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Rasgar Silêncios para sobreviver à violência

Rasgar Silêncios para sobreviver à violência

Mais de meia centena de mulheres tenta superar a violência de que foi
alvo através da escrita autobiográfica.

Rasgar silêncios pode ser uma das melhores formas de superar experiências traumáticas. E foi precisamente o nome que a CooLabora, cooperativa de intervenção social, escolheu para dar ao seu projeto de intervenção com mulheres sobreviventes de crimes de violência doméstica e de género. 

A ideia é “reforçar o seu empoderamento através da escrita autobiográfica enquanto ferramenta que facilita a transformação individual e a superação de situações traumáticas”, explica Graça Rojão, responsável pelo projeto. “O silêncio não é um espaço vazio, é uma prisão habitada por um diálogo constante, um espaço onde gritam memórias inesquecíveis. Rasgar Silêncios é também descobrir e construir outros sentidos para a vida.”

Com base nos textos produzidos em oficinas de escrita pelas mulheres que foram vítimas de violência doméstica e de género, constrói-se um espetáculo teatro-multimédia, de forma a promover “uma maior consciencialização da comunidade para esta problemática”, diz Graça Rojão. Está ainda prevista a “conceção de um kit de ferramentas para técnicos de apoio à vítima e outros profissionais de primeira linha (como juristas, profissionais de saúde e agentes das forças de segurança) sobre como utilizar esta metodologia durante as sessões de apoio.” O objetivo  é “aprofundar a empatia na relação com as vítimas”, refere Graça Rojão. 

Violência psicológica predomina

A ideia  de desenvolver o “Rasgar Silêncios” “partiu de um projeto de cooperação transnacional anterior em que a CooLabora participou em 2013,  com a Libera Università Dell’Autobiografia, em Itália, que permitiu aprofundar a metodologia de intervenção com vítimas vulneráveis e formar a equipa”, diz Graça, sublinhando que “Rasgar Silêncios quis ir mais longe, através da criação de ferramentas que, dentro da matriz teórica já existente, puderam aprofundar a vertente prática, de forma a serem mais facilmente apropriadas e utilizadas.”

Neste projeto (aberto a todas as pessoas, mas cuja intervenção tem incidido sobretudo em mulheres, com idades entre os 30 e os 75 anos) estão envolvidas 54 mulheres sobreviventes de violência doméstica, tendo já participado em ações de formação 85 profissionais que trabalham com vítimas de violência.

O público que assiste às apresentações do espetáculo de teatro Rasgar Silêncios, criado a partir dos textos escritos pelas vítimas, também tem sido envolvido. 

Segundo Graça Rojão, “a violência psicológica é aquela que está presente de forma mais significativa nas sobreviventes de violência doméstica e surge frequentemente associada a outros tipos de violência, nomeadamente à violência física, financeira ou sexual.” 

Financiado pelo programa Cidadãos Acti@s,  dos EEAGrants, geridos em Portugal pela Fundação Calouste Gulbenkian em consórcio com a Fundação Bissaya Barreto, este projeto envolve quatro entidades: a CooLabora, entidade promotora e que faz um trabalho quotidiano direto com vítimas de violência doméstica; a Quarta Parede, que produziu o espetáculo de teatro; o Município da Covilhã que disponibiliza apoio logístico; e a Universidade da Beira Interior (FCSH), cuja participação aporta uma componente mais científica.