Investigadora estuda metastização do cancro da próstata

Cerca de 85% das metástases relacionadas com o cancro da próstata ocorrem nos ossos

Quais os cancros da próstata que vão metastizar? A investigadora Vera Constâncio, de 25 anos quer saber a resposta e, com esse objetivo está a realizar um doutoramento no Centro de Investigação do IPO do Porto. Licenciada em Biologia e com um mestrado em Oncologia, candidatou-se a uma bolsa da Fundação ‘la Caixa’ e conseguiu financiamento para três anos

Vera Constâncio revela o que esteve na base da ideia da sua pesquisa:

“Ao contrário de outros tumores que metastizam para diferentes órgãos, cerca de 85% das metástases relacionadas com o cancro da próstata ocorrem nos ossos. O motivo desta percentagem tão elevada de tumores da próstata metastizarem para o mesmo tecido sempre foi algo que me intrigou bastante porque tem certamente de existir algum mecanismo que explique esta preferência”.

Em 2019, na reunião da Secção de Investigação Urológica da Associação Europeia de Urologia (European Association of Urology - Section of Urological Research) organizada no IPO-Porto por Carmen Jerónimo, Bruno Costa-Silva, fez uma apresentação dos seus resultados mostrando que as vesículas extracelulares libertadas por células tumorais transportam informação para outros órgãos, nos quais ajudam ao desenvolvimento das condições necessárias para, mais tarde, estes poderem receber as células do tumor e assim desenvolverem metástases, refere Vera Constâncio.

“Segundo estes resultados o local da metastização pode até ser determinado por estas informações. Apesar destes resultados serem derivados de outros modelos tumorais, pensei imediatamente se este mecanismo poderia explicar a tão evidente preferência do cancro da próstata para o osso”. Além disso – sublinha - como estas vesículas são libertadas para a circulação sanguínea, “têm um potencial enorme como biomarcadores minimamente-invasivos, uma vez que as conseguimos detetar recorrendo a análises ao sangue.”

Tendo em conta que a investigação de biomarcadores é um dos principais objetivos do Grupo de Epigenética e Biologia do Cancro do IPO Porto, liderado por Carmen Jerónimo, os investigadores consideram que “a compreensão do papel das vesiculas extracelulares no tropismo das metástases em doentes com cancro da próstata permitirá desenvolver um biomarcador minimamente-invasivo capaz de prever o aparecimento de metástases ósseas em doentes com cancro da próstata”, esclarece Vera Constâncio.

Iniciada em Janeiro deste ano, a investigação encontra-se numa fase muito preliminar que consiste na otimização de procedimentos e testes piloto para testar algumas das ideias da equipa de investigadores, recorrendo a modelos in vitro (linhas celulares) e in vivo (modelos animais).

Um projeto que marca a diferença

Além de Vera Constâncio, o projeto envolve os seus orientadores, Carmen Jerónimo, do Instituto Português de Oncologia do Porto, Bruno Costa-Silva, da Fundação Champalimaud, e Hing Leung, do CRUK Beatson Institute de Glasgow (Reino Unido). Recebe ainda o apoio de médicos, enfermeiros e do biobanco do IPO Porto para a colheita prospetiva de amostras biológicas a doentes diagnosticados com cancro da próstata. Estas amostras serão usadas numa fase mais avançada do projeto quando já existirem alguns potenciais biomarcadores para testar.

O que marca a diferença deste projeto em relação a outros é, no entender de Vera Constâncio, “a fase do processo de metastização que nós nos estamos a propor estudar. A maioria dos estudos existentes foca-se no processo metastático, na fase em que a metástase, por muito pequena que seja, já existe. Nós queremos perceber o processo anterior, ou seja, o processo de criação de um nicho pré-metastático para o posterior alojamento de metástases”, diz. O principal objetivo é “conseguirmos identificar os doentes em que este processo de pré-metastização já está a acontecer no momento do diagnóstico ou durante o seguimento, permitindo melhorar a abordagem clínica destes doentes, nomeadamente evitando o tratamento excessivo daqueles com menor probabilidade de progredir, com o objetivo final de melhorar a qualidade de vida dos doentes”, explica a investigadora.

Nesta fase inicial, o foco está ainda em tentar perceber “o impacto das vesículas extracelulares provenientes de células tumorais de próstata no desenvolvimento de metástases ósseas recorrendo a modelos in vitro e modelos-animais.”

Concluída esta fase, a etapa seguinte consistirá nas amostras de doentes diagnosticados com cancro da próstata, armazenadas no biobanco do IPO Porto, para perceber se os biomarcadores identificados “conseguem prever o desenvolvimento de doença metastática” acrescenta Vera Constâncio.