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O que é a asma? E outras perguntas para conhecer a doença

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Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

É uma das doenças crónicas mais comuns no mundo. Em Portugal, a asma afeta cerca de um milhão de pessoas ao longo da vida. Ainda assim, há muitos mitos associados a esta doença. Desde a questão hereditária à prática do desporto, a SIC Notícias reuniu um conjunto de perguntas e respostas para explicar a asma.

O que é a asma?

A asma é uma doença inflamatória crónica que causa obstrução nos canais do sistema respiratório, impedindo a passagem do ar até aos pulmões. A inflamação, muitas vezes causada por componentes alergénicos, condiciona a contração dos brônquios e causa uma limitação nos níveis de ar que chegam aos alvéolos – onde se absorve o oxigénio e liberta o dióxido de carbono.

Por ser uma doença crónica, a asma não tem cura, mas tem tratamento. Tendo a doença controlada através da medicação para combater a inflamação, os doentes conseguem ter uma vida normal e sem limitações. A pneumologista Rita Gerardo considera que esta doença tem uma característica especial: "fazendo o tratamento, o doente consegue esquecer que tem asma".

Quais os principais sintomas da asma?

Há quatro sintomas principais que são característicos da asma: a pieira, a dispneia, a tosse seca e uma sensação de aperto no peito.

"Quando estes quatro sintomas estão presentes, muito provavelmente estamos perante uma asma", afirma a Rita Gerardo.

A pieira é, muitas vezes, o primeiro sinal de que vai acontecer uma crise de asma. Normalmente é comparada ao som de um gato a miar que acompanha a respiração do doente e vai-se tornando cada vez mais intensa. A dispneia é uma sensação de falta de ar, em que o doente não consegue que o oxigénio chegue aos pulmões. Esta situação pode gerar algum receio e até situações de pânico, que acabam por piorar a crise.

Identificados estes sintomas, o doente terá de realizar alguns exames para confirmar a asma e também para excluir outras doenças que possam ter uma sintomatologia semelhante.

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Como se trata a asma?

O tratamento da asma é dividido em duas partes: a medicação de controlo e a medicação de alívio ou SOS.

Os medicamentos de controlo atuam diretamente na inflamação que afeta os brônquios. Estes inaladores contêm corticoides e broncodilatadores e devem ser aplicados regularmente. Enquanto os corticoides vão atuar diretamente na inflamação, os broncodilatadores permitem repor o calibre dos brônquios, afetado pela inflamação e pela broncoconstrição.

"A asma é uma doença inflamatória e se não tratarmos a inflamação, esta permanece nos brônquios. Perante a inflamação, a parede dos brônquios fica mais inchada, com edema, e aí o calibre dos brônquios - a área por onde passa o ar - fica reduzida", explica Rita Gerardo. Para além disso, é também uma característica da asma a broncoconstrição, que resulta da contração dos músculos e que faz com que "o calibre fique mais reduzido".

A par com a terapia de controlo, os medicamentos de alívio, compostos por broncodilatadores, atuam diretamente no músculo dos brônquios e permitem ao doente travar uma situação de crise e voltar a respirar. No entanto, esta terapêutica deve ser usada como um complemento ao tratamento de controlo, uma vez que não atua na inflamação e também porque, quando tomados em demasia, podem ter consequências para o doente.

Os doentes com asma devem continuar a fazer a medicação de controlo mesmo que não tenham sintomas. Caso não tomem a medicação regularmente, a inflamação vai permanecer nos brônquios e pode causar alterações estruturais e diminuir a capacidade de ar que chega aos alvéolos. Estas alterações afetam a capacidade pulmonar, podem resultar em crises de asma mais frequentes e aumentar o risco de infeções.

"A maior parte dos doentes com asma consegue fazer um controlo total [da doença] desde que façam a medicação de uma forma correta. Existe uma pequena proporção dos doentes asmáticos, que são os doentes asmáticos graves, que podem ter sintomas bastante mais difíceis de controlar, precisar de uma medicação mais intensa e mesmo assim acabar por ter alguns sintomas", acrescenta ainda Tiago Alfaro.

A percentagem de doentes asmáticos que têm asma grave pode chegar aos 10%.

Quantas pessoas têm asma em Portugal?

"Há um milhão de portugueses que têm asma ao longo da vida, mas, na realidade, se perguntarmos quem teve sintomas ao longo do último ano serão mais ou menos 600 mil", responde Tiago Alfaro, vice-presidente da SPP.

Estima-se que 10% da população portuguesa tenha asma, ao longo da vida, e 6,4% tenha asma ativa. A percentagem em Portugal está em conformidade com a mundial, que ronda também os 10%.

O facto de haver pessoas que não tenham tido sintomas ao longo do último ano, não significa que a doença tenha sido curada. A asma é uma doença crónica e, por isso, não tem cura. No entanto, é uma doença heterogénea que varia de doente para doente e até no próprio doente. Há doentes que passam longos períodos de tempo sem ter qualquer sintoma, mas isso não quer dizer que a doença não esteja lá.

"A doença é muito variável de pessoa para pessoa, mas também muito variável na mesma pessoa. Efetivamente, uma pessoa pode ter sintomas de asma num determinado mês, ano ou década e depois não ter durante uma série de tempo. A doença pode existir, não ter nenhuma manifestação ao longo de muito tempo e depois acabar por se manifestar porque há uma nova exposição alérgica", acrescenta o pneumologista.

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A asma cura-se, em algumas crianças, com a idade?

Muitas vezes, as pessoas contam que tiveram asma durante a infância e depois passou. Nos primeiros anos de vida, existem síndromes asmatiformes – doenças com sintomas semelhantes à asma, muitas vezes relacionados com infeções víricas – que se desenvolvem e que podem criar alguma confusão no diagnóstico.

"Geralmente, o diagnóstico da asma só se faz corretamente a partir dos cinco anos de idade. Até aí, [as crianças] podem ter sintomas semelhantes aos da asma que podem ter várias razões, sendo as principais as infeções víricas, podendo provocar falta de ar, gatinhos no peito e, muitas vezes, é preciso levar as crianças para o hospital", esclarece Rita Gerardo.

Como os sintomas são semelhantes, as pessoas podem pensar que têm asma, mesmo sem terem sido diagnosticados. "A asma que surge a partir dos cinco anos e que permanece com os sintomas, geralmente não desaparece", remata a pneumologista.

A asma é uma doença hereditária?

A asma tem vários fatores de risco, sendo o principal as alergias. Como as alergias têm um componente hereditário e ambiental, quando há elementos na família que sofrem de alergias ou até mesmo de asma, aumenta a probabilidade dos descendentes também desenvolverem a doença. Isso não quer dizer que a doença seja causada por uma alteração genética e não implica que a transmissão de pais para filhos ocorra em todos os casos.

"O principal fator de risco para ter asma é as alergias, a atopia. E a atopia tem um componente hereditário familiar muito importante. Portanto, uma boa percentagem das pessoas tem o componente familiar das alergias e, como tal, da sua asma. Agora, é muito variável. Essa questão de poder saltar uma geração quer dizer, simplesmente, que houve uma pessoa que teve a doença com menos gravidade do que as outras. Normalmente mantém-se ao longo da família", explica Tiago Alfaro.

Para além disso, a exposição ambiental também contribui para o aparecimento e o agravamento da doença. Normalmente, a asma associada às alergias é identificada na infância.

Existem outros fatores de risco para desenvolver asma, tais como tabaco, obesidade, refluxo gastroesofágico, poluição atmosférica, ou até situações de depressão e ansiedade. A exposição ocupacional pode também estar na origem do desenvolvimento de asma em adultos.

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Os doentes asmáticos não podem fazer desporto?

É um mito dizer que os doentes asmáticos não podem fazer desporto. Se um doente tiver a sua asma controlada pode praticar desporto sem qualquer problema.

"A ideia de que os asmáticos não devem praticar exercício físico e devem viver limitados com isso é errada, devia ser justamente ao contrário", afirma João Gaspar Marques, imunoalergologista e coordenador do Grupo de Interesse de Asma e Alergia no Desporto da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. "O exercício acaba por ser uma ferramenta terapêutica para estes doentes. Obviamente que eles só conseguem praticar exercício físico se nós, os médicos, em parecia com eles, conseguirmos controlar a asma de tal forma que o doente pratica exercício de uma forma normal e sem sintomas."

Juntamente com o médico, o paciente deverá adaptar a sua medicação para que consiga realizar os treinos e as competições sem ter sintomas de asma. Isso poderá implicar o reforço da medicação nos dias em que irá realizar um maior esforço. O doente deverá também ter especial atenção ao aquecimento, antes de realizar o exercício, e ao alongamentos, no final.

Existem vários atletas de alta competição que são asmáticos. Ficam alguns exemplos: o nadador olímpico Michael Phelps, os futebolistas David Beckham, Deco e Nuno Marques ou a maratonista Rosa Mota.

As grávidas podem continuar a fazer o tratamento da asma?

Mais do que podem, as grávidas devem manter o tratamento da asma durante a gestação.

"As grávidas com asma são um grupo especial para os quais também existem muitos mitos. É necessário que a mulher com asma que engravide vá à consulta com o seu médico que trata a asma para se ajustar a medicação", aconselha Rita Gerardo. "Como a medicação é inalada, entra diretamente na nossa árvore respiratória, praticamente não é absorvida e não influencia o desenvolvimento do bebé", sublinha.

Por outro lado, se a grávida não tiver a asma controlada, corre o risco de entrar em situação de crise asmática. Ao não conseguir respirar em condições, os níveis de oxigénio no sangue da mãe diminuem assim como os do feto. A falta de oxigénio pode levar ao atraso do desenvolvimento do bebé ou até induzir um parto prematuro.

"A redução de oxigénio na mãe vai condicionar redução de oxigénio do feto e isso pode atrasar o desenvolvimento do bebé. Também pode condicionar um parto pré-termo e doença grave na mãe. E a fazendo a medicação e prevenindo todas estas crises vai evitar tudo isto", explica a pneumologista.

A mãe deve ser acompanhada por um médico especialista que irá ainda desenvolver um plano para a hora do parto, acautelando a condição respiratória da grávida para as diversas situações possíveis na altura do nascimento. Também depois do parto, o tratamento para a asma deve continuar a ser realizado, uma vez que os medicamento não são transferidos para a o leite materno.

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Doentes asmáticos desenvolvem doença covid-19 mais grave?

Quando surgiu o novo coronavírus, a asma foi considerada uma das doenças de risco por ser do foro respiratório.

"No início, os doentes asmáticos, em particular, tiveram um medo enfatizado por acharem que vão ter uma problema adicional porque a covid-19 é uma doença respiratória e a asma também. Passaram a ter mais atenção, a cumprir melhor a terapêutica", recorda João Gaspar Marques.

No entanto, à medida que se foi ganhando conhecimento sobre a doença, verificou-se que os doentes asmáticos não representavam um maior risco para contrair covid-19 nem desenvolvem uma forma mais grave da doença.

"Em termos de publicações internacionais, são estes os dados em relação à asma: a asma não parece ser uma doença de risco, quer para apanhar a doença, quer para ter uma evolução mais grave", afirma Rita Gerardo.

Os casos em que foram registadas maiores complicações foi entre as pessoas com asma grave – ou seja, os que tomam corticoides orais. Nesses casos, foi identificada uma relação entre a asma e o estado mais gravoso da covid-19 e, por isso, a Direção-Geral de Saúde passou a incluir estes doentes na lista de prioritários para a segunda fase da vacinação.

Os casos de reações alérgicas à vacina da Pfizer, identificados no Reino Unido, e que levaram à suspensão da administração do fármaco em pessoas com alergias graves, levantou também questões entre a comunidade de doentes asmáticos. A forte componente alérgica, que a maioria dos doentes tem, pode ser um risco na hora de tomara a vacina? Rita Gerardo esclarece que "um doente com asma, por si só, não tem risco de desenvolver reação alérgica à vacina".

"O risco existe se tiver uma alergia conhecida a um dos componentes da vacina ou se já teve uma reação alérgica grave, uma reação anafilática, com necessidade de administração de medicação específica a fármacos ou a alimentos. Nesses casos a administração deve ser feita em meio hospitalar."

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