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Momentos-chave da contestação em Hong Kong, desde que voltou a ser chinesa

Tyrone Siu

Ex-colónia britânica viveu vários momentos de tensão nas últimas duas décadas, desde os protestos que marcaram as eleições de 2010 ou a Revolução dos guarda-chuvas e, agora, contra a lei da Extradição para a China, que recuperou a soberania da região em 1997.

Tyrone Siu

Bobby Yip

1997: o ano que mudou (quase) tudo

A 01 de julho de 1997, o primeiro chefe do Governo de Hong Kong, Tung Chee-Hwa, declarou:

"Pela primeira vez na história, nós, o povo de Hong Kong, seremos donos de nosso próprio destino"

Foi o momento em que Hong Kong, antiga colónia britânica, foi devolvida à China sob o sistema "um país, dois sistemas".


A constituição da "Lei Básica" garantiu proteger, pelos próximos 50 anos, as instituições democráticas que distinguem Hong Kong da China continental dominada pelo Partido Comunista.

Apesar dessa promessa, Hong Kong foi testada, reforçada e desafiada repetidamente ao longo dos anos, mais recentemente nas últimas duas semanas, testemunhando o que pode ter sido o maior protesto desde que Hong Kong se tornou território chinês novamente.

Estes são alguns dos eventos importantes na luta da população para determinar o futuro de Hong Kong:

Bobby Yip

2003: Segurança Nacional


A primeira grande onda de protestos surgiu quando os líderes de Hong Kong tentaram aprovar legislação que passava a proibir atos de traição e subversão contra o Governo chinês.

O projeto assemelhava-se a leis usadas para acusar dissidentes no continente e também proibia entidades políticas estrangeiras de realizar atividades políticas e estabelecer relações com grupos políticos em Hong Kong.

A sua aprovação motivou um dos três maiores protestos da era pós-1997.

Os organizadores estimaram que cerca de meio milhão de pessoas manifestou-se contra o projeto de lei, que consideraram uma afronta à autonomia e ao Estado de Direito de Hong Kong.

Em resultado do retrocesso no projeto de lei, um membro do conselho Executivo renunciou em protesto e outras medidas que integravam a proposta foram suspensas.

2010: Eleições diretas


Na Lei Básica afirma-se que o objetivo final é que os eleitores de Hong Kong alcancem uma democracia completa, mas dez anos volvidos após a transferência, a China decidiu em 2007 que o sufrágio universal nas eleições do chefe do Executivo não poderia ser implementado até 2017. Alguns legisladores são escolhidos por grupos empresariais e comerciais, enquanto outros são eleitos por voto.


Numa tentativa de acelerar a decisão sobre o sufrágio universal, cinco legisladores renunciaram ao cargo. Mas a esse ato seguiu-se a adoção de mudanças eleitorais apoiadas por Pequim, que ampliaram a comissão eleitoral que escolhe o chefe do Governo e acrescentaram mais vagas para os deputados eleitos por voto direto.

A legislação dividiu o campo pró-democracia de Hong Kong, pois alguns apoiaram as reformas, enquanto outros disseram que só atrasariam a democracia plena enquanto reforçariam uma estrutura que favorece Pequim. Contudo, este processo acabou por marcar as primeiras mudanças no sistema eleitoral desde a transição.

2014: Revolução dos guarda-chuvas


De regresso à promessa original de permitir que os moradores de Hong Kong votem no seu líder em 2017, o Governo chinês apresentou um projeto de lei que permitiria isso, mas com uma importante advertência: os candidatos tinham de ser aprovados por Pequim.

"O Chefe do Executivo deve ser uma pessoa que ama o país [China] e ama Hong Kong", lia-se na decisão da Assembleia Nacional Popular da China.


Os legisladores pró-democracia ficaram indignados com o projeto de lei, que chamaram de exemplo de "falso sufrágio universal" e de "falsa democracia ".

O processo espoletou um protesto maciço, de contornos diferentes aos anteriores, já que a multidão ocupou alguns dos distritos mais lotados de Hong Kong durante 70 dias.

Os organizadores do movimento batizaram-no de "Ocuppy Central with Love and Peace" (Ocupar Central com Amor e Paz), mas acabou por ficar conhecido em todo o mundo como a "Revolução dos guarda-chuvas" por causa dos guarda-chuvas amarelos que os manifestantes usavam como escudos contra o gás pimenta utilizado pela polícia para dispersar os manifestantes.

Em junho de 2015, os deputados de Hong Kong rejeitaram formalmente o projeto e a reforma eleitoral ficou paralisada desde então.

A atual chefe do Governo, Carrie Lam, amplamente vista como candidata favorita do Partido Comunista Chinês, foi escolhida a dedo em 2017 por uma comissão eleitoral composta por 1.200 pessoas, dominada pelas elites pró-Pequim.

2019: A lei da Extradição

A própria Carrie Lam deu a cara no início deste ano por uma proposta de emendas à lei de extradição que permitiriam que suspeitos de crimes fossem enviados para a China para enfrentar acusações.

A legislação proposta provocou um enorme protesto a 09 de junho, com os organizadores a estimarem um milhão de pessoas na rua e, a 12 de junho, uma manifestação marcada por confrontos violentos com a polícia, que causaram mais de 100 feridos e pelo menos 11 detenções, a qual forçou o conselho legislativo a adiar o debate sobre a lei, cujo início estava marcado para aquele dia.

A tensão tem aumentado após uma série de eventos que apontam para a crescente influência de Pequim na região. Alguns dos residentes dizem que esta pode ser a última chance de falar publicamente sem a ameaça de detenções a pedido das autoridades da China continental.

No ano passado, um livreiro de Hong Kong que havia sido libertado de uma prisão na China foi detido em janeiro por agentes chineses quando viajava num comboio, acompanhado por diplomatas suecos. Gui Minhai, cidadão sueco, foi um dos cinco livreiros de Hong Kong que ficaram sob custódia das autoridades chinesas em 2015.

Em setembro, Hong Kong proibiu o Partido Nacional de Hong Kong, que defende a independência do território, por motivos de segurança nacional. Pouco depois, negou a renovação do visto para o editor do jornal Financial Times, Victor Mallet, que promovera em agosto a participação do líder daquele partido num evento do Clube de Correspondentes Estrangeiros, do qual era vice-presidente.

Lam diz que o projeto de lei incluirá salvaguardas para proteger os direitos humanos, mas os opositores criticaram o potencial da proposta para corroer o Estado de Direito de Hong Kong e a independência judicial, contra o que tinha ficado definido na Lei Básica do território.