Como estamos a viver a pandemia

O que é ser psicóloga em tempo de pandemia?

Christian Hartmann

O testemunho de Alexandra Amor, psicóloga.

Dia 16 de março, instalou-se um clima assustador sobre a Associação Comunitária de Reformados, Pensionistas e Idosos de Sacavém. Foi repentinamente decretado o fecho da resposta social de Centro de Dia, com indicação de que todos os utentes seriam transferidos para o Serviço de Apoio Domiciliário, ficando assim confinados às suas casas. As instalações da Associação ficariam vazias, apenas com vestígios de quem de lá tinha saído para o fim de semana, sem saber o que se avizinhava.

E, de repente, temos a "casa" para reorganizar, com trabalhadoras assustadas e sem saber como seriam os próximos tempos. Jamais me irei esquecer do silêncio da sala de convívio, da televisão acesa na sala vazia, da sala de almoços desfeita, do sentimento pesado que pairava na Quinta de São José, na solidão que senti.

As minhas consultas de psicologia teriam que ser realizadas à distância, com uma população que não utiliza as novas tecnologias, e os meus serviços seriam necessários a mais utentes e a mais famílias. Em tempo de pandemia, o meu serviço não passaria mais pelo gabinete em atendimento individual a utentes, mas também junto das funcionárias, a encorajar e incentivar, a reconhecer o esforço e a valorizar, perto da cozinha, a preparar os cestos para os almoços e na rua, em visitas domiciliárias.

O que é ser psicóloga em tempo de pandemia? Esta é a pergunta que para mim tenho feito. Somos por natureza "bons ouvintes", mas isso não chega em tempo de crise. É necessário sermos e termos uma postura ativa e diretiva, devemos acalmar, confortar, prestar apoio prático e encaminhar.

Os números de minutos por dia ao telefone não têm conta, os números de casos que estão em alerta aumentam e a capacidade de chegar a todo o lado tem os seus limites. Questiono-me quantos mais dias poderemos continuar com os nossos idosos isolados, em que apesar das visitas domiciliárias e das chamadas, não são suficientes.

Todos aqueles que tiveram de quarentena, que ficaram nas suas casas, compreenderão do que estou a falar. Estou a falar daquele sentimento de os dias serem todos iguais, fechados entre quatro paredes, sem qualquer ida à rua! Notem que os idosos não passeiam o cão, não vão praticar exercício físico e não vão às compras. Pior… os nossos idosos vivem na sua maioria sozinhos e não veem a família sem ser quando esta vai até à porta de casa deixar os mantimentos necessários, mas nem sequer entra porque tem medo de os contaminar. E no quadro mais negro, temos idosos completamente isolados, em que talvez só uma vizinha presta apoio. Conseguem, aqueles que estiveram em quarentena, imaginar o que isto é? Conseguem imaginar o que significa não saber quanto tempo vai durar? Pois bem, estas são algumas das palavras, das dúvidas e das ansiedades que me chegam: Dra., quando posso ir para aí? Dra., quanto mais tempo vou aguentar? Dra., será que vou voltar? Dra., tenho tantas saudades!

Dúvidas para as quais não tenho resposta, ansiedades que partilho, saudades que também tenho. Enquanto psicóloga sou boa ouvinte, mas também sou humana, sinto com os outros e tenho compaixão pelas suas angústias. Enquanto profissional reconheço os limites que temos, e estar bem consciente dos mesmos ajuda a ver o caminho com mais clareza, procurar apoio em casa, procurar supervisão pode ajudar a ter forças todos os dias para continuar a apoiar este grupo de indivíduos mais velhos, que dizem ser de risco.

A caminhar para os dois meses fechados e sem previsão de abertura do nosso centro de dia, os dilemas da Instituição aumentam e o serviço é constantemente reinventado. Já concorremos a apoios para tablets para os nossos idosos, infelizmente sem sucesso, já mandámos trabalhos didáticos, já promovemos a troca de contactos entre os utentes, aumentando o leque de relações que se estabelecem diariamente, já calendarizamos as visitas domiciliárias das técnicas… A próxima pergunta é, o que é que vamos fazer a seguir? Viver em tempo de pandemia é dar também dar asas à imaginação.