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Nível de dióxido de carbono na atmosfera atingiu valor recorde em 2017

© Ho New / Reuters

Os gases com efeito de estufa, na origem das alterações climáticas, ultrapassaram de novo picos de concentração na atmosfera em 2017, alerta a ONU, apelando a uma ação urgente para inverter esta tendência.

"Os dados científicos são claros. Se não reduzirmos rapidamente os gases com efeito de estufa, nomeadamente o dióxido de carbono (CO2), as alterações climáticas terão consequências irreversíveis e cada vez mais destrutivas para a vida na Terra", declarou Petteri Taalas, secretário-geral da agência da da ONU Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Concentração de CO2 na atmosfera

2016 - 403.3 partes por milhão

2017 - 405.5 partes por milhão

"A janela de oportunidade para agir está quase a terminar"

O mundo tem de pôr em prática o Acordo de Paris para alcançar o objetivo de limitar o aquecimento global abaixo de 2ºC, 1,5ºC em relação aos níveis da Revolução Industrial. O acordo incita os países a rever em alta o seu compromisso, uma vez que, a manter os atuais padrões, vais ser facilmente atingido um aumento de 3ºC.

"A tendência é preocupante. Há uma grande diferença entre a ambição e a relaidade", recxonhece o professor Pavel Kabat, diretor do Departamento de Investigação da OMM, em conferência de imprensa.

De acordo com a OMM, as concentrações na atmosfera de dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido de azoto (N2O), três dos gases com efeito de estufa, aumentaram ainda mais em 2017 para alcançarem "novos recordes" à escala global.

E o pior é que "nada indica uma reversão desta tendência"

A elevada concentração destes gases na atmosfera é "determinante para as alterações climáticas, para o aumento do nível do mar, para a acidificação dos oceanos e para o aumento do número e da intensidade dos fenómenos meteorológicos extremos", salienta a OMM.

Catástrofes climáticas múltiplas

Até ao fim do século, algumas regiões do mundo podem enfrentar catástrofes climáticas múltiplas, que podem atingir seis ao mesmo tempo, da canícula aos incêndios, passando pelas inundações, alertaram cientistas num estudo divulgado na segunda-feira.

"A humanidade vai ser confrontada com impactos devastadores combinados com as incertezas climáticas múltiplas que interagem", indicou um dos autores, Erik Franklin, investigador no Instituto de Biologia Marinha da Universidade do Havai. "Estão a ocorrer hoje e vai continuar a piorar", disse à agência France-Press.

Nas regiões secas, isto pode conduzir à seca, inclusive a incêndios devastadores.

Nas zonas mais húmidas, vão multiplicar-se chuvas e inundações, ao passo que super tempestades vão formar-se sobre os oceanos aquecidos.

Até agora, os cientistas têm-se debruçado sobre as catástrofes, mas principalmente por tipo. Porém, o estudo publicado na revista Nature Climate Change alerta para a possibilidade, mesmo para a probabilidade, de virem a ocorrer em cascata.

No ano passado, o estado da Florida, nos Estados Unidos da América, sofreu uma seca grave, com temperaturas inéditas, uma centena de incêndios e o furacão Michael.

"Concentrar-se num risco pode esconder os impactos de outras eventualidades, conduzindo a uma avaliação incompleta das consequências das alterações climáticas para a humanidade", comentou o autor principal, Camilo Mora, da mesma universidade.

A probabilidade de esta simultaneidade depende da geografia e dos esforços de redução das emissões de gases com efeito de estufa.

A perspetiva otimista e a pessimista/realista

Se, como se prevê no Acordo de Paris de 2015, o mundo conseguir limitar o seu aquecimento a um máximo de 2 graus centígrados em relação à era pré-industrial, Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, sofrerá, provavelmente, um evento climático único cada ano no final do século.

Mas se as emissões de dióxido de carbono continuarem ao ritmo atual, a megalópole norte-americana poderia suportar até quatro ao mesmo tempo, tal como a Cidade do México, Sydney (Austrália) e Los Angeles (EUA) três e as costas atlânticas brasileiras dois.

Mesmo segundo os cenários otimistas, "a exposição acumulada e crescente a uma multiplicidade de eventos climáticos vai atingir os países ricos e pobres da mesma maneira", sublinhou-se no estudo.

Os investigadores basearam-se em milhares de estudos que se tinham focado em dez eventos específicos, na sua maioria um de cada vez - como incêndios, inundações, subida do nível do mar, tempestades, secas ou acidificação dos oceanos - e viram o seu impacto em seis aspetos da vida humana, a saber, saúde, alimentação, água, economia, infraestrutura e segurança.

"Se não considerarmos os efeitos mais diretos das alterações climáticas, como canículas ou tempestades, inevitavelmente, seremos apanhados desprevenidos pelas ameaças mais importantes que, combinando-se, podem ter um efeito maior sobre a sociedade", comentou outro autor, Jonathan Patz, da Universidade do Wisconsin.

Se as zonas costeiras tropicais devem ser as mais afetadas, as zonas temperadas mais próximas das regiões polares, como a Tasmânia (Austrália) ou algumas partes do Canadá ou da Federação Russa, poderão ser mais poupadas. No pior cenário, "a Gronelândia parece ser a menos afetada pelos eventos climáticos", salientou Franklin.

Os glaciares antes e depois das alterações climáticas