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Turquia pede penas de prisão para jornalistas da Bloomberg por "interferirem" no mercado

Murad Sezer

Os jornalistas são suspeitos de "atentado à estabilidade económica da Turquia".

A justiça turca pediu hoje entre dois e cinco anos de prisão para dois jornalistas da agência de noticias Bloomberg acusados de influir negativamente no mercado financeiro por um artigo publicado em agosto sobre a desvalorização da lira turca.

O pedido da procuradoria da Agência de regulação e supervisão bancária da Turquia (BDDK), hoje aceite por um tribunal de Istambul, acusa 38 pessoas de diversos atos destinados a fomentar a desconfiança no sistema bancário.

Entre os indiciados encontram-se os jornalistas turcos da Bloomberg Kerim Karakaya e Fercan Yalinkiliç, suspeitos de "atentado à estabilidade económica da Turquia" e ainda o conhecido economista turco Mustafa Sönmez e numerosas pessoas que fizeram comentários na rede social Twitter.

Segundo uma cópia da acusação divulgada pelo diário turco Sözcü, a procuradoria considera que os jornalistas violaram o artigo 107 da lei de mercados financeiros, que estabelece penas de prisão entre dois e cinco anos, por "difundirem informação falsa ou enganosa para influir nos preços ou valores do mercado de capitais ou nas decisões dos investidores".

Numa reportagem publicada em 10 de agosto de 2018, Karakaya e Yalinkiliç descreveram as dificuldades que enfrentavam três agências bancárias turcas para responder a massivas solicitações de retirada de fundos em moeda estrangeira.

"Condenamos a ata de acusação contra os nossos jornalistas, cuja cobertura foi adequada e fiel. Estaremos ao seu lado, e vamos apoiá-los nesta provação", indicou o chefe de redação da Bloomberg, John Micklethwait.

A situação ocorreu um dia após a lira, a moeda do país euro-asiático, ter registado uma forte desvalorização. Apenas em cinco dias, entre 09 e 14 de agosto, a moeda turca perdeu 22% do seu valor face ao dólar.

A BDDK considera que a informação dos jornalistas "não corresponde à verdade" e foi "intencional".

A economia Turca

No caso de Mustafa Sönmez, considera-se delituosa a sua especulação de que a crise poderia desencadear a bancarrota de bancos e obrigar a suspender o câmbio de divisas e da retirada de dinheiro das caixas automáticas.

O início do julgamento está previsto para 20 de setembro em Istambul.

Em abril, o Presidente Recep Tayyip Erdogan emitiu fortes críticas aos media ocidentais que acusa de empolarem as dificuldades económicas da Turquia, apontando designadamente o Financial Times por um artigo sobre o Banco central turco.

A economia turca atravessa um período particularmente difícil ao registar em 2019 a sua primeira recessão em dez anos, com uma inflação de 20%, para além da abrupta queda da moeda nacional.

O atual ministro das Finanças da Turquia, Berat Albayrak, 41 anos, é genro do Presidente turco, que lhe tem fornecido total confiança na gestão da crise.

Diversas ONG têm denunciado regularmente a erosão da liberdade de imprensa na Turquia, e o país ocupa o 157º lugar na classificação da liberdade de imprensa publicada pelos Repórteres sem fronteiras.

LUSA