Pandemia

Fechado Volto já

Sandra Varandas

Quanto nos vai custar a Covid-19? A conta permanece em soma mas os dados atuais dão uma ideia do impacto.

As medidas adotadas no combate e prevenção da doença implicaram uma redução da receita de 578,6 milhões de euros e um aumento da despesa em 1943,1 milhões de euros. São números da Direção Geral do Orçamento onde só cabem os primeiros oito meses de 2020.

A Covid não retirou apenas saúde a milhares de portugueses; acrescentou-lhes saudade, solidão e uma grande insegurança económica.

Há mais marés que marinheiros

Num só dia, 200 pessoas cancelaram o passeio turístico pela costa do barlavento algarvio. Estávamos em março e foi o primeiro alarme de tsunami que os irmãos Bacalhau tiveram do novo coronavírus. Sim, era o nome que seria consagrado pela comunidade científica como SARS-COV-2, o agente provocador da Covid-19". Deveria ser 20 em Portugal, a crer que só então cá tenha chegado mas como a pandemia se estende ao nome, assim ficará para a História.

seria consagrado pela comunidade científica como SARS-COV-2, o agente provocador da Covid-19"

Pedro e João têm igual pontaria para a prosperidade como para o infortúnio. Mais para a primeira. As viagens náuticas de catamarã, semi-rígido, parasailing, kayak, pesca desportiva e os barbecues na praia, além dos sunsets a bordo com DJs, fizeram da empresa dos manos Bacalhau a maior de Albufeira em apenas 14 anos. As embarcações foram aumentando proporcionalmente à chegada de turistas atraídos pelo destino que fez deste país o melhor do mundo em várias tabelas, nos últimos anos.

Em 2019, as 17 embarcações davam e chegavam para viver bem, remunerar 50 funcionários na época baixa, chegar aos 150 quando o sol fica a pique e pagar 200 mil euros à administração da Marina de Albufeira para estacionar a frota o ano inteiro. Se o negócio progride, a tendência do investidor é fazer jus ao nome, investir.

A manutenção de embarcações pareceu-lhes o empreendimento certo. Contraíram empréstimos e alugaram mais espaço. Quando tudo corria pelo melhor, o tal alarme assustou os irmãos, mal entrados nos 40, pais de crianças pequenas e patrões de muitos agregados familiares.

"Mais facilmente acreditava num desastre ecológico aqui à nossa frente, um petroleiro, sei lá". Mas não Pedro. Este tipo de derrame não se apanha na rede, não se mete no lixo e nem dá para contornar a mancha e rumar a sotavento.

A sucessão de cancelamentos pôs 14 embarcações a seco, mandou para o desemprego mais de metade dos colaboradores e alguns dos que ficaram foram convidados a abraçar a polivalência.

O Estado de Emergência foi decretado a 18 de março. João, o mais novo dos Bacalhaus, não dormiu sobre o assunto. Passados dois dias sobre o decreto presidencial, a 20 de março, pôs mãos à obra para não ficar parado a olhar para o cais de embarque onde os clientes, para observar cetáceos ou visitar a gruta de Benegil, passaram de centenas por dia a 15 ou 26, como aconteceu na única saída que o catamarã Belize fez, no dia 26 de junho, quando a equipa da Grande Reportagem embarcou.

Como dizia, a obra do João é feita de terra; mais concretamente cinco hectares e meio que o avô deixou à família Bacalhau e que durante 35 anos ficaram ao abandono porque, pensavam eles, o futuro estava no mar e nos turistas. Os dois marinheiros fizeram-se agricultores.

Em poucos dias, graças às lições do pai Bacalhau, comerciante já reformado mas com ciência agrícola herdada, e aos vídeos tutoriais do Youtube, João aprendeu a cultivar tomate, curgete, pepino e pimento, morangos, melão e meloa, além da algarvia alfarrobeira. Fernando, o brasileiro dos barbecues de praia, aceitou o desafio da polivalência e agarrou a tesoura de poda, em vez do abanico do churrasco, que já pouco abanava.

A Quinta da Horada está verde, é instagramável e está a ser a bóia de salvação dos manos Bacalhau. Há coisas do diabo; a quinta, localizada 700 metros acima da marina, é estaleiro das embarcações paradas entre couves e alfaias.

Não há fome que não dê em fartura

As mãos de Licínia Guerra têm calos para fazerem as mulheres mais bonitas. As que gostam de adereços, colares, pulseiras de braço e de tornozelos. É para elas que trabalha no atelier de bijuteria da rua de Almada, em Setúbal.

O percurso de Licínia tem sido inclinado para o céu; passou de uma nesga de loja, no Príncipe Real, para um corredor na Embaixada, também no mesmo bairro lisboeta. Daí saltou para as grandes superfícies (Almada Fórum, Colombo e Vasco da Gama). Alargada a oferta, viu-se obrigada a contratar mais colaboradoras: nove ao todo. Umas no atelier a formigar no metal, no couro e nas pedrinhas e missangas. Outras na frente dos três quiosques que é como se chama a uma loja aberta com quatro metros quadrados, plantada no vaivém dos consumidores.

O medo ecoou cedo nos corredores dos centros comerciais e a 17 de março, um dia antes de ser decretado o Estado de Emergência, já se faziam ouvir os protestos e inseguranças de quem vende ao público: "Fecha! Fecha! Fecha!". Fechou mesmo.

Às 00h do dia 22 de março Portugal fechava portas e portadas. Os arejados quiosques de Licínia foram tapados e só desempoeiraram a 15 de junho, quando o Governo permitiu que as grande superfícies abrissem ao público na área metropolitana de Lisboa.

Foram três meses à espera que os contágios descessem do pico para o planalto, que as mortes e os internamentos fossem aceitáveis para voltar a vender.

Até lá, Licínia planeava viver do apoio extraordinário à redução da atividade económica para trabalhadores independentes, e colocar as nove funcionárias a beneficiar do layoff simplificado.

O primeiro concretizou-se, já o segundo só veio a realizar-se três meses depois do primeiro pedido, a 13 de abril. Ou seja, durante 90 dias foi Licínia quem avançou 50% do salário das funcionárias.

Se estivesse à espera da resposta oficial, "bem podiam comer pulseiras", diz a patroa. As vendas regressaram em junho, sem a pujança da era pré-covid mas têm sido sufientes para pagar as três rendas que, na totalidade, somam quase os 10 mil euros mensais.

O que aconteceu com a bijuteria de Licínia Guerra parece contradizer a prática verificada durante o confinamento: o consumo online aumentou, segundo as estimativas da ACEPI - Associação para a Economia Digital - de seis milhões de euros, em 2019 para uns esperados oito milhões,em 2020; os portugueses aforraram como não se via desde 2014.

No caso dos adornos femininos de Licínia, as clientes mascaradas e desinfetadas preferem experiementar o produto ao vivo. A 7 de outubro, Licínia Guerra ocupou mais um corredor, o quarto da marca, no CascaisShopping.

Em 2020, a humanidade trancou-se, a economia retraiu e só com distanciamento temporal poderemos contar a História da Pandemia.

No atelier de Setúbal, Licínia Guerra desesperou por ajuda do Estado para pagar a nove empregadas e os irmãos Bacalhau fizeram mais do que limonadas quando a vida só lhes dava limões. Além destras duas histórias, a Grande Reportagem

"Fechado Volto Já" retrata outros quatro casos dos efeitos colaterais da PANDEMIA em Portugal.

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