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Acusações de traição na polémica fuga do CEO da Nissan

Mohamed Azakir

Carlos Ghosn deu uma conferência de imprensa a dizer que "ou morria ou fugia do Japão", mas está agora impedido pela justiça libanesa de abandonar o país

Ex-presidente da Renault/Nissan deveria ser julgado em Tóquio, mas fugiu do Japão no dia 30 de dezembro

Ontem Carlos Ghosn deu uma conferência de imprensa de 3 horas, em Beirute, para arrasar com a empresa onde trabalhou quase duas décadas e com a justiça do Japão, que não lhe permitiria um julgamento justo.

Na conferência de imprensa de quarta-feira, Carlos Ghosn pediu desculpas ao Estado libanês, afirmando que nunca quis ofender "ninguém" quando se deslocou a Israel com documentos franceses onde apresentou um projeto de veículos elétricos da Renault/Nissan.

Ghosn - que tem cidadania libanesa, francesa e brasileira -- agradeceu a hospitalidade das autoridades do Líbano

"Eu morreria no Japão se não fugisse"

O empresário franco-brasileiro de origem libanesa estava em prisão domiciliária no Japão a aguardar julgamento por, entre outros crimes, evasão fiscal, mas fugiu recentemente para o Líbano, de onde agora já não pode fugir.

Líbano proíbe Carlos Ghosn de abandonar o país

A justiça libanesa proibiu hoje o magnata Carlos Ghosn de abandonar o Líbano, onde se refugiou após fugir do Japão e na sequência de uma ordem de prisão pedida pela Interpol, disse à AFP uma fonte judiciária de Beirute.

"A Procuradoria Geral decidiu interditar Carlos Ghosn de viajar e pediu o processo" judicial em curso no Japão, disse a fonte sobre o ex-presidente da Renault/Nissan, acusado de desvio de fundos e má gestão.

Por outro lado, a Associated Press, que também cita uma fonte judicial libanesa que pediu anonimato, refere que a decisão teve como base a informação da Interpol indicando que Ghosn pretendia deslocar-se a Israel.

A mesma fonte da AP indicou igualmente que o Líbano recebeu na semana passada o pedido da Interpol.

Hoje, o advogado do magnata foi chamado à Procuradoria de Beirute, mas desconhece-se ainda se Ghosn esteve presente.

Na quarta-feira o ex-executivo falou em conferência de imprensa durante quase três horas tendo criticado o sistema judicial japonês que acusou de violar liberdades fundamentais.

O Líbano e o Japão não partilham tratados de extradição e o mandado da Interpol, que sugere às autoridades que localizem e detenham provisoriamente o fugitivo, não é vinculativo. Beirute já informou que Ghosn entrou no Líbano usando um passaporte válido. Paralelamente, o antigo presidente da Renault/Nissan pode vir a enfrentar um novo processo judicial em Beirute relacionado com uma visita que efetuou a Israel em 2008.

Dois advogados libaneses já submeteram o processo à Procuradoria de Beirute argumentando que a viagem violou as leis locais porque o Líbano está tecnicamente em guerra contra Israel e as deslocações ao país são proibidas.

Sucessor de Ghosn na Nissan acusa-o de traição

Pouco depois da conferência de imprensa Carlos Ghosn, o ex-presidente da Nissan Motor, Hiroto Saikawa insurgiu-se contra as acusações do antecessor e negou ter havido um "golpe de Estado" no Japão.

Depois de ter sido nomeado por Ghosn como um dos responsáveis pela sua detenção no Japão, Hiroto Saikawa veio falar da fraude que foi descoberta há dois anos.

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