Como estamos a viver a pandemia

Esta pandemia tirou-me o trabalho, o sossego e fez-me adiar uma série de sonhos

YOAN VALAT

O testemunho de Marina Azevedo, 30 anos.

Vivo em Vila Nova de Famalicão onde já há 313 pessoas infetadas pela covid-19, algumas delas vivem na minha freguesia - Gondifelos.

Esta pandemia tirou-me o trabalho, o sossego e fez-me adiar uma série de sonhos. Não deixou cumprir a tradição de Páscoa da minha família. Não permitiu sequer que festejasse dignamente a minha entrada nos -intas.

A minha casa é dividida em três. Num dos lados vivem os meus pais com a minha irmã, noutro a minha avó e o meu avô, noutro vivo eu e o meu marido.

O restaurante onde trabalhava a minha mãe fechou. Tem passado os dias no quintal e a tratar das galinhas e dos patos. Já plantou favas, cebolas, alfaces, ervilhas, feijões, batatas, nabiças, couves, pepinos e pimentos. Por aqui, pelo menos, sopa não vai faltar.

A minha irmã, que estuda na Universidade de Coimbra, está em casa a ter aulas online. Se em tempos sonhou ter aulas à distância de um clique, hoje sonha com o dia que se sentará novamente nos bancos da universidade.

O meu pai é um dos que está "na linha da frente" (como as pessoas gostam de dizer) e tem sido um dos nossos heróis.

O meu pai é auxiliar de saúde no hospital da nossa zona e todos os dias sai de casa para ajudar a combater este maldito vírus que fez parar o mundo. A fé e o amor pela profissão dão-lhe fôlego. Apesar de todos os problemas de saúde e da falta de condições de trabalho continua a ir e a lutar, juntamente com os colegas, para que este pesadelo acabe.

No trabalho tem cuidados, chega a casa cuidados tem. Não pode ser de outra maneira. Ainda vem a descer a rua, a minha mãe (preocupada) já lhe está a falar de longe e a lembrar-lhe que a roupa fica na entrada e que vai direto para o banho. Ele sabe. É todos os dias assim. Será assim nos próximos meses.

Cá em casa a grande preocupação são os meus avós. Ambos a chegar à casa dos 80 são, em princípio, os mais vulneráveis. Não saem para nada. O avô Jorge é doente psiquiátrico e os últimos dias têm sido mais difíceis. Nós, família, tentamos dar o apoio que precisam, asseguramos as compras de supermercado, as idas à farmácia e tudo o que vão precisando. A idas aos hipermercados são agora raras, temos tentado remediar com a mercearia do senhor Joaquim e da dona Fátima aqui ao pé de casa.

Eu como fiquei desempregada fico em casa o dia todo. O meu marido continua a trabalhar para que não falte queijo nas prateleiras dos nossos supermercados. Felizmente trabalha numa empresa que desde cedo tem um plano de contingência que é, a meu ver, exemplar.

Os meus dias têm sido ocupados a fazer as lides domésticas, a fazer algum exercício físico, a ler, a escrever, a ver televisão e a falar via videochamada com a minha família paterna (conhecidos pela alcunha de "ganchinhos").

Os dias tornam-se menos difíceis quando temos, à distância de uma videochamada, os nossos ente-queridos. Dão-nos força e alento quando o desespero bate à porta. Partilhamos os nossos medos, as nossas angústias e umas tantas parvoíces. Recordamos os nossos convívios, sonhamos com os próximos... quando serão? Somos sempre mais de 50 e os ajuntamentos não serão permitidos tão cedo. Enquanto isso, juntamo-nos no Messenger todos os dias, rimos às gargalhadas com os filtros cómicos que usa a tia Laurinda e quase ficamos moucos com a voz estridente da tia São.

Já comemoramos pelo menos oito aniversários via web. Não há bolo para todos. A diabetes, que teima em assombrar boa parte da família, anda controladinha. [A parte da diabetes controlada é mentira. Todos os dias chegam ao grupo de Facebook fotos de bolos e doçaria variada] .

A especialidade da prima Daniela é o bolo de iogurte e um semifrio de bolacha delicioso. A prima Cláudia faz uma mousse de Oreo com um aspeto divinal (mas a Lara também não fica atrás). A prima Sílvia é uma expert em bolo de cacau. A prima Carla faz um bolo de cenoura espetacular! A tia Fátima ainda não mandou fotografia, mas aposto que tem enchido o tio Firmino de queijadinhas. A coitada ainda não teve tempo de tirar fotos da sua especialidade porque os seus dias não têm sido fáceis. Tem estado a cuidar da Adriana e do Francisco (ambos no 1.º ciclo) que teimam em pôr a cabeça da avó em água.

O casamento da nossa "Catarina" foi adiado. Nós estamos tristes. Ela ainda mais. Mas havemos de festejar a união dela com o Xavier ainda com mais vontade e com mais alegria. Esta pandemia fez-nos crescer e aprender a dar ainda mais valor às nossas confraternizações, às gargalhadas juntos, aos abraços apertados. O enlace, que será em 2021, promete!

A par disto, nascerão mais duas "ganchinhas" durante o cenário de guerra. Não as vamos poder visitar, não as vamos pegar no colo tão cedo, mas estamos todos a fazer figas para que nasçam cheias de saúde e de garra.

Tenho saudades. Muitas saudades. Tenho saudades de uma série de gente... mas e do avô Eduardo? Só de pensar o coração já aperta. Faz 92 anos a 12 de maio e não vão haver os festejos habituais ao patriarca da família. Estou inconsolável com a ideia, mas não há outra opção. O que me descansa é que o tio Abílio, sempre muito paciente, tratará muito bem o meu avô - como sempre. A distância é, por estes dias, o maior ato de amor.

Ah, e por falar em amor! Sabem que anda por aí um ganchinho a espalhar amor e dedicação ao próximo? É o nosso Eduardo Filipe. Não é que ele foi um dos bombeiros que entrou no lar de Cavalões e ajudou a transportar os idosos para o Hospital militar no Porto? Que orgulho!

O futuro que se avizinha não será tão colorido quanto imaginei. Tão cedo o medo não vai sair do peito. A crise económica mundial vai afetar-nos a todos um bocadinho. Mas se, depois desta guerra, não perder nenhum dos meus soldados sou a pessoa mais feliz e mais grata deste mundo.

Fiquem em casa e protejam-se!