Saúde Mental

Os jovens também sofrem de burnout. "Todos os dias, saía do trabalho a chorar porque já não aguentava”

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O sonho de encontrar o emprego que sempre ambicionaram torna-se, muitas vezes, um pesadelo. A falta de oportunidades obriga-os a ficar num trabalho de que não gostam. As responsabilidades acumulam-se e levam-nos à exaustão. Quando os pratos da balança, o do lado profissional e o do bem-estar, se desequilibram, aumenta o risco de burnout. Sim, os jovens também sofrem de esgotamento físico e mental causado por excesso de trabalho.

Começa por ser um cansaço extremo e constante, uma sensação de incapacidade para avançar com as tarefas do dia-a-dia. Os distúrbios de sono – sejam insónias ou acordar várias vezes por noite – não ajudam. Ir para o trabalho torna-se uma tortura: irritação, desmotivação e falta de forças para as tarefas diárias. Surgem as dúvidas e os pensamentos negativos, surgem as dores de cabeça, o choro, a ansiedade e uma "bola de neve" que assola todos os momentos do dia.

O burnout – que em português se pode traduzir como "queimar até à exaustão" – é uma síndrome que atinge todas as faixas etárias, incluindo os jovens.

"Ia para a cama e não conseguia desligar do trabalho"

Andreia Antunes tinha 27 anos quando teve um burnout. Acabou o curso em 2015 e, depois de ter feito um estágio, mudou-se de Coimbra para Lisboa com o intuito de começar um trabalho na área de formação. Mas o que era visto como o concretizar de um sonho rapidamente se tornou num pesadelo.

Começou por se sentir cansada logo que acordava, tinha insónias e não conseguia dormir. “Muitas vezes ia para a cama e não conseguia desligar do trabalho, a minha cabeça estava a pensar no que tinha para fazer no dia seguinte, o que tinha feito nesse dia, o que tinha corrido mal, o que poderia correr mal – sempre focada no mau”, relembra.

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Depois do cansaço, vieram as crises de ansiedade e de choro. Só a ideia de ir para o trabalho provocava um turbilhão de emoções e Andreia não entendia a razão. Começou a ter falta de motivação, falta de gosto pelo trabalho que fazia e muitas dúvidas sobre as suas capacidades:

“Eu não consigo, eu sou burra, a culpa é minha, eu não tenho capacidade para isto, eu não sou boa o suficiente. Às tantas comecei a culpabilizar-me por não conseguir fazer as coisas e achar que era falta de capacidade.”

A Organização Mundial de Saúde descreve burnout como uma síndrome resultante do “stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”. É caracterizada pela “sensação de esgotamento ou exaustão de energia", pelo "aumento da distância mental do trabalho ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho" e pela "eficácia profissional reduzida”.

“O burnout é definido pela exaustão emocional e física que deriva de uma exposição contínua a um fator de stress, neste caso laboral – e quando falamos de laboral podemos estar a falar em trabalho, em academia, em escola”, explica a psicóloga Ana Félix. “Esta exposição prolongada vai trazer vulnerabilidades ao sistema enquanto um todo, tanto a nível emocional e psicológico, como a nível físico”.

"Ficava focado no monitor sem conseguir produzir, sem conseguir decidir o que tinha de fazer"

João Teixeira Duarte, de 30 anos, sentiu-se como se estivesse simplesmente a "sobreviver". No último ano viu as responsabilidades a aumentar e com elas vieram o stress e a pressão. “Isto é quase como carregar um burro de carga: tens de perceber quanto lhe podes pôr em cima até ele não se conseguir mexer mais”, compara o jovem.

Apesar da formação superior em Psicologia, há cinco anos que João mudou de carreira e desempenha o cargo de gestor de produto numa empresa de tecnologia. Depois da exaustão, começou a sentir que, por ter tido um percurso académico diferente, tinha de provar constantemente que era “um profissional de qualidade” perante as chefias e os clientes, o que o levava a aceitar mais trabalho e mais responsabilidade do que aqueles com que conseguia lidar. Até que começou a sentir-se “a colapsar” perante o volume de coisas que chegavam às suas mãos.

“No final de novembro [de 2020], eu apercebi-me que me sentava à frente do computador durante horas a fio e conseguia ter a produtividade antiga durante cerca de meia hora. Ficava sentado, focado no monitor sem conseguir produzir, sem conseguir decidir o que tinha de fazer, sem me conseguir sentir competente. Porque, na minha cabeça, eu nem conseguia terminar frases”, partilha.

Na empresa em que João estava na altura, as condições de trabalho eram, segundo o próprio, “privilegiadas”: não lhe era colocada “particular pressão de entregas, horários absurdos ou qualquer grau de exploração”. Também por isso, conseguiu férias e afastou-se um pouco da situação que lhe causava stress. Voltou passadas duas semanas e voltaram também os sintomas de burnout.

A saúde mental em tempos de pandemia

Em Portugal, segundo um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Doutro Ricardo Jorge (INSA) sobre a saúde mental em tempos de pandemia, 25,2% da população geral apresenta sintomas de burnout.

Na faixa etária dos 18 aos 29, a percentagem sobe para os 31,8%. Quando se foca na área da saúde, 32,1% dos profissionais encontra-se em situação de esgotamento.

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"Tinha muita vontade de gritar com as pessoas, quando elas não eram simpáticas comigo"

Ana Silva é um desses casos. Tem 29 anos e trabalha há oito como enfermeira no serviço de urgências de um hospital. No último ano, devido à pandemia, a carga de trabalho aumentou consideravelmente. A pressão nos hospitais obrigou os profissionais de saúde a fazer mais e mais turnos e, ao mesmo tempo, a terem de substituir os colegas que ficavam infetados pelo novo coronavírus. Ana começou a ter insónias, pesadelos, a sentir palpitações, angústia, enxaquecas e momentos de depressão.

“Eu apercebi-me quando a minha vontade de ir trabalhar era nula e que começava a ficar bastante ansiosa. Por exemplo, se entrasse amanhã às 20:00, hoje já estava a pensar várias vezes que tinha de ir trabalhar. E isso para mim é um fator de stress. Para além disso, no trabalho notei que era muito mais impaciente e que tinha muita vontade de gritar com as pessoas, quando elas não eram simpáticas comigo”, conta.

Para Ana, o burnout é como uma “onda gigante que, de repente, varre a vida toda”. “As pessoas não entendem porque é que te irritas, não entendem porque é que ficas deprimido, porque estás cansado. As pessoas não entendem que não é uma coisa que tu controlas simplesmente”.

Um problema potenciado pela pandemia: a nossa casa torna-se um escritório

A pandemia de covid-19 causou alterações bruscas no ambiente de trabalho. De um momento para o outro, o escritório de muitos portugueses passou a ser a sua própria casa, o que levou a mais horas de trabalho e a menos momentos de lazer.

“Ao estarmos constantemente em casa, nós não desligamos, não saímos do trabalho para ir para casa. Toda a nossa casa torna-se um escritório. E se no passado era importante conseguirmos diferenciar os espaços da nossa casa para diferentes coisas, para manter uma boa higiene e saúde geral do nosso eu, neste momento isso acabou”, explica a psicóloga Ana Félix.

O fim da separação entre o trabalho e o lar torna mais complicado desligar das funções laborais. As oito horas de trabalho passam a ser dez, 11, 12 ou até mais. Se por um lado existe uma necessidade de fazer sempre mais um pouco, por outro fica a faltar o cuidado pessoal e a rotina diária. “Não há o desligar e sair, não há o levantar arranjarmo-nos para ir [para o trabalho]”, acrescenta.

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As videochamadas e as trocas de mensagens substituíram as idas ao café

Segundo dados do Projeto Saúde Mental em Tempos de Pandemia, desenvolvido pelo INSA, 49% da população geral admite que trabalha mais vezes fora do horário normal do que acontecia antes do aparecimento da covid-19. 34% das pessoas considera que o trabalho tem interferido com a vida familiar ou pessoal.

Na questão da socialização, as tecnologias vieram substituir a necessidade de contacto com amigos, numa tentativa de superar a distância física. As videochamadas e as trocas de mensagens substituíram as idas ao café ou outras atividades em conjunto. No entanto, “aquilo que era algo que nós partilhávamos um bocadinho do nosso tempo, passou a ser o nosso dia inteiro e, obviamente, que, em qualquer geração, isso acabou por motivar e reforçar a exaustão”, sublinha ainda Ana Félix.

O mesmo estudo avança que apenas 35% dos inquiridos diz conseguir manter os passatempos e hobbies habituais. Enquanto 69% afirma que consegue manter a rotina diária e 74% admite que foi difícil ter de deixar de ir ao café, aos restaurantes, às compras ou fazer passeios.

Nos jovens, a questão foi semelhante: a escola à distância colocou maior pressão sobre as crianças e os momentos de brincadeira e socialização com os amigos desapareceram quase por completo. Para além disso, também o desporto – um dos principais escapes para libertar stress – foi suspenso.

Os jovens “sentem uma grande pressão, um grande peso que faz com que aumentem os níveis de stress”, afirma Bárbara Ramos Dias, psicóloga especialista em crianças e adolescentes.

“Se já tinham bastante stress e se sentiam bastante ansiosos, agora tiveram quase dois anos letivos – porque isto foi um ano mas apanhou dois anos letivos – em que a vida deles foi completamente diferente. Deixaram de fazer desporto, o que prejudica muito o stress. O estudar foi completamente diferente, as exigências dos pais muitas vezes também são maiores porque estão mais em cima".

"Nem me apetece ir à escola porque tenho medo"

O burnout não atinge apenas os jovens adultos que chegam ao mercado de trabalho. Também na infância e na adolescência, a pressão associada aos estudos pode desencadear situações de ansiedade e stress. É o caso de Pedro, de 17 anos, e de Maria, de 13, (nomes fictícios).

“Sinto um aperto grande no peito, parece que o coração vai sair, tenho tremores, falta de ar e parece que vou desmaiar”, conta Pedro, que está atualmente no 12.º anos. “O pior são as grandes dores de barriga. Choro muito com cólicas e se não for à casa de banho logo é complicado. Já cheguei a não aguentar e a fazer nas cuecas. É uma vergonha, nem me apetece ir à escola porque tenho medo.”

Os primeiros sintomas começaram aos 15 anos e, desde então, Pedro tem vindo a trabalhar com a ajuda de uma psicóloga. São as notas para entrar na faculdade que mais o preocupam. “Eu estava a lidar muito mal com o stress e só de pensar que me podia dar um ataque ficava logo ansioso e era uma bola de neve”, conta.

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Para Maria, são os vómitos e o choro que caracterizam estes momentos: “Sinto um buraco no peito e não consigo respirar, parece que tenho a garganta com uma tampa”. As situações de stress começaram há quatro meses, na escola, mas têm vindo a agravar-se. Agora, cada vez que sai de casa, tem “muito medo”.

“Já não vou a lado nenhum, é horrível”, conta referindo que há vezes em que se vê obrigada a faltar à escola ou a almoços de família. “Parece que não vivo, estou sempre com medo de me dar um ataque de ansiedade”, acrescenta.

Para a psicóloga Bárbara Ramos Dias, a pressão da sociedade e as hormonas características da adolescência são dois fatores que atuam como desencadeadores de situações de burnout em idade escolar.

“Eles ficam tão focados na ideia de que têm de tirar boas notas, porque têm de entrar na faculdade, que acabam por se desfocar do resto. É como se perdessem as forças. Passam a ter uma ansiedade tão grande face aos testes e exames que a maior parte das vezes até os impede de os fazer. Bloqueiam a memória, a concentração, sentem taquicardia e deixam de funcionar”, explica.

Para as crianças e jovens em idade escolar, a pandemia veio trazer uma alteração drástica ao dia-a-dia. Para além de ficarem confinados ao espaço da casa, o ensino à distância - que foi implementado no terceiro período do ano letivo 2019/2020 - contribuiu também para o aumento da ansiedade.

Bárbara Ramos Dias identifica esse aumento no seu gabinete: “Tenho reparado que cada vez mais cedo me surgem crianças em consultório com grandes níveis de ansiedade, de 11 e 12 anos. Mas também é natural por tudo o que passámos. Foi muito tempo em casa, muito tempo que as crianças estiveram fechadas sem correr, sem brincar, sem pular, sem estar com a natureza. Isso aumentou brutalmente os níveis de ansiedade destes miúdos”, afirma.

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Também no ensino superior, os dados referentes ao impacto da pandemia na saúde mental são “preocupantes”, avança um estudo desenvolvido pela Associação e Federações Académicas. As conclusões referem que cerca de 53% dos estudantes universitários portugueses demonstra indícios de problemas de saúde mental grave, sendo que apenas 17% procurou ajuda especializada na área de saúde mental.

“É suposto o jovem conseguir lidar com todo o seu meio. No entanto, hoje em dia, está exposto a uma sociedade moderna e louca”, afirma a psicóloga Ana Félix. “Uma sociedade que coloca exigências mas depois não coloca recursos para lidar com essas exigências. Temos jovens que passam grande parte do seu tempo na escola ou em sítios semelhantes, temos pouco tempo para ser crianças e pouco tempo para ser jovens”, acrescenta.

A pressão sobre a “Geração à Rasca”

Antes de serem considerados Millennials, a geração que entrou no mundo do trabalho durante a crise económica ganhou o nome de Geração à Rasca - nome que teve origem numa manifestação contra as medidas da troika, em 2011. Sem oportunidades de trabalho e com baixos salários, a pressão por conseguir vingar tornou-se cada vez maior.

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A sociedade impõe aos jovens um percurso que a realidade económica impede de percorrer. Depois do curso é o trabalho na área e é aí que é suposto continuar. Mas muitos dos recém-formados têm dificuldade em encontrar emprego nas respetivas áreas de formação e a pressão para serem os melhores pesa no dia-a-dia.

Matilde (nome fictício), de 27 anos, terminou o curso em Marketing mas não conseguia encontrar vagas na área. “Eu estava à procura de emprego há uns meses e não aparecia nada. Apareceu esta oportunidade, que até era numa boa empresa”, recorda. Com 25 anos, decidiu encarar esta etapa da vida como uma aprendizagem: “Vou começar neste papel e vou depois passar para aquilo que realmente quero fazer”, mentalizou-se na altura e aceitou o trabalho de assistente comercial.

Passados três meses começou a sentir-se muito cansada. “Comecei a ter algumas tonturas, sentia-me triste, muito frustrada, para mim ir para o trabalho era um pesadelo. Aquela sensação de acordar todos os dias e pensar “ó meu Deus, lá vou eu para o trabalho”. Porque eu detestava o que estava a fazer”, conta Matilde.

“Eu cheguei ao ponto de, todos os dias, sair do trabalho e chorar porque já não aguentava mais. Era muito stressante, havia pressão exigida pela hierarquia para atingir objetivos e a forma para os concretizar saía da minha ética e dos meus princípios”, desabafa.

A falta de oportunidades fez com que Matilde continuasse a trabalhar no mesmo local. Enviava currículos e respondia a vários anúncios, mas só perto de um ano depois é que conseguiu encontrar um novo emprego.

Fatores que podem desencadear uma situação de burnout

Cada pessoa tem a sua forma própria de lidar com o stress. Mas há fatores de risco que podem desencadear uma situação de burnout. Um exemplo disso, como identifica Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, é a própria dificuldade em encontrar um emprego.

“Se o trabalho for no sentido de agarrarmos aquilo que conseguimos, aumenta a probabilidade de termos falta de autonomia e controlo sobre o que fazemos, o propósito do que estamos a fazer ou o significado que aquilo tem para nós é muito reduzido. Estamos a fazer aquilo porque temos de fazer, porque precisamos do dinheiro, mas não nos diz nada”, explica.

Também a precariedade e os baixos salários podem levar a um quadro mental de escassez e a uma “sensação permanente de que não existem os recursos necessários para as coisas mínimas da vida”. “Esses quadros mentais de escassez muitas vezes alimentam a dificuldade para a tomada de decisões”, acrescenta o bastonário.

No caso de Andreia, a pressão foi diferente. Estando num trabalho na área de formação, a situação de burnout levou-a a questionar-se se seria esse o melhor caminho. Os pensamentos negativos e a incapacidade de realizar as tarefas – devido à exaustão – faziam-na pensar que queria desistir.

“Eu acho que as pessoas à minha volta não conseguiam compreender porque é que eu estava assim, tendo uma licenciatura, estando a trabalhar como licenciada na minha área, supostamente a receber um bom ordenado. Eu cheguei inclusivamente a comentar com a minha mãe que preferia estar a trabalhar numa caixa de supermercado do que estar a fazer o que estava a fazer. Lembro-me da minha mãe olhar para mim e dizer: “Mas estás parva? Tiraste uma licenciatura para ires trabalhar para uma caixa de supermercado?” Chegámos a ter uma discussão”, recorda.

O estigma associado à idade

No trabalho, Andreia sentia apoio por parte das colegas de equipa que se identificavam com a situação, mas em casa houve situações em que se sentiu incompreendida.

“Havia a questão da idade: “Tu tens 27 anos, porque é que estás assim? Não tens filhos, não tens casa para pagar, não tens família para sustentar”. Eu sei que ainda não tenho essas responsabilidades, mas isso não invalida estar-me a sentir assim. Embora, na altura, eu achasse que as pessoas tinham razão, que eu não tinha motivos para me sentir assim. Eu própria tinha o estigma de que isto só acontece a pessoas mais velhas, isto não acontece a ninguém da minha idade. Até porque tinha um uma ideia quase romantizada do que era ser workaholic."

Agora, passados mais de três anos, Andreia reconhece que esse preconceito que sentia fez com que não tivesse procurado antes uma solução para o problema. “Só procurei uma solução quando atingi um ponto limite, que foi ficar em casa de baixa”, admite.

No caso de Ana, a enfermeira optou por ficar em segredo e apenas partilhou o que sentia com o namorado. Não contou à família, porque não queria que pensassem que é “frágil e instável”, e também não quis ser julgada pelos colegas de trabalho, por isso nunca ficou de baixa médica.

“Na minha área, as pessoas consideram que o facto de sermos jovens temos muito mais energia e temos de trabalhar tanto ou mais do que os outros. Temos de aguentar ainda mais turnos, principalmente noites e tardes, porque és jovem e tens toda a energia no mundo. Entre os profissionais de saúde – é triste mas é verdade – o julgamento é muito grande no que toca a doenças psiquiátricas, principalmente se forem pessoas jovens. Porque, na cabeça da maioria das pessoas, tu tens uma vida inteira pela frente, tens mil coisas para fazer, tens coisas boas na tua vida e não percebem que isto não é uma coisa que controlas”, afirma a enfermeira.

Quando Matilde começou a dizer aos seus superiores que queria ir embora e que não gostava do que fazia, não foi apoio que sentiu. Começou a ouvir comentários sobre o prestígio da empresa e sobre a aposta que tinham feito nela enquanto profissional.

"Não se mostraram muito preocupados. Achei até que, em vez de se preocuparem com a pessoa e tentar perceber qual a melhor forma de a poder ajudar, estavam a tentar mostrar que era uma grande empresa. Que, se eu estava lá, era porque tinha sido escolhida, porque queriam apostar em mim. Que recebem muitas candidaturas e selecionaram-me a mim para aquela posição. Que é uma empresa em que as pessoas podem crescer, porque os benefícios são muito bons", recorda.

“A baixa literacia em saúde psicológica”

O estigma perante situações de saúde mental é ainda grande na sociedade, e torna-se maior quando envolve jovens. Para Francisco Miranda Rodrigues, o estima está relacionado com a “baixa literacia em saúde psicológica” e faz com que as pessoas não entendam o que significa estar em sofrimento ou ter determinada perturbação.

Esta falta de literacia pode resultar de comentários depreciativos ou que desvalorizam o sofrimento alheio.

“Quando alguém está em sofrimento e sente que o outro, a quem se dirige, não compreende, não aceita esse sofrimento, nega esse sofrimento, isso é sentido como uma agressão e causa dano”, explica.

No entanto, o bastonário da Ordem dos Psicólogos reconhece que, nos últimos tempos – principalmente durante a pandemia – tem havido “uma evolução positiva no sentido de menos preconceito e de mais aceitação” perante situações de perturbação mental.

A psicóloga Bárbara Ramos Dias defende que é preciso haver mais empatia entre as pessoas para entender melhor o que os outros estão a passar. Defende também que, para combater o estigma, é necessário substituir a crítica pelos elogios e a desvalorização dos sentimentos pela compreensão.

“Se nós agirmos como achamos que poderia ser connosco é muito mais fácil. Em vez de criticarmos e dizermos “mas tu só tens de estudar” ou “ao longo da vida vais ter muitos problemas, porque é que estás assim?”, é dizer “eu percebo perfeitamente que tu estás muito cansado ou cansada, eu também passei por isso”. Conseguirmos criar empatia e compreender os outros, pormo-nos nos sapatos dos outros e incentivar."

Identificar os sintomas e pedir ajuda

Os sintomas de burnout dividem-se em três categorias: a exaustão emocional e física, a despersonalização e desumanização e a baixa realização profissional. Cada pessoa é um caso particular e os sintomas podem manifestar-se de forma diferente em cada indivíduo. É preciso estar atento e saber pedir ajuda.

Para João, os sintomas não foram suficientes – nem com a formação em psicologia – para identificar o problema.

“As pessoas tendem a não saber explicar o que estão a sentir. Dizem que é uma de duas coisas: “estou mal” ou “eu estou só cansado”. Minimizam um problema que elas próprias não conseguem identificar porque quando estamos de perto é difícil ver o panorama”.

Foi preciso um colega dizer, durante uma reunião virtual, que estava com um burnout para João olhar para os seus sintomas e colocar a hipótese de estar a passar pelo mesmo.

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“Pode não ser fácil para muitas pessoas fazer isso sozinhas”

Dos quatro casos que a SIC Notícias contactou, apenas um procurou ajuda psicológica. Ana já tinha sido acompanhada por um profissional da área e, ao identificar os sintomas, voltou às consultas e à terapia. Nos restantes casos, a mudança de trabalho foi, por vezes, a opção seguida.

A capacidade de lidar com uma situação de burnout varia de pessoa para pessoa. Francisco Miranda Rodrigues sublinha que não se pode “afirmar perentoriamente que alguém não possa, por si só, ter as competências para ultrapassar um problema de saúde psicológica, nomeadamente quando deixa de estar exposto àquilo que pode ter levado ao burnout”. No entanto, lembra que, quando já se está numa situação extrema, “pode não ser fácil para muitas pessoas fazer isso sozinhas”.

Depois de tentar usar as férias como forma de descanso, João acabou por decidir abandonar o emprego onde estava. Nas entrevistas a que foi, fez questão de garantir que as situações que lhe provocavam stress no trabalho anterior não existiam. Depois, colocou todos os dias de férias que podia e dedicou-se a cuidar de si e a afastar-se a 100% do trabalho. Vai começar a trabalhar numa nova empresa em breve.

Andreia pediu baixa psicológica e ficou duas semanas em casa. “Na altura não tive apoio psicológico porque no centro de saúde, infelizmente, há um psicólogo quando há e não tem disponibilidade imediata para fazer um processo de psicoterapia. Se eu quisesse, teria de procurar no privado e pagar, coisa que na altura estava fora das minhas posses”, explica.

A dificuldade no acesso a profissionais de saúde psicológica em Portugal é uma situação já conhecida pela Ordem dos Psicólogos e até pela OCDE. “Não havendo apoio público – e não tendo mais de 50% dos portugueses possibilidade de ter recursos financeiros para recorrer ao privado – significa que [as pessoas] muito dificilmente terão o apoio psicológico que necessitam no seu centro de saúde, por exemplo, onde dificilmente conseguem ter um acesso a tempo e horas”, critica o bastonário.

Também a psicóloga Ana Félix lamenta “o facto de não haver grandes apoios e não haver uma grande quantidade de profissionais de no Serviço Nacional de Saúde, o que vem tirar a oportunidade das pessoas procurarem uma ajuda qualificada, infelizmente”.

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Para Matilde, foi o pai quem serviu de “confidente” e lhe deu força para continuar a ir trabalhar todos os dias. Antes de colocar fim ao contrato que tinha, pôs férias mal teve oportunidade e foi fazer uma viagem. À semelhança do que aconteceu com João, o regresso trouxe novamente os sintomas anteriores. Mesmo depois de mudar de emprego – e desta vez estando numa profissão que gostava e que a fazia sentir realizada – Matilde voltou a ter sintomas de burnout, desta vez por outros motivos:

“Quando entrei para este trabalho foi com contrato de estágio, então eu trabalhava muito e fazia muitas horas porque queria dar o meu máximo e continuar [a trabalhar aqui]. Não queria voltar para o desemprego, ainda para mais numa altura de pandemia. Senti mesmo que tinha de trabalhar bastante e provar que era boa naquilo que fazia”, conta.

Voltou o cansaço e, desta vez, Matilde decidiu mudar de atitude antes de entrar numa situação extrema. “Comecei a adotar estratégias: vou correr depois do trabalho, tento cumprir sempre os meus horários de trabalho e nunca mais peguei no computador no fim de semana – nem sequer é uma opção pensar nisso”, afirma.

Desde abril de 2020, a linha do SNS24 dispõe de uma secção destinada à saúde mental. O aconselhamento é gratuito e pode ser um primeiro contacto com um profissional que o ajuda a identificar o problema. Para além disso, existem plataformas na internet que oferecem informação sobre as perturbações mentais – com o portal Eu Sinto-me, criado pela Ordem dos Psicólogos.

O papel das empresas na prevenção

As empresa e as equipas de liderança das organizações têm também um papel importante na prevenção do burnout. E essa prevenção tem também consequências positivas na produtividade. Segundo um relatório lançado pela Ordem dos Psicólogos em 2020, “as empresas portuguesas perderam, só no ano de 2019, 3.200 milhões de euros devido a stress e problemas psicológicos no local de trabalho”, afirma o bastonário.

“A área da prevenção dos riscos psicossociais tem gradualmente crescido, seja por via da sensibilização, seja por via das ações de fiscalização da Autoridade para as Condições de Trabalho, seja, mais recentemente, por maior consciência das implicações que isto tem – não só para o bem estar das pessoas que trabalham nas organizações, mas para as perdas de produtividade e consequentemente da competitividade das próprias organizações”, afirma Francisco Miranda Rodrigues.

A Ordem dos Psicólogos tem vindo a destacar a importância de as companhias tratarem do seu principal ativo: as pessoas. Quando as empresas não acautelam e previnem os fatores que aumentam os riscos psicossociais, os trabalhadores têm tendência a abandonar a companhia – mais ainda se estivermos a falar de jovens, que são também a população mais qualificada.

Os dados apontam que “a população trabalhadora mais jovem mais dificilmente aceitará determinadas práticas de gestão que não tenham em conta o bem-estar no local de trabalho”, avança Francisco Miranda Rodrigues.

Dicas para controlar o stress

Os elevados níveis de stress podem ser desgastantes e consumirem a pessoa – seja no ambiente de trabalho, seja noutro contextos da vida. No entanto, é importante saber como se pode controlar essa questão. Por isso, em conjunto com os profissionais de saúde mental, a SIC Notícias juntou algumas dicas que pode aplicar no seu dia-a-dia:

“O burnout é um dos grandes problemas psicossociais da sociedade moderna e esta vida frenética que nós levamos, independentemente da idade, sem que haja depois a gestão da rede de suporte e de recursos acaba por nos ir destruindo e ir magoando. É importante que ativemos estas pequenas redes”, conclui Ana Félix.

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