Condenado à pena de morte em 1993 pela violação e homicídio de uma criança de dois anos, o mexicano Vicente Benavides comprovou a sua inocência depois de 26 anos na prisão.
O caso aconteceu em novembro de 1991, quando tinha 42 anos, na cidade de Delano, na Califórnia. Benavides tomava conta da filha da namorada, que tinha ido trabalhar, quando se apercebeu que a criança tinha saído do apartamento.
Depois de a encontrar do lado de fora do prédio “muito mal”, a criança foi transportada para o hospital. Ao fim de oito dias, e depois de ter sido transferida e de ter passado por outros hospitais, a criança acabou por morrer de um ataque cardíaco.
Segundo os médicos, foram encontradas feridas na região genital e golpes na cabeça e no abdómen, elementos que as autoridades utilizaram para acusar Benavides. O agricultor mexicano, que à data do internamento da criança já havia sido detido, foi condenado cerca de dois anos depois à pena de morte.
A reviravolta
Apesar de sempre ter alegado que não tinha violado nem matado a criança, Benavides só conseguiu provar a sua inocência várias décadas depois de ser preso. Foi com a ajuda da advogada Cristina Bordé, que começou a trabalhar no caso em 1999, que as provas que até então tinham servido para o condenar começaram a contar outra história.
"Ele não tinha histórico de violência nem abuso sexual (…) Quando começámos a avaliar as evidências médicas, ficou muito claro que tinha sido cometida uma grande injustiça."
Uma minuciosa revisão das provas permitiu descobrir que no primeiro boletim médico não foi detetada nenhuma ferida na zona genital da criança, que o patologista declarava ter sido a causa de morte.
“No primeiro hospital tentaram colocar um cateter para medir a temperatura. Os especialistas com quem falámos disseram que as feridas nos genitais foram resultado disso.” explicou a advogada citada pela BBC.
A partir desta descoberta, a equipa de defesa pediu a vários especialistas para analisarem as provas e testemunhos apresentados durante o julgamento. Segundo a equipa, todos os especialistas consultados afirmaram que “a causa da morte indicada pelo patologista que participou no julgamento era anatomicamente impossível. Ele disse coisas completamente falsas.”.
Mais tarde, os médicos que testemunharam voltaram atrás nas suas declarações e admitiram não terem visto os boletins completos que indicavam não existir evidências de abuso sexual quando a criança foi examinada no primeiro hospital. Reconheceram ainda que os ferimentos podem ter sido causados pelo tratamento.
Em 2007, um documento de cerca de 400 páginas tornou-se a chave para a libertação, ao fim de 26 anos, do mexicano, que saiu em liberdade no ano passado.
Décadas de prisão sem culpa
Aos 68 anos recuperou a liberdade, depois de estar décadas preso injustamente. Agora vive num povoado do México com a família e amigos. Recusa dar entrevistas e diz preferir “recuperar o tempo perdido”.
Cristina Bordé revelou ter-se emocionado no momento da libertação, dizendo que conseguiu a maior vitória da sua vida: “salvar uma vida”.

