Numa antiga fortaleza militar dentro dos Alpes suíços, um grupo internacional de estudantes, onde se incluiu um português, passou o verão a simular a vida numa base lunar. A experiência, contada pela BBC, faz parte do projeto Asclepios, que replica missões lunares para preparar a próxima geração de profissionais do espaço.
A mais recente missão do projeto, a Asclepios V, levou nove estudantes de vários países a viver durante mais de duas semanas dentro da fortaleza subterrânea de Sasso San Gottardo, nos Alpes suíços, para testar como seria habitar uma base na Lua. A iniciativa é inteiramente organizada por alunos e visa reproduzir, com o maior realismo possível, as condições físicas e psicológicas de uma missão espacial.
Criado por estudantes de engenharia aeroespacial, o Asclepios conta com cerca de 60 participantes e tem o apoio de investigadores e astronautas europeus. O projeto simula os processos de seleção e treino da Agência Espacial Europeia (ESA) e da NASA, mas é gratuito para os participantes, ao contrário de outros programas de simulação que são pagos e dispendiosos.
"Há outras simulações lunares e de Marte, mas a maioria é paga e cara. Para estudantes, nem sempre é viável", explicou à BBC o brasileiro Mateus Magalhães, doutorando em engenharia aeroespacial em Toulouse e comandante da missão.
A fortaleza onde decorreu o exercício, escavada na rocha a 2.000 metros de altitude, foi construída durante a IIª Guerra Mundial e tem uma rede de 3,5 quilómetros de túneis a temperatura constante de 6 °C. Um cenário perfeito para reproduzir as condições de uma base lunar construída dentro de "túneis de lava", onde futuras missões humanas poderão instalar-se para se proteger da radiação.
16 dias dentro da montanha
Durante 16 dias, os estudantes viveram em isolamento, alimentaram-se de comida desidratada e usaram fatos espaciais sempre que saíam da base. As saídas ao exterior - ou atividades extraveiculares - foram realizadas de noite, para simular as condições de escuridão permanente no polo sul da Lua.
Entre as experiências científicas desenvolvidas esteve o estudo dos efeitos da ausência de luz natural no sono e nos ritmos circadianos, coordenado por investigadores de Espanha, Austrália e Suíça.
"É inspirador ver como uma iniciativa liderada por estudantes consegue envolver investigadores de vários países", disse à BBC Maria Comas Soberats, especialista em cronobiologia do Hospital Universitário de Vitoria-Gasteiz, em Espanha.
O britânico Matthew Acevski, doutorando em Física no Imperial College London, descreveu a experiência como "uma das melhores" da sua vida.
"Deu-me mais clareza sobre o que quero fazer. Depois do Asclepios, inclino-me para a investigação em voos espaciais tripulados", afirmou.
Já a engenheira Lauren Victoria Paulson, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, sublinhou à BBC que "projetar para o espaço obriga à máxima eficiência" e que as tecnologias desenvolvidas em ambiente espacial "podem ser aplicadas na Terra, em zonas áridas ou frias, onde a água e os recursos são escassos".
A missão Asclepios V terminou a 7 de agosto e os dados científicos recolhidos serão publicados em revistas especializadas e apresentados em conferências internacionais. A próxima missão já procura novos astronautas.


