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Jornalista marroquino Omar Radi vai ser indiciado por "embriaguez pública"

Youssef Boudlal

O jornalista está atualmente no centro de um duplo caso de espionagem.

A justiça marroquina libertou esta segunda-feira o jornalista Omar Radi um dia após a sua detenção e decidiu indiciá-lo por "embriaguez pública com insultos e injúrias", referiu o seu advogado.

O procurador decidiu indiciar o jornalista por "embriaguez pública com insultos", precisou o advogado, Miloud Kendil, em declarações à agência noticiosa AFP.

Atualmente no centro de um duplo caso de espionagem, o jornalista e militante dos direitos humanos foi colocado sob detenção após um incidente registado na noite de domingo frente a um bar de Casablanca, a capital económica de Marrocos.

Foi interpelado porquê?

A sua interpelação surge num momento em que a justiça marroquina abriu um inquérito contra Omar Radi no final de junho, com as autoridades a alegarem "ligações com um oficial de ligação de um país estrangeiro" que trabalhou "sob cobertura diplomática desde 1979 em diversas regiões de tensões" no mundo.

"Nunca estive nem nunca estarei ao serviço de um poder estrangeiro (...) não sou nem espião nem um agente pago por um fundo estrangeiro", reagiu o jornalista no sábado através da sua conta Facebook.

As suas atividades "não têm nada a ver com o mundo das informações"

O inquérito foi desencadeado após a publicação de um relatório da Amnistia Internacional (AI) em que se refere que o seu telefone estava a ser espiado através de um programa de pirataria utilizado pelas autoridades marroquinas.

Rabat recusou este relatório e exigiu que a AI fornecesse "provas" destas "acusações graves e tendenciosas", ameaçando "adotar as medidas necessárias para defender a sua segurança nacional".

Por sua vez, a Amnistia referiu ter fornecido todas as provas úteis: "a tecnologia utilizada para espiar por telefone Omar Radi exige uma influência nos operadores telefónicos que apenas pode ser exercido por um governo para poder piratear a ligação internet", sublinhou a organização em comunicado divulgado no sábado.

Na sexta-feira, a organização de direitos humanos tinha já referido possuir provas de que o telemóvel de Radim, à semelhança do que sucedeu com o aparelho do ativista de esquerda Maati Monjib, foi submetido a um exame forense por peritos da AI em que ficou demonstrado que tinha instalado o programa de espionagem "Pegasus", desenvolvido pela empresa israelita NSO.

Elementos fornecidos pela AI não constituem "provas científicas convincentes"

No entanto, as autoridades marroquinas consideram que os elementos fornecidos pela AI não constituem "provas científicas convincentes", segundo um comunicado difundido na noite de domingo.

Omar Radi, um jornalista de 33 anos conhecido pelos seus trabalhos de investigação, foi condenado em março a quatro meses de prisão com pena suspensa por ter criticado um juiz no Twitter.

Segundo a Amnistia, este "jornalista corajoso" foi perseguido pelas autoridades do país magrebino devido à sua independência.

Na noite de domingo, foi detido com um amigo, na sequência de uma discussão com dois jornalistas da Chouf TV, que "o perseguiam, filmavam e intimidavam há vários dias", precisou o seu advogado Miloud Kendil à AFP.

O seu amigo, Imad Citou, também conhecido como um jornalista com abordagem crítica, foi libertado em simultâneo e foi indiciado pelas mesmas acusações.

Os dois jornalistas da Chouf TV envolvidos no incidente também serão perseguidos por "insultos e injúrias", precisou o advogado.