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Relatório da ONU alerta para luta contra aquecimento global e alterações climáticas

Lucas Jackson

Documento será tornado público esta quinta-feira.

O Painel Intergovernamental Sobre Alterações Climáticas aprovou esta quarta-feira, após uma maratona negocial em Genebra, um relatório especial que defende a necessidade de garantir a segurança alimentar de uma população crescente na Terra e a luta contra o aquecimento global.

As delegações dos 195 países-membros do Painel Intergovernamental Sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) estiveram reunidos desde sexta-feira à porta fechada na Suíça, para examinar este relatório especial dos especialistas da ONU sobre o clima dedicado à "mudança climática, desertificação, degradação da terra, gestão sustentável da terra, a segurança alimentar e o fluxo de gases com efeito de estufa nos ecossistemas terrestres".

As consequências do aquecimento global

O documento, que será tornado público na quinta-feira, destaca como o aquecimento global afeta a terra dedicada a cultivos, gado ou florestas e, por sua vez, a segurança alimentar, mas também como as práticas agrícolas ou o desmatamento afetam o clima.

A revisão linha-a-linha do "resumo para os decisores políticos", de um relatório completo com cerca de 1.200 páginas, deveria ter sido concluída até o final da tarde de terça-feira, mas as discussões continuaram numa sessão para adoção de uma versão final que durou aproximadamente 28 horas.

O resultado dos debates por consenso, que podem levar à diluição de algumas formulações, será tornado público na quinta-feira de manhã em Genebra.

Alimentação vs. clima?

Na área "Alimentação vs. clima?", a investigação contida no relatório, a mais abrangente até hoje sobre o assunto, faz um balanço do estado da Terra, dos impactos da mudança climática atual e futura, mas também da maneira pela qual a modificação do uso da terra afeta o clima.

Os autores também analisaram o sistema alimentar global, os seus limites e mudanças de dieta, com o aumento do consumo de carne. Cerca de 820 milhões de pessoas passam fome, dois mil milhões de adultos são obesos ou com excesso de peso e 30% dos alimentos são perdidos, segundo o documento.

O relatório também aborda a luta contra a desertificação, o papel das mulheres e das comunidades indígenas, referindo que, "por detrás deste assunto complexo, que toca em domínios muito diversos" - as condições de vida de muitas pessoas, a preservação dos ecossistemas, os interesses de poderosas indústrias agroalimentares e florestais -, "existe uma questão fundamental: como alimentar uma população que poderá alcançar os 11,2 mil milhões de pessoas em 2100, mantendo o aquecimento global em 1,5° C, objetivo ideal do Acordo de Paris sobre o clima?".

"Como é que isso pode ser alcançado sem criar intensa competição pelo uso da terra e degradação dos ecossistemas, quando as atividades humanas já danificaram cerca de um quarto das massas terrestres não cobertas de gelo?", é outra das perguntas colocadas no documento.

Alguns dos especialistas defendem soluções baseadas em bioenergia, produzida a partir de madeira, produtos agrícolas ou resíduos orgânicos e tecnologias que visam produzir energia enquanto remove CO2 da atmosfera.

Outros investigadores alertam contra o perigo de usar essas técnicas em larga escala, pois exigiriam grandes áreas de terra que não poderiam mais ser usadas para agricultura e pecuária.

Este tópico foi um dos principais obstáculos para as discussões em Genebra, segundo observadores.

Este relatório especial segue o documento sobre a viabilidade da meta de 1,5° C publicado em outubro de 2018 em Paris e que na altura abalou a opinião pública e levou centenas de milhares de pessoas às ruas exigindo que seus governos agissem mais rápido.

Um terceiro relatório "especial" dedicado aos oceanos e à criosfera (as regiões geladas) será adotado no final de setembro no Mónaco, numa altura em que a ONU organizará uma cimeira sobre clima em Nova Iorque.

Lusa