Mundo

EUA acredita que tensão entre Turquia e Rússia pode aproximar turcos do ocidente

ALEXANDER ZEMLIANICHENKO / POOL

A intensificação dos bombardeamentos em Idlib originou trocas de acusações entre Turquia, que apoia os grupos rebeldes, e Rússia, aliado do Presidente sírio Bashar al-Assad.

As tensões entre a Turquia e a Rússia sobre a situação na Síria devem incitar Ancara a reaproximar-se do ocidente, em particular dos Estados Unidos, defendeu em Istambul um alto responsável do Departamento de Estado norte-americano.

Apesar do acordo sobre redução da escalada militar firmado entre Ancara e Moscovo, as forças sírias prosseguem uma ofensiva com o apoio da aviação russa na província de Idlib, noroeste da Síria, o último bastião controlado por forças rebeldes e grupos 'jihadistas'.

A intensificação dos bombardeamentos em Idlib originou nos últimos dias azedas trocas de acusações entre Ancara, que apoia os grupos rebeldes, e Moscovo, aliado do Presidente sírio Bashar al-Assad. Implicou ainda incidentes armados entre forças turcas instaladas no noroeste sírio e o exército de Damasco, com um balanço de dezenas de mortos nos dois campos.

Estas sérias divergências parecem estar a comprometer a aproximação firmada entre os Presidentes turco, Recep Tayyip Erdogan, e russo, Vladimir Putin, após uma grave crise diplomática em 2015 -- na sequência do derrube de um avião militar russo -- e que culminou numa estreita cooperação sobre a situação na Síria, apesar dos interesses divergentes.

"Decerto que gostaríamos que a Turquia se alinhe de forma mais direta e clara com a NATO [que integra o país euro-asiático] e com o Ocidente em reação ao desempenho destruidor da Rússia na região, em particular na Síria atualmente", declarou o responsável norte-americano, que pediu o anonimato, a um grupo de jornalistas em Istambul.

"Julgo que aquilo a que assistimos na Síria e na Líbia, em particular, demonstra a que ponto são divergentes os interesses da Turquia e da Rússia, e espero que os nossos parceiros turcos extraiam a mesma conclusão", acrescentou.

À semelhança da Síria, a Turquia e a Rússia apoiam campos opostos na Líbia, onde Ancara se aliou ao Governo de Tripoli reconhecido pela ONU, enquanto Moscovo é acusado de apoiar o marechal Khalifa Haftar, que controla o leste do país e desencadeou uma ofensiva militar contra Tripoli.

As forças de Haftar têm recebido apoio da companhia de segurança russa privada Wagner, descrita pelo alto responsável norte-americano como "um instrumento do Kremlin".

"O verdadeiro fator de instabilidade não é a Turquia, mas a Rússia, que desempenha na Líbia um papel particularmente pernicioso", disse.

Ao referir-se à Síria, o responsável norte-americano considerou que a Rússia "aposta numa solução militar do conflito", mas sublinhou que essa abordagem "irá contrariar os interesses da Turquia em Idlib, e na Síria de forma mais geral".

"Os interesses da Turquia e dos Estados Unidos são muito mais concordantes que os da Turquia com a Rússia. O parceiro da Turquia, o seu aliado, são os Estados Unidos, e não a Rússia", insistiu.

Apesar das recentes tensões, a Turquia ainda não emitiu sinais de pretender "rever em baixa" a sua cooperação com Moscovo, assinalou ainda o responsável norte-americano, que designadamente se referiu à recusa categórica de Ancara de renunciar à compra e instalação dos sistemas de defesa antiaéreo S-400 russos.

  • Lage reconhece que série de jogos sem vencer tem origem em fragilidades defensivas
    1:57