Saúde Mental

Já ninguém aguenta

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Carla Fernandes

Carla Fernandes

Psicóloga Clínica

Acredito sim, que estamos todos doentes, uns com Covid, outros com solidão, e tantos a sobreviver ao dia a dia, sem esperança. Os dias são cópias uns dos outros, a liberdade de movimentos, a busca pelos prazeres foi-nos retirada, onde nos agarramos?

12/02/2021, daqui a pouco, mais ou menos um mês e alguns dias, fará um ano em que vivemos com a Covi-19. Recordo-me do dia em que me deitei e soube que andava por aí um vírus e lembro-me bem do dia seguinte, em que acordei e automaticamente pensei que algo se passava, não comigo, não em Portugal mas no Mundo e percebi que o meu mundo, voltou a abanar.

Ao fazer quase um ano de convivência com o vírus invisível começo a sentir que já ninguém aguenta.

A palavra confinamento e a expressão fiquem em casa, tomou conta de nós e sobretudo da nossa mente, ao ouvir e a internalizar estas expressões diariamente parecemo-nos como um robot que passou a assumir esta normalidade sem a questionar e sem se questionar.

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O ser humano é ímpar na organização e na procura de estratégias de sobrevivência. A mala de primeiros socorros mentais está na prateleira pronta a ser usada. Contudo, esta ferida teima em não sarar e pior não se vê melhoria. Fomos atingidos por uma dor crónica com a qual nos deitamos e acordamos.

A intensidade ora aumenta, ora diminui, mas a moinha, essa continua lá. É nesta persistência de algo estranho a nós que a nossa saúde mental começa a ficar cada vez mais debilitada. Sem darmos por isso ou a darmos, tentamos constantemente ultrapassar a dor e buscar motivações diárias que nos façam esquecê-la.

Eu decidi senti-la, sei que não está nem vai ser fácil. O impacto está para vir, vai ser mau e se hoje se fala da falta de esperança, onde a iremos buscar daqui a um mês ou dois. Como temos ouvido nas notícias, os números têm de baixar, há um ano que andamos a ouvir falar de números, e quando os vemos, são mesmo algarismos, não vemos as pessoas.

Estaremos a formatar o número de mortos, recuperados, casos positivos como robots? Estes números são desde o início pessoas que morrem, ficam doentes e outras que recuperam aleatoriamente com mais ou menos sequelas. Há quem peça para ver rostos, que as pessoas se emocionam quando veem caras… eu dispenso. Não preciso de ver pessoas a sofrer, de ver quem morre, para me sentir mal e fazer a minha parte.

Acredito sim, que estamos todos doentes, uns com Covid, outros com solidão, e tantos a sobreviver ao dia a dia, sem esperança. Os dias são cópias uns dos outros, a liberdade de movimentos, a busca pelos prazeres foi-nos retirada, onde nos agarramos?

Agarrámo-nos à esperança de uma vacina, ela chegou, mas com ela veio também a descrença, os atrasos sucessivos, as negociações que nos são alheias e ocultadas e o pior do ser humano, que em situações de sobrevivência passa para o topo da lista quando não tem critério, mas poder, para a receber em primeira mão.

Só podemos estar doentes quando se usam meios para obter fins desmedidamente. A agressividade exposta nas redes sociais por tudo e por nada, por assuntos que nos dizem respeito ou dos quais somos alheios, não é normal. Não estamos bem definitivamente. Não acredito que o ser humano seja isto … que se tenha tornado nisto. O vírus não trouxe a maldade, a irritação, o desânimo, nós temos tudo isto, mas direcioná-lo desta forma, ocultarmos o bom senso, os princípios, os valores, dessa culpa nós humanos, não nos livramos, é nossa.

Já muito se falou e disse sobre os afetos, a ausência de abraços, das relações pessoais e sociais a que todos fomos sujeitos, mas será que após pandemia, teremos uma estrutura equilibrada para os dar e receber? Está na altura de planearmos o futuro da nossa vida, das nossas relações e do nosso ser. É o momento para melhorarmos como pessoas, tivemos tempo para as nossas autoanálises, não temos mais desculpas. É tempo de agirmos.

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Cada vez mais ouço, as pessoas a dizerem que quando se expõem a situações de mais aglomerados humanos, já não se sentem confortáveis, já não sabem como estar com os outros. Que sociedade será esta? Serão os antidepressivos e ansiolíticos as boias de salvação?

Há os que apelam ao retomar o quanto antes à normalidade, será que ainda não percebemos que nunca mais vamos voltar a ser como eramos.

Um ano, 365 dias, não sei quantas horas passadas vai deixar sequelas... neste momento não quero números, não quero entrar para as estatísticas diárias, quero e preciso de esperança, não farmacológica.

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Quero que o meu país, me dê esperança, não quero uma vacina que me proteja da ferida, quero tratamento, quero manter a minha alma e a minha essência sã.

Qual o caminho? Por onde caminhar sem bússola? O não termos rede leva-nos à essência enquanto pessoas.

Quero ser HUMANA, quero olhar e sentir o outro sem egoísmo, sem máscara, sem me desinfectar para estar com ele. Ser eu a 100%, não a mesma, ser aceite com as minhas imperfeições, ser a pessoa que me tornei devido a uma pandemia e que há um ano me faz companhia diariamente, que se deita comigo e acorda ao meu lado, todos os dias.

Quero a possibilidade de viver! É isto, viver em liberdade! Escolher o meu caminho sem bússola, mas com um horizonte definido e traçado por mim!!! Desta forma, JÁ NINGUÉM AGUENTA!

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