Tribeca Festival

"Adoramos vilões porque vemos neles as partes de nós que temos medo de expressar"

Do Joker a Hannibal Lecter, passando pelo Scar de Rei Leão: há vilões que, por piores que sejam, são donos do coração do público. Porque é que amamos aqueles que é suposto odiarmos? No Tribeca Festival, Giancarlo Esposito, o temível 'Gus' de Breaking Bad, refletiu sobre a anatomia do nosso amor pelos “maus”.

"Adoramos vilões porque vemos neles as partes de nós que temos medo de expressar"
Axelle/Bauer-Griffin/Getty Images

“Adoro-o! Podemos tirar uma foto?” As exclamações de entusiasmo e os risinhos de excitação perseguem Giancarlo Esposito. Está “à civil”, vestido de forma informal. Sem seguranças atrás nem qualquer aparato que o denuncie. Ainda assim, circulando pelas ruas do Beato, em Lisboa, não consegue dar mais de cinco passos sem que seja parado para um aperto de mão e uma selfie. Para uma proclamação da admiração de alguém por ele. Poderia estar a concorrer ao prémio da pessoa mais adorada na capital portuguesa neste momento. E, no entanto, todos aqueles que o abordam conhecem-no sob a forma de um dos homens mais odiosos que existe.

O ator, que está em Lisboa para participar na edição portuguesa do festival Tribeca, entrou nas televisões (ou ecrãs de computador) de milhões de pessoas por todo o mundo como 'Gus Fring', um dos principais antagonistas de Breakin Bada série sensação que arrecadou dezenas de prémios, entre eles 16 Emmys e dois Globos de Ouro – e, mais tarde, no spin-off Better Call Saul. Um vilão capaz de, como o próprio Giancarlo Esposito descreve em detalhe, sufocar alguém até à morte com um saco na cabeça. E, ainda assim, é adorado.

Villains we love to hate: the rise of the antihero ("Vilões que adoramos odiar: a ascensão do antiherói") foi o tema de uma das 'talks' do primeiro dia desta segunda edição do Tribeca Festival em Lisboa, com Giancarlo Esposito em destaque, num painel de que também fizeram parte a mexicana Veronica Falcón e o português Joaquim de Almeida.

Ana Martingo/SIC Notícias

O ator norte-americano de origem italiana não gosta da palavra “vilão”. Prefere referir-se às personagens como a que interpreta em Breaking Bad como “emocionalmente complicadas”. As mesmas emoções complicadas que, afirma, todos nós, humanos, podemos sentir, mas não expressamos.

“Gostamos de vilões porque podemos ver, nessas personagens, uma parte de nós que temos receio de expressar”, defende. “Porque, na vida, para viver em sociedade, usamos máscaras.”

A perspetiva encontra respaldo nos estudos científicos feitos sobre o tema da adoração dos vilões da ficção pelo público. Uma investigação publicada na revista científica Psychological Science aponta que gostamos destes personagens quando encontramos neles similaridades connosco. Mesmo que, na vida real, sentíssemos repulsa por alguém que demonstrasse os comportamentos imorais destes vilões, sentimo-nos atraídos por estas potenciais versões mais negras de nós mesmos que os vilões representam. Isto acontece, de acordo com os investigadores, porque a ficção funciona como uma “rede de segurança cognitiva”, permitindo-nos identificarmo-nos com os vilões sem que isso afete a nossa imagem de nós mesmos.

"Um anti-herói não se vê como vilão, acredita que está a fazer o que é certo"

“Os seres humanos são luz e trevas. E tu escolhes qual queres ser, em qualquer momento, em qualquer dia”, defende Giancarlo Esposito. Sublinhando que o seu propósito em Breaking Bad era precisamente esse: “interpretar um ser humano em que se consegue ver a luz e as trevas e essa escolha que é feita”.

Porque, sublinha, um anti-herói não olha para si mesmo como um vilão. É um ser humano que, apesar de tudo, acredita que está a fazer a coisa certa. Caso contrário, não passa de “um vilão estereotipado, um boneco”.

Uma visão partilhada pelos colegas de painel Veronica Falcón e Joaquim de Almeida.

O anti-herói é humano. Ele não acha que é má pessoa. Ele está convencido da sua realidade”, aponta a atriz mexicana.
“Tem de haver alguma coisa que aproxime o vilão da redenção. Se for só mau por ser mau, sem nenhuma luz, não há nada que se possa fazer com essa personagem”, acrescenta o ator português.

Giancarlo Esposito conclui: “Os anti-heróis têm uma razão, têm dor”.