Mais Esperança

03.05.2021

Cafés-restaurantes empregam pessoas com deficiência

Pessoas portadoras de distúrbios mentais e cognitivos vão passar a ter mais oportunidades de emprego com a abertura dos cafés-restaurantes “joyeux”, em Lisboa e em Cascais. A iniciativa resulta de uma parceria entre a Fundação Émeraude Solidaire e a Associação VilacomVida

Até 2026, a Associação VilacomVida tem o projeto de criar, em Portugal, entre cinco a sete cafés e restaurantes “joyeux”, para dar emprego a cerca de uma centena de pessoas com deficiência mental e cognitiva, como a trissomia 21 ou o autismo.

Durante este ano, está já prevista a abertura de dois cafés, um até Setembro, em Lisboa, e outro em Cascais, até ao primeiro trimestre de 2022. O objetivo é “tornar a diferença visível, potenciar o encontro e propor mais emprego a pessoas que estão afastadas do meio laboral”, diz Filipa Pinto Coelho, presidente da Associação Vilacomvida.

A ideia foi inspirada no conceito fundado por Yann e Lydwine Bucaille e no trabalho que é desenvolvido há quatro anos, em França. O primeiro restaurante solidário “joyeux” nasceu em 2017, em Rennes. O objetivo era formar e empregar pessoas maioritariamente portadoras de trissomia 21 ou de outro tipo de distúrbios cognitivos como o autismo. A “joyeuse”/feliz casa construiu assim um modelo de negócio rentável. 100% dos lucros resultantes do volume de negócio dos cafés-restaurantes contribuem para o desenvolvimento e abertura de novos locais em França e brevemente, em Portugal.

600 mil portugueses portadores de deficiência

Em Portugal, segundo os dados disponíveis, existem aproximadamente 600.000 pessoas portadoras de deficiência, das quais 200.000 com distúrbios mentais e cognitivos.

As empresas privadas, com mais de 10 colaboradores, empregam menos de 0,5% das pessoas portadoras de distúrbios mentais e cognitivos e a administração pública menos de 2,3%. A maioria destas pessoas não tem acesso ao mercado de trabalho, a taxa de desemprego da população em geral decresceu 18,8% entre 2011-2016, enquanto a população portadora de deficiência viu a mesma taxa aumentar 26,7%, o que representa uma taxa de desemprego duas vezes superior na população portadora de deficiência.

Para Filipa Pinto Coelho, Presidente da Associação Vilacomvida: “Tendo por base estes números, é para nós um grande orgulho e privilégio, mas também uma grande responsabilidade, o desenvolvimento no nosso território da marca solidária e inclusiva “joyeux” com a qual temos tanto em comum”, diz. “A nossa missão é mudar o olhar sobre a incapacidade mental e cognitiva através do encontro e da partilha, propondo uma oferta de qualidade no âmbito da restauração, permitindo desta forma um contacto mais próximo, regular e positivo com a diferença.”

Mas este projeto consolidado esta quinta-feira (29 de abril) com a assinatura de um acordo com a Fundação Émeraude Solidaire para o desenvolvimento do franchising da marca “café joyeux” (os cafés-restaurantes franceses que formam e empregam pessoas portadoras de distúrbios mentais e cognitivos) e que estabelece a exclusividade da representação dessa marca em Portugal pela Associação VilacomVida, começou com o projeto-piloto CafécomVida que contou com o apoio da SIC Esperança.

Desenvolvido em Santos, durante 18 meses, para “proporcionar um encontro positivo, natural e frequente com a diferença intelectual”, segundo Filipa Pinto Coelho, o CafécomVida fechou com a primeira vaga da pandemia, em março de 2020.

Com os “cafés joyeux”, nasce agora uma nova esperança para melhorar a vida das pessoas com certo tipo de deficiência. Segundo a filosofia que está na base da sua criação, devem situar-se no coração das cidades, em zonas de elevada afluência, oferecendo produtos frescos da época e privilegiando a economia local e circular, a sustentabilidade e o ambiente.

Após uma formação, os “colaboradores Joyeux”, com deficiência ou incapacidade cognitiva, integram os cafés-restaurantes com um contrato sem termo. Em função das suas capacidades e sempre acompanhados pelos seus gestores, ocupam várias funções da restauração: acolhimento, caixa, cozinha e serviço de sala.

Inovar para enfrentar a pandemia

Para desenvolverem o seu projeto “contamos apenas com donativos particulares – através de campanhas de angariação de fundos que organizamos – e de empresas particulares – como a SIC - que se identificam com a nossa missão”, diz Filipa Pinto-Coelho.

Com a pandemia, foi preciso inovar para que todos se adaptassem aos constrangimentos que se colocaram. Para que os jovens que acompanhavam não ficassem parados, foi desenvolvido um conceito de trabalho em cadeia, com outros jovens que estavam em casa, para a criação de uma marca de bolachas de aveia que faziam muito sucesso no CafécomVida. “Candidatámos este projeto ao Prémio BPI Fundação "la Caixa" Capacitar e fomos vencedores, o que possibilitou que hoje, tenhamos já as nossas CookiescomVida à venda em alguns pontos de distribuição em Lisboa e em Cascais”, conta Filipa. Foram também estabelecidas parcerias com empresas que mantiveram atividade, como a Mercearia André, em Oeiras, que empregou dois jovens preparados no CafécomVida ou a “Cozinha com Alma”, com quem estão a iniciar um projeto de formação.

A falta de financiamento é a maior dificuldade que dizem encontrar. “Financiamento até ao ponto de sustentabilidade que almejamos para o projeto. Queremos ser sustentáveis por duas vias: através do negócio social na área da restauração (Joyeux) e através de serviços de recrutamento de pessoas com deficiência e incapacidade para as empresas interessadas”, diz Filipa Pinto Coelho. Até lá, acreditam num futuro em que “a diferença já não se verá, pois fará genuinamente parte de nós.” 2026 é a meta para abrir entre cinco a sete novos cafés-restaurantes “joyeux” em Portugal,