SIC 25 Anos

TUASABU

Fernando Faria

O autor deste texto são todos os jornalistas da SIC que, desta forma, homenageiam a camaradagem dos repórteres de imagem, sem os quais nenhuma reportagem existiria.

No dia em que aterrou na Austrália, levava a câmara colada ao peito, carregava duas pesadas caixas de material, e ainda não se chamava Tuasabu. Tinha cortado o cabelo e vestia uma camisa estampada com o título da canção “Born to be wild” de Stephen Wolfe.

Apesar de tudo estava calmo, e dizia que queria ir para Timor, mesmo depois de ouvir em silêncio as longas conversas sobre o que acontecera à equipa da SIC antes da retirada forçada do Hotel Makhota.

Quem trabalhara antes com ele sabia que era daquele tipo de pessoas que conhece toda a gente, que fala com toda a gente e que é capaz de demorar horas a sair de um restaurante porque não se retira antes de se despedir de toda a gente. Tinha sempre mil e uma coisas para fazer, e não era raro vê-lo a filmar com um telemóvel em cada mão, de cigarro na boca, ao mesmo tempo que entabulava conversa com um transeunte curioso.

Darwin em Setembro de 99 era uma cidade que começava a ser invadida por funcionários das Nações Unidas e pela febre da missão militar australiana em Timor-leste.

Estava meio mundo a chegar a Darwin e outro meio mundo a tentar chegar a Timor.

Depois de comprar tendas, comida, água e um chuveiro de campanha, Tuasubu inscreveu-se em todas as possíveis listas de embarque.

Na noite de 19 de Setembro, Tuasabu já não se lembra a que horas, um amigo das Nações Unidas comunicou-lhe a boa nova: a equipa da SIC estava na primeira lista para embarque no C-130 que descolava na manhã seguinte para Díli.

Logo após a aterragem, ainda ardia o palmeiral à volta do aeroporto, um austero funcionário da ONU avisou logo que estavam por conta própria.

Nos primeiros minutos em Díli, Tuasabu sentiu que filmava a cidade mais triste do mundo. Nessa mesma noite, e enquanto fazia café, conseguiu enviar imagens para Portugal: o início da ponte aérea. O arranque da lenta progressão dos militares da INTERFET. A detenção dos primeiros elementos das milícias. O imenso campo de deslocados na praia. As casas queimadas. O fumo e lixo por todo o lado.

Instalado numa tenda nas traseiras do Mhakota, em menos de uma semana Tuasabu ganhou uma mão-cheia de amigos e conhecidos. E no princípio de Outubro, parecia que tinha mesmo encontrado um mundo novo. Era o patrão preferido dos putos que alugavam as motos aos jornalistas, e o que conseguia regatear melhor os preços das deslocações aos locais das reportagens.

A fama cresceu rapidamente com o Pemba-Díli Café, fundado em homenagem à terra natal de Tuasabu e à capital timorense. No átrio de um quarto do Hotel Turismo, improvisaram-se manjares com rações de combate e enlatados. Antro de jornalistas, melgas e espiões, militares da INTERFET e funcionários da ONU e centro paralelo de imprensa onde tudo se sabia, foi no Pemba-Díli Café que começou a ser forjada a popularidade de Tuasabu ,e nasceram muitas das reportagens que marcaram a permanência da SIC em Timor.

A 9 de Outubro, no dia em que fez 27 anos, Tuasabu recebeu uma prenda de aniversário muito especial: cobriu em Amutaain, na fronteira com Timor ocidental, o primeiro confronto armado entre as milícias pró-indonésias e as tropas australianas da INTERFET. A reportagem, um exclusivo televisivo mundial, será pirateada sem qualquer pudor pelo repórter da CNN Mathew Chance. Jill Jollife , ao serviço da Visão fará depois justiça ao furo com o título “O dia em que a SIC bateu a CNN !”.

É por esta altura que se iniciaa na língua franca timorense, e adopta o nome de guerra tétum Tuasabu – aguardente de palma. A pomada capaz de fazer saltar a língua de um morto engana a falta de cerveja e aviva a conversa com os timorenses.

A abordagem começa quase sempre da mesma maneira:

  • Diak ka lae ? Hau nia naran Tuasabu! (Como está? Chamo-me Tuasabu )

Depois da supresa inicial dos interlocutores, rasgam-se os sorrisos.

  • Hau serviço iha televisão SIC, hau mai hosi Portugal!

(Trabalho para a SIC, sou de Portugal!)

Os risos passam a gargalhada quase garantida.

O malae matam balanda, o estrangeiro de pele e olhos claros que se diz moçambicano, torna-se um verdadeiro pelações públicas, conhecido não só entre os naturais, mas também entre quem manda no território – a INTERFET e a ONU.

O status quo dá-lhe direito a ser o primeiro jornalista a entrar no martirizado enclave de Oecusse, a 27 de Outubro, num helicóptero carregado de ajuda alimentar.

Do ar, faz as primeiras imagens dos 100% de destruição do pequeno território. No chão, dorme nas ruínas onde dormem também os SAS australianos. De manhã, recebe na praia, o resto da equipa que, integrada no primeiro grupo de repórteres chega no navio da marinha francesa Sirocco.

Será o segundo exclusivo SIC para Portugal, e não será o único em Oecusse. Do enclave, encravado no Timor indonésio, sairão reportagens inéditas sobre a operação Pente, sobre o último massacre das milícias pró-indonésias em Maqelab, será relatado o heroísmo do pequeno Lafu que atravessou montanhas e enganou indonésios para chamar a INTERFET, será filmado o funeral tardio do liurai que sonhava em desenterrar a bandeira portuguesa, mas morreu no dia da libertação de Oecusse.

À terceira visita, em final de Outubro, Tuasabu vai a Oecusse, integrado na primeira ronda de Xanana Gusmão e do administrador da ONU Sérgio Vieira de Mello pelos locais mais destruídos na onda de violência pós-referendo.

Quando o helicóptero levanta, uma pequena multidão de jovens, manifesta-se ruidosamente e grita em coro, várias vezes por Tuasabu. Xanana, ri-se, surpreendido, e pergunta-lhe se não quer ficar a mandar ali.

Corre o mês de Novembro, e Tuasabu domina já totalmente os meandros da vida timorense. Calará o que viu do namoro avançado de Xanana com a australiana Kirsty. Ficará equidistante nas surdas rivalidades das ordens religiosas e menino querido das Irmãs Canossianas , dos Jesuítas e dos seminaristas de Dare, sempre bem recebido pelo Nobel da Paz D. Ximenes Belo.

Em Novembro de 1999, filma a retirada oficial indonésia, a chegada de Ramos-Horta, o quartel-general das Falintil em Aileu, a chegada do primeiro avião com refugiados de Macau. E está em mais dois exclusivos SIC: Tuasabu é o primeiro jornalista a entrar na Fragata “Vasco da Gama” e a registar a ansiedade do dever cumprido dos marinheiros portugueses que aguardaram no mar de Timor, um mês a fio, pela atribuição oficial da missão.

A saída do navio é feita no helicóptero Lynx, e sentado em cima de sacos com 300 mil contos, o primeiro dinheiro português em entrar em Timor desde a invasão indonésia de 1975.

Tuasabu decide então permanecer no território e assiste ao render de nova equipa da SIC.

Dezembro corre célere com reportagens sobre a distribuição dos escudos portugueses, as primeiras aulas de português, o Natal e fim do ano em Díli, a morte do pai de Xanana Gusmão. É só em Fevereiro que chega a desejada oportunidade de visitar o perigoso antro das milícias em Timor Ocidental.

A equipa entrevista Moko, o lider da milícia Sakunar (Escorpião) que aterrorizou Oecusse, regista a desgraça dos refugiados que sobrevivem em campos de morte, e acaba detida e ameaçada pela polícia indonésia. Vale a pressão da INTERFET, do outro lado da fronteira, e o protesto enérgico em Jacarta da embaixadora Ana Gomes.

No regresso a Díli, Tuasabu é recebido como um verdadeiro herói. Mas depois de quase seis meses no território pondera fazer as malas, e parte em Março de 2000, já as tropas portuguesas integravam a força de paz da ONU. Tuasabu regressou ainda para o primeiro aniversário do referendo da independência e para uma Grande Reportagem sobre o ensino da língua portuguesa e confirmou que mantinha intacta a popularidade.

Por razões de saúde, não assistiu à cerimónia de independência de 20 de Maio de 2002.

Mas, se houvesse uma adenda nos cancioneiros tradicionais da ilha, Tuasabu seria já certamente cantado como o Malae Lafaek Nak Filak Rai Timor. O crocodilo estrangeiro que se fez Timor!

Tuasabu foi repórter da imagem da SIC até 2011, e esteve destacado em Timor-leste entre Setembro de 1999 e Março de 2000. Vive atualmente em Moçambique.

IN Histórias de uma Revolução, SIC 20 Anos, Os Bastidores da Informação