Polígrafo SIC Europa

A União Europeia moveu uma guerra diplomática contra a Rússia por causa da vacina Sputnik V?

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Várias plataformas ligadas à Russia referem que a União Europeia está a instrumentalizar a questão da vacina para mover uma guerra diplomática contra a Rússia. Será assim?

A Rússia foi o primeiro país a anunciar, em agosto de 2020, uma vacina contra a Covid-19: a Sputnik V. A notícia foi recebida com ceticismo pela comunidade científica, dada a escassez de informação então divulgada sobre os ensaios clínicos realizados durante o processo de investigação.

De acordo com as autoridades russas, foi submetido um pedido de autorização à Agência Europeia do Medicamento (EMA), mas esta nega que o pedido tenha sido feito.

Rapidamente começaram a surgir teorias da conspiração a este respeito, sobretudo provenientes de plataformas ligadas à Rússia. A maior delas passava por afirmar que a União Europeia estava a instrumentalizar a questão da vacina para mover uma guerra diplomática contra o país de Vladimir Putin. Houve mesmo quem afirmasse que a UE qualificou a vacina como uma “arma biológica”.

Será assim?

A resposta é negativa.

A verdade é que quando a Sputnik V foi anunciada as dúvidas sobre a sua eficácia não foram um exclusivo da UE – toda a comunidade científica, incluindo algumas organizações russas dedicadas aos ensaios clínicos, reagiu devido à falta de transparência dos dados apresentados.

A alegada eficácia da vacina foi anunciada ainda antes do início da sempre decisiva fase 3 de ensaios clínicos, quando a vacina é testada em larga escala. Além disso, não há qualquer registo de que um responsável da UE alguma vez tenha classificado a Sputnik V de “arma biológica”.

Entretanto, essa questão foi ultrapassada, com a publicação, a 2 de fevereiro, de um artigo na prestigiada revista científica The Lancet, em que se conclui que a eficácia da vacina russa, testada em 19.866 voluntários, é de 91,6%. Segundo a publicação, “os benefícios desta vacina, aqui reportados, são claros e o princípio científico da vacina está demonstrado, o que significa que se pode juntar mais uma vacina à luta para reduzir a incidência da Covid-19”.

Ao Polígrafo SIC Europa, Sónia Sénica, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), admite que ao anunciar que foi a primeira a produzir uma vacina eficaz contra a Covid-19 a Rússia quer afirmar-se em termos políticos e diplomáticos. Mais: que “a Sputnik V e a autossuficiência russa perante a questão pandémica vieram mostrar alguma fragilidade europeia.” Mas isso não significa que a disputa diplomática se tenha sobreposto à questão meramente clínica no que respeita à vacina.

A eurodeputada socialista Isabel Santos considera que “a única guerra” que todo o planeta está neste momento a travar, no que às vacinas diz respeito, “é contra a pandemia”. “Penso que quanto mais armas tivermos, melhores serão as nossas hipóteses de a conseguirmos vencer. Mesmo no caso da vacina russa”.

Em conclusão, não há provas factuais de que a UE esteja a mover uma guerra diplomática contra a Rússia por causa da questão da vacina contra a Covid-19. As divergências existentes prenderam-se sobretudo com o défice de informação prestada pela Rússia à autoridade europeia do medicamento sobre os procedimentos científicos que estiveram na base da criação da “Sputnik V”.

Avaliação do Polígrafo SIC Europa: Falso

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