Investigação abre uma “janela de esperança” para tratar a leucemia mieloide aguda

O tratamento para uma das leucemias mais agressivas, a mieloide aguda (LMA), poderá conhecer significativos avanços com a investigação em curso no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM)

Desenvolver uma imunoterapia universal aplicável a todas as pessoas que sofram de um determinado tipo de cancro é o principal objetivo da investigação coordenada por Bruno Silva-Santos, professor de Imunologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigador no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM).

A ideia é usar o sistema imunitário para combater a doença. Começando por uma das leucemias mais agressivas, a mieloide aguda (LMA), os investigadores estão a estudar a forma de todos os doentes poderem receber o mesmo produto de linfócitos T, produzido das células de um dador saudável. Desta forma, deixa de ser necessário preparar este produto individualmente para cada doente. É neste âmbito que o projeto de Silva-Santos, financiado pela Fundação “La Caixa”, marca a diferença, já que ultrapassa o problema da rejeição das células de umas pessoas para outras.

A ideia da criação de uma imunoterapia universal “surgiu da limitação de atual terapia celular, aplicada a alguns cancros do sangue, que é autóloga, isto é, a partir de células do próprio doente”, explica Silva-Santos. “Isto constitui uma limitação importante, quer pelos custos associados a uma terapia tão personalizada, quer pela dificuldade em produzir um produto celular com as características pretendidas a partir de células de um doente com cancro.”

O objetivo é assim desenvolver uma terapia alogénica, isto é, com células de outra pessoa, particularmente de um indivíduo saudável. Para isso, foi necessário usar um tipo de célula imunitária, chamado linfócito T gama-delta, que não reconhece diferenças entre pessoas. Essa, pode ser “a base de uma imunoterapia "universal", diz Silva-Santos.

Um projeto que marca a diferença

Embora o trabalho sobre os linfócitos T gama-delta já decorra há mais de uma década, o projeto financiado com um milhão de euros pela Fundação la Caixa iniciou-se em 2019, com o propósito de combinar as células produzidas no laboratório de Silva-Santos, no iMM, com a tecnologia dos CAR (chimeric antigen receptors), “um tipo de recetor que aumenta a potência dos linfócitos contra as células tumorais, que estava bem implementada no laboratório do meu colaborador em Barcelona, Pablo Menendez”, conta o investigador.

Silva-Santos explica de que forma é que o projeto que coordena marca a diferença relativamente à imunoterapia que é aplicada nos vários tipos de cancro. “Nos cancros sólidos, que não são do sangue, a imunoterapia mais implementada são os chamados inibidores de checkpoint, que são anticorpos que desbloqueiam os linfócitos T do doente. Esta estratégia não funciona na maioria dos cancros do sangue, em que a terapia celular - isto é, em que se obtêm células do sangue, ativam-se e expandem-se no laboratório, e depois injetam-se no doente - tem obtido resultados mais convincentes, sobretudo na leucemia linfoblástica aguda (e em alguns subtipos de linfomas), em que as CAR-T cells já são usadas como tratamento na clínica (aprovado desde 2017).”

A decisão de começar pela leucemia mieloide aguda baseou-se, sobretudo, no facto de este ser o tipo de cancro do sangue “responsável por mais mortes atualmente, por limitação da eficácia da quimioterapia, e por isso urge desenvolver uma nova abordagem clínica.” Ao contrário da leucemia linfoblástica aguda, no caso da leucemia mieloide aguda​ (em que a origem do cancro são células diferentes) ainda não há uma imunoterapia eficaz e segura para o seu tratamento”, sublinha Silva-Santos.

Até que a investigação possa produzir efeitos, há ainda, contudo, um longo caminho a percorrer.

“Temos de testar a eficácia e segurança do nosso novo produto celular em modelos pré-clínicos antes de podermos pensar em ensaios clínicos envolvendo os doentes”, explica o investigador. “Se os resultados do projeto forem tão positivos como esperamos, submeteremos um pedido de autorização para realização de ensaio clínico. Esse é sempre o objetivo máximo da nossa investigação: chegar aos doentes, constituindo uma "janela de esperança" para o seu tratamento.”