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19.07.2021

Refugiados e migrantes repovoam aldeias de Portugal

Na aldeia da Ima, no concelho da Guarda, quatro casas foram reabilitadas para receber famílias de refugiados e migrantes, no âmbito do projeto LAR - Love And Respect, da Associação de Apoio à Inclusão de Imigrantes e Refugiados (AIIR).

É um projeto piloto de inclusão e fixação de deslocados, “com vista à repovoação de aldeias do interior de Portugal e promoção do meio rural, garantindo condições de habitabilidade e trabalho para estas famílias”, explicam Bárbara Moreira e Vanessa Rei ,responsáveis pelo projeto.

As casas foram cedidas a duas famílias por particulares pelo período de 10 anos em regime de contrato comodato, para construírem o seu lar. Foram também atribuídos terrenos para garantir trabalho, num projeto agrícola regenerativo.

Desenvolvido no âmbito do Programa Promove apoiado pelo BPI/Fundação “la Caixa”, este projeto está atualmente em mais uma fase de recrutamento e seleção para integrar uma nova família.

Uma ideia vencedora

A ideia do projeto LAR, surgiu há mais de seis anos, “pensada para outros beneficiários, as pessoas em situação sem abrigo”, diz Bárbara Moreira. “Na altura, eu fazia voluntariado com essa população e pensei que podia ser uma forma possível de reintegrar estas pessoas na sociedade. Depois de falar com a coordenadora do NPISA e de fazer voluntariado na área de reintegração desta população, percebi que não seria viável”.

A ideia voltou a ganhar sentido em 2015, quando a crise de refugiados ficou mais próxima de casa. “Foi nesta altura em que fiz um mestrado para adquirir mais competências na área, falei com várias pessoas chave que fundaram o projeto comigo como a Ghalia Taki, o Miguel Serrão, a Maria Furtado…”, conta. “Mais tarde apresentei a ideia à Jerónimo Martins que viria a ser um dos nossos principais parceiros – garantindo o escoamento daquilo que viria a ser plantado e apoiando financeiramente o projeto.”

Três anos depois, em 2018, foi criada a associação AIIR, de Apoio à Inclusão de Imigrantes e Refugiados que hoje emprega quatro pessoas em regime full-time num território de interior, e outra em regime de avença para apoio técnico agrícola, prevendo-se em breve empregar mais duas pessoas.

O projeto vingou com vários apoios. “Em primeiro lugar temos os apoios dos nossos associados, seja através do pagamento das suas quotas ou de donativos em espécie ou em género. Depois, temos o nosso grande parceiro - a Jerónimo Martins, foi com esta parceria que conseguimos o apoio também do Portugal Inovação Social. Ao longo dos últimos anos temos também vencido vários prémios, como o prémio Promove da Fundação La Caixa/ BPI, um prémio participativo do Santander, outro da Fundação Manuel António da Mota, e mais recentemente o da Agri.Doar”, referem. “Conseguimos juntar também o apoio de empresas e iniciativas de norte a sul do país, que através de donativos de género ou em espécie, nos permitiram reabilitar as casas e também dar um empurrão no negócio agrícola: o BNI Energia, a Banema, a Sotinco, a Azulima, Bosch, BigMat, CS Telhas, PremaQ, Herdade do Esporão, Verdugo e tantas outras.” Fazem questão de acrescentar ainda “os apoios pro bono dos serviços jurídicos da PLMJ, ou dos serviços de transportes da KLog e da Santos e Vale bem como as iniciativas de apoio à nossa causa como foram o projeto “Uma causa por um dia”, ou obras do artista Fidel Évora no evento “A Boca do Lobo”. Também não esqueceremos a ajuda na mão-de-obra do nosso Agostinho e do Isidro e de todos os voluntários que já passaram pelo LAR.”

À semelhança de muitas outras associações, uma das grandes dificuldades que enfrentam é “o financiamento e a capacidade de nos tornarmos autossustentáveis num espaço de tempo curto”, objetivos que a pandemia inevitavelmente atrasou.

Outra grande dificuldade é “a gestão de pessoas, e a gestão das expetativas de todas as pessoas cujas vidas são tocadas pelo nosso trabalho”, notam Bárbara Moreira e Vanessa Rei. “Por um lado, temos as expetativas dos mais antigos residentes da aldeia, cuja idade avançada já não lhes permite terem a paciência necessária para o tempo que um projeto destes exige. Depois, temos as expetativas das novas famílias e as suas especificidades culturais, que têm de se ir aos poucos ajustando à realidade do projeto e de toda a comunidade”

A estas, somam-se todas as dificuldades associadas ao desenvolvimento de projetos em territórios do interior. “Os serviços estão menos preparados para a diversidade, a rede de transportes não é minimamente abrangente face ao território, e a falta de empresas que muitas vezes são um propulsor para o desenvolvimento destas iniciativas de empreendedorismo social.”

Conquistas que motivam

Apesar das dificuldades, não lhes têm, contudo, faltado motivos para estarem felizes com o trabalho realizado. “O facto de conseguirmos engajar empresas e instituições como as que já referi, de norte a sul do país e canalizar isto para uma pequena aldeia cujo nome quase ninguém conhecia é o primeiro mote”, sublinham. “Criarmos postos de trabalho onde quase nenhuma empresa arrisca, e reconhecer o potencial de um território cada vez mais ao abandono são pontos fortes do nosso trabalho. Depois obviamente o que mais nos motiva é fazermos a diferença na vida das pessoas, permitir às famílias de migrantes reconhecerem no nosso país e nomeadamente na Ima motivos para se enraizarem e construírem o seu novo lar, ajudando-os a superar as adversidades que geralmente surgem aquando dos processos de inclusão socioprofissional de migrantes.”

O mais importante e gratificante feedback vem dos residentes da Ima. “Sabe tão bem ouvir os mais velhos elogiarem a boa educação das novas famílias, ou agradecerem o apoio e as atividades que a nossa presença na aldeia já permitiu”, dizem.

Referenciados como exemplos de boas práticas para o Observatório dos Direitos Humanos e procurados por alunos de mestrados e doutoramento para basearem as suas investigações, os responsáveis do LAR estão hoje, sobretudo, focados “na diversificação do negócio social”, afirmam. “Em tempos de crise necessitamos reinventar-nos, e por isso planeamos não basear exclusivamente a sustentabilidade deste projeto na agricultura, mas também na transformação dos produtos que produzimos e na criação de serviços de resposta à comunidade local e outros serviços que permitam vivenciar experiências interculturais e intergeracionais como workshops de gastronomia africana ou passeios micológicos.” Não faltam novas ideias, visando “a escalabilidade e replicação do projeto para outras aldeias despovoadas próximas da aldeia mãe que será a Ima, ou até para aldeias além fronteiras.”

Uma história marcante

Várias histórias têm passado pela associação. Uma das mais marcantes passou-se com uma família que, logo que chegou a Portugal a 31 de dezembro de 2019, enfrentou inúmeras dificuldades. “O pai desmaiou e foi internado assim que chegou ao país, a mãe estava grávida de seis meses e ficou sozinha com os dois filhos sem saberem falar a língua, sem fazerem ideia para onde ir, sem roupas adaptadas ao frio que se fazia sentir naquela época do ano”, conta Bárbara Moreira. Apesar de, passados uns dias, o pai ter saído do hospital, “a história da família só se ia agravando com as dificuldades em encontrarem emprego, as crianças não terem vagas nas escolas em Lisboa e terem de partilhar casa com muitos outros migrantes…”

Em março começou o confinamento, enquanto se ía aproximando a data do parto. “Quando em Setembro entrevistámos esta família pela primeira vez, percebemos que a maior preocupação das crianças e dos pais era não conseguirem ter uma vaga na escola e que os filhos passassem mais um ano letivo fora do sistema de ensino.”

Em Outubro, mudaram-se para a Ima. “A primeira coisa que as crianças nos perguntaram foi quando poderiam ir à escola – este pedido foi uma força motriz para o nosso trabalho e nunca esqueceremos que em menos de uma semana todas as crianças que ingressaram no projeto LAR estavam integradas na escola, com acesso ao transporte escolar, às atividades extracurriculares, à alimentação independentemente do status dos seus processos legais ou na segurança social”, contam.

Foi a prova do reconhecimento do trabalho da associação. “Em menos de uma semana conseguimos dar resposta a uma necessidade que tinha sido ignorada durante um ano, e no fim do ano escolar ainda recebemos a compensação de uma destas crianças, que em outubro não sabia uma palavra de português, estar no top dos melhores alunos da sua turma!”