Mais Esperança

06.04.2021

Transformers: o talento ao serviço da comunidade

Eles acreditam que toda a gente tem um talento que pode usar como “superpoder” para mudar o mundo à sua volta. São os “Transformers”, movimento que contribui para integrar os jovens em risco de exclusão social e combater o isolamento dos mais velhos

Diogo e Joana têm vidas e experiências muito diferentes. Mas estão unidos pelo amor à dança e pela dedicação aos Transformers, onde ambos são “mentores”. Quer dizer, partilham com os outros o seu talento, aquilo a que chamam o seu “superpoder”.

Diogo teve o primeiro contacto com a organização quando vivia num centro educativo e percebeu como a dança poderia mudar a sua vida.

Joana, de 16 anos, estudante do 10.ºano, conheceu o movimento num centro de estudos, em 2014. Foi aprendiz, fez Artes, Hip Hop e Kickboxing. Começou a dar aulas de dança em instituições e, este ano, tornou-se mentora num centro educativo (que acolhe crianças retiradas às famílias), no Porto. “Sempre achei interessante essa área, pois ajuda-nos a perceber melhor outras realidades, a crescermos enquanto pessoas e a sermos mais empáticos”, diz. O que mais gosta é de “ver a cara dos alunos quando nós aparecemos e como confiam em nós como se fossemos amigos de longa data”.

Diogo e Joana têm a mesma missão: aumentar o envolvimento das pessoas nas suas comunidades, através do que mais gostam de fazer, um objetivo comum ao dos outros 405 mentores que fazem parte do movimento.

Para que esse propósito se possa tornar realidade, os Transformers usam a metodologia das Escolas de Superpoderes apoiadas na crença de que é possível aprender o que mais se gosta de forma informal e em conjunto com outras pessoas.

Os mentores voluntários dão aulas do seu superpoder a grupos de aprendizes (0 aos 106 anos de idade) pelo menos uma vez por semana, durante o ano letivo. Cada grupo de aprendizes deve identificar um problema na sua comunidade e minimizá-lo através da atividade que recebeu.

Atualmente, a organização tem 4804 aprendizes e 407 mentores em várias regiões do país.

Com os apoios do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) (em material), das Câmaras (que pagam o projeto anualmente) e da Fundação Calouste Gulbenkian que elegeu o projeto como Metodologia de Referência do Conhecimento, os Transformers já transformaram as suas atividades numa causa.

Tudo começou a dançar

A história dos Transformers começou há 12 anos, em 2009, quando um jovem de 16 anos, João Brites, decidiu trocar a natação (onde já competia) pela break dance. Criou um grupo, em Palmela, e saiu à rua a dançar. A eles se juntaram outros jovens, muitos de bairros sociais, que ali exibiam os seus talentos ou os descobriam. Era uma nova forma de ocupar os mais novos, de combater a exclusão social e de mudar o espaço urbano. Foi um sucesso. A Associação Juvenil Transformers foi oficialmente criada em agosto de 2010.

Hoje, o movimento composto por voluntários apoia 600 jovens em risco de exclusão social, na descoberta dos seus talentos em atividades relacionadas com a arte ou o desporto, afastando-os dos comportamentos de risco e estimulando a sua intervenção positiva na comunidade.

Atividades como o yoga, yoga do riso, ilustração, meditação, hiphop, folclore, crossfit, música, futebol, andebol, fotografia, canto ou caça-sonhos (coaching) contribuem para ocupar os jovens em escolas, bairros sociais, centros educativos ou hospitais, ação que se estende também aos mais velhos isolados.

Mas independentemente dessas atividades, os mentores trabalham também “valores e problemas sociais como igualdade de género, racismo, bullying, saúde mental, alimentação de qualidade ou sustentabilidade ambiental”, explica Joana Moreira, responsável do projeto. “Ou seja, as atividades são só um veículo para trabalharmos problemas relevantes da sociedade.”

A consciencialização para os problemas sociais, ambientais e económicos das comunidades faz parte da missão dos Transformers que promovem valores como a informalidade, a alegria, a criatividade, a partilha, a gratidão, o pensamento crítico, a consciência social, a cooperação e a resiliência.

E tudo a pandemia mudou

Todas as atividades tiveram de ser adaptadas aos constrangimentos impostos pela pandemia. “Tivemos que transitar tudo para o digital: formação de mentores e atividades com as crianças e jovens e seniores isolados”, explica Joana Moreira. “Com os seniores foi muito complicado por serem infoexcluídos, mas temos mantido o contacto regular e criamos uma linha de tele-voluntariado para as pessoas que se sentem mais sozinhas.”

O trabalho do movimento não parou e atualmente há três programas a decorrer: Escolas de Superpoderes, AELEAD e T-Academy.

Projetos para o futuro também não faltam: “no próximo ano letivo queremos lançar no terreno o Stand Up for Something e o Reformers (conjunto de atividades para aumentar a participação cívica dos seniores)” revela Joana Moreira.

Com os Transformers, a partilha de talentos cresce, une e promove a cidadania.