ao novo campeão para terminar a temporada. Na Luz, frente ao Benfica, este sábado, e com o Marítimo, em Alvalade, na tarde de dia 19. E como os leões mantém o fenomenal registo de 25 vitórias e 7 empates, conseguirão terminar a Liga sem qualquer derrota? A tarefa é complicada, mas como desta equipa pode esperar-se tudo…

Mas há outros números que merecem destaque: melhor defesa da competição, com apenas 15 golos sofridos, terceiro ataque, depois de FC Porto (67) e Benfica (62), com 57 remates certeiros, 20 jogos sem sofrer golos (em 32 é notável!!!) e apenas um jogo em que não marcou, no Dragão. E com Pedro Gonçalves ainda com possibilidades de se tornar o melhor marcador. Soma 18 golos, como Seferovic, mas tem mais minutos de jogo.

Números de sonho do novo campeão. Que fez da união uma das sua principais armas, que teve qualidade de jogo, nem correspondida em golos, e conviveu, provavelmente por decisão de Rúben Amorim, muito bem sem nenhuma superestrela no balneário. O que virá a seguir mais tarde de saberá, mas reafirmo a ideia inicial: parecem estar criadas condições para que o Sporting possa ser mais favorito do que apenas candidato!

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