Uma promessa para tratar a osteomielite

Há cerca de dez anos, o cirurgião ortopédico Nuno Alegrete contactou o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) do Porto, expondo as dificuldades que encontrava na sua prática clínica relacionadas com o tratamento das infeções ósseas crónicas. A questão merecia ser valorizada, visto que, anualmente, há quatro milhões de novos doentes no mundo afetados com este tipo de infeção (genericamente designada de osteomielite) que ainda não tem uma terapia eficaz.

O médico decidiu propor aos investigadores do i3S que tentassem encontrar uma solução mais eficaz no tratamento dessas infeções. Assim nasceu a ideia de desenvolver o projeto de investigação “HECOLCAP: a Solução de Um Só Passo para Infeções Ósseas Crónicas” liderado pela cientista Susana Santos.

Nuno Alegrete integrou a equipa e “tem sido um elemento fundamental para que todas as hipóteses testadas tenham translação para a clínica”, diz a investigadora.

Mas o que distingue este estudo de outros realizados no mesmo âmbito? “A principal inovação está relacionada com a erradicação de infeções ósseas através da libertação local de um antibiótico, preenchimento e consequente regeneração da cavidade óssea criada pela infeção com uma única intervenção cirúrgica”, explica Susana Santos. É uma alternativa ao tratamento convencional que implica, no mínimo, duas intervenções cirúrgicas.

Esta investigação, com um financiamento (que terminou no ano passado) de 70 mil euros da Fundação ‘la Caixa’ “permitiu realizar parte dos ensaios de validação pré-clinica”, diz a investigadora e professora.

A tecnologia inovadora do HECOLCAP, já validada, consiste numa fórmula que mimetiza o osso e elimina a infeção em cerca de três semanas. No local onde antes existia infeção, inicia-se a formação de um novo osso saudável, possível de ver passadas oito semanas.


Consolidar a tecnologia e avançar com a investigação

Agora, falta o tempo para consolidar essa tecnologia já validada “com sucesso nos ensaios in vitro em laboratório e testes pré-clínicos em animais e duas patentes registadas”, revela a cientista.

As pesquisas prosseguem orientadas pela equipa de seis investigadores do i3S (Susana Sousa, (grupo Biocompósitos) e professora do ISEP/IPP; Fernando Monteiro, Group-leader do grupo Biocompósitos e professor FEUP; Nuno Alegrete, (grupo Biocompósitos), cirurgião-ortopedista CUF/Porto;Carlos Cerqueira, economista; Catarina Coelho e Tatiana Padrão, (grupo Biocompósitos) e Bárbara Macedo e Hugo Prazeres, gabinete de transferência de tecnologia do i3S).

Os próximos passos serão “formalizar o pedido de entrada no mercado do HECOLCAP nas principais autoridades regulamentares (FDA para os Estados Unidos e EMA para a Europa) e simultaneamente começar os ensaios clínicos que atestem a eficácia e segurança do HECOLCAP também em humanos”, esclarece Susana Santos.

Um trabalho que implica superar vários obstáculos, o principal dos quais “tem a ver com financiamento consistente, disponível para realizar estas etapas de validação entre a descoberta no laboratório até à chegada do HECOLCAP aos doentes”, sublinha. “Programas como o Caixa Impulse, da Fundação “la Caixa”, são extremamente importantes neste processo, mas era importante haver uma continuidade para as fases seguintes, de forma a que projetos como o HECOLCAP, que podem fazer a diferença para milhões de doentes, não sejam descontinuados por falta de financiamento.”

A osteomielite, nome dado pelo médico francês Auguste Nélaton (1844), é uma das mais antigas doenças que se conhecem. A nova investigação da equipa do i3S do Porto constitui agora uma nova esperança para o seu tratamento.