Investigação em Coimbra sobre os efeitos da cafeína em doenças do sistema nervoso

Loading...

Em Portugal, só no ano passado, foram vendidas 20 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos. Uma investigação levada a cabo em Coimbra conclui que a cafeína pode ter efeitos positivos em doenças do sistema nervoso

Rodrigo Cunha, cientista do Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra estuda há muito os benefícios da cafeína no cérebro humano. Mas agora conseguiu encontrar o nexo de causalidade entre o seu consumo e a melhoria da depressão.

Explica porquê: “Em termos simples, numa situação de depressão haverá um grupo de neurónios com um funcionamento aberrante que, via adenosina (por excelência um sinal que informa sobre situações de stress celular) obrigam vários outros grupos de neurónios a funcionar de modo anormal o que causa o aparecimento de sintomas depressivos”.

O que sucede é que a cafeina, erradamente considerada um ‘excitante’, sendo antes um normalizador da função cerebral, “impede esta comunicação aberrante de stress entre neurónios, permitindo que a maioria funcione de modo ‘normal’ assim evitando o aparecimento de sintomas comportamentais”, esclarece o cientista.

Para além destes efeitos a curto prazo, adianta, “durante o tempo que a cafeína está presente (antes de ser eliminada por via renal) também causa modificações epigenéticas, alterações na acessibilidade de leitura do DNA, o que contribui para uma maior margem de capacidade de adaptação a modificações do meio ambiente e portanto a menor probabilidade de desenvolvimento de diferentes doenças.”

A ideia do projeto “Entender a Base Neurológica da Depressão para Obter Novas Terapias”, liderada por Rodrigo Cunha e financiado pela Fundação La Caixa e pela Fundação da Ciência e Tecnologia (FCT), com cerca de 365 mil euros, começou a nascer entre 2003 e 2004 quando se realizou um grande estudo epidemiológico em 27 países Europeus para determinar as principais causas de doença na população europeia. “Este estudo concluiu que a principal razão que leva os europeus a procurar ajuda de profissionais de saúde são distúrbios de humor, com proeminência da depressão. Concomitantemente, os medicamentos para atenuar deficits de humor são dos mais consumidos na Europa; em Portugal o INFARMED, que tutela os medicamentos usados em Portugal, indica que foram vendidas quase 20 milhões de embalagens de ansiolíticos e antidepressivos durante o ano passado em Portugal, com cerca de um em cada cinco portugueses consumindo estes medicamentos”, refere o cientista. “O custo económico da depressão corresponde a cerca de 1% do GDP (PIB) europeu”.

Mas, para Rodrigo Cunha, “a dimensão do problema é não só epidemiológica como científica e terapêutica.” Trata-se de um problema científico porque “não sabemos quais os mecanismos críticos que se alteram no cérebro para causar modificações de humor.” É também um problema terapêutico, considera. “Os ansiolíticos e sobretudo os antidepressivos são no geral pouco eficientes, têm efeitos secundários por vezes importantes e têm efeitos muitos variáveis de indivíduo para indivíduo, provavelmente como consequência de ser porque é difícil tentar corrigir o que não se conhece.”

O cientista defende a necessidade de existirem “novas terapias mais eficientes e com menos efeitos secundários, o que implica conhecer as bases neurobiológicas da depressão.”

A investigação que coordena tem precisamente como objetivo responder a estas questões. “Parte de uma observação relacionada com a associação entre diferentes estilos de vida e a incidência de problemas depressivos: vários estudos independentes em diferentes partes do mundo concluíram que o consumo regular de doses moderadas de café diminui a incidência de problemas depressivos e da sua principal consequência imediata em termos de mortalidade, a ideação suicidária”, esclarece.


Uma janela de oportunidade para controlar humor através de antidepressivo feito de substâncias naturais do café

Tendo em conta que o café é uma mistura de milhares de substâncias naturais, importa saber qual delas é responsável pelos benefícios resultantes do seu consumo, questão essencial para criar um novo antidepressivo.

O grupo liderado por Rodrigo Cunha “focou-se na hipótese da cafeína poder ser a responsável pelos benefícios de humor conseguidos com o consumo de café, hipótese que confirmamos num modelo animal de stress crónico, que também nos permitiu identificar o alvo molecular operado pela cafeína para operar estes benefícios de humor – os recetores A2A para a adenosina (A2AR)”, explica o cientista, salientando que esta é a base do projeto. “Temos uma janela de oportunidade para testar em que circuitos do cérebro atuam os A2AR para alterar o humor. Este esforço não só esperamos vir a permitir estabelecer as bases teóricas que justifiquem o desenvolvimento como novos antidepressivos de agentes farmacológicos atuando sobre os A2AReste, mas permitirá também identificar vias críticas para o controlo do humor.”

Rodrigo Cunha nota que “qualquer estudo em doentes carece obrigatoriamente de um largo período de exaustivos estudos em modelos animais para garantir o máximo de segurança e o máximo de eficácia em qualquer intervenção em doentes.” Nesse sentido, o projeto visa primeiro uma cuidada caracterização em modelos animais “para depois evoluir em segurança para intervenções em doentes.”

Continuamos confinados e nem podemos juntar as equipas necessárias para o trabalho nem nos chegam em tempo útil os reagentes necessários para o trabalho poder ser feito. Vivemos num parêntesis.

A pandemia da covid-19 forçou a uma interrupção da pesquisa e ao envolvimento do grupo na deteção do SarsCov2, o que no início da pandemia, fruto do esforço da professora Teresa Gonçalves, “foi quase o único suporte para monitorização/deteção de infeções na região Centro do país”, diz o cientista, acrescentando: “Continuamos confinados e nem podemos juntar as equipas necessárias para o trabalho nem nos chegam em tempo útil os reagentes necessários para o trabalho poder ser feito. Vivemos num parêntesis.”

Mesmo assim, foi possível desenvolver algum trabalho que já permitiu “identificar a região no cérebro onde a manipulação dos A2AR é estritamente necessária, para além de suficiente, para a expressão de modificações de humor em modelos animais – circuitos da amigdala.” Falta ainda identificar exatamente quais. É que “apesar da amígdala ocupar uma fração residual do nosso cérebro é composta por uma notável diversidade de núcleos (13 no total), sendo necessário ainda detalhar exatamente o que é alterado após exposição a períodos de stress crónico e onde e como aí atuam os A2AR”, sublinha o cientista.

Depois, “é preciso confirmar esta informação em voluntários e em doentes antes de aferir se, e em que condições, poderemos manipular os A2AR para corrigir modificações de humor em indivíduos com diferentes tipos de depressão humoral.” Um longo caminho ainda a ser percorrido pela investigação.

Tudo o que é demais faz mal.

Apesar dos benefícios da cafeína, o seu consumo excessivo “leva à emergência de alterações comportamentais designadas como cafenismo, que se caracterizam por agitação física, tremores, ansiedade e alucinações”, alerta o cientista, sublinhando uma regra geral em biologia: “tudo o que é de mais faz mal.”

O efeito da quantidade de cafeina varia de indivíduo para indivíduo. Algumas pessoas precisam de quatro cafés “para ter a mesma perceção de bem-estar que noutras pessoas é conseguida com um café e outras pessoas há ainda (uma minoria) que já se sentem mal com um café.”

Ou seja, a quantidade ótima de café é diferente para diversos grupos de indivíduos, em função da sua constituição genética, sublinha o cientista.

Em média, os benefícios máximos para a saúde em indivíduos adultos são registados com doses equivalentes a duas ou três bicas ou cimbalinos. Rodrigo Cunha diz que, no seu caso, em função do seu genótipo, bebe cerca de seis a sete cafés por dia. “Para além de um prazer, parece ser um dos estilos de vida com efeitos mais robustos em diminuir a probabilidade de incidência de doenças crónicas com o envelhecimento, como documentado em diversos estudos em diferentes países”. Este é o grande desafio que se segue.

No âmbito do trabalho desenvolvido pelo Multidisciplinar Institute of Ageing (MIA-Portugal) centrado no envelhecimento que recebeu um financiamento da União Europeia de 15 milhões de euros “pretendemos explorar como atua o café para melhorar a saúde com o envelhecimento de modo a identificar as bases moleculares do envelhecimento saudável”.