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Governo de Trump critica relatório de perita da ONU sobre asassínio de Soleimani

Carlos Barria

O relatório conclui que o general iraniano tinha sido assassinado de forma arbitrária e ilegal pelos EUA em janeiro, no Iraque.

O Governo de Donald Trump criticou esta quarta-feira um relatório apresentado à Organização das Nações Unidas (ONU) que concluiu que o general iraniano Qassem Soleimani tinha sido assassinado de forma arbitrária e ilegal pelos EUA em janeiro, no Iraque.

"É preciso uma certa desonestidade intelectual para publicar um relatório que condena os EUA por ter agido em estado de legítima defesa, ao mesmo tempo que dissimula o passado notoriamente conhecido do general Soleimani, um dos piores terroristas do mundo", declarou a porta-voz da diplomacia dos EUA, Morgan Ortagus.

"Este relatório tendencioso e rebarbativo mina os direitos humanos, ao passar uma esponja pelos terroristas, e prova mais uma vez que os EUA tiveram razão ao sair" do Conselho de Direitos Humanos da ONU, acrescentou.

Assassinado de forma "ilegal e arbitrária"

Uma especialista da ONU concluiu que o general iraniano Qasem Soleimani foi assassinado de forma "ilegal e arbitrária", porque Washington não demonstrou que representava um perigo imediato.

Num relatório enviado na terça-feira à comunicação social pela ONU, Agnès Callamard, relatora especial sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias, conclui que, "na ausência de uma ameaça iminente que colocasse em perigo a vida, a forma de agir dos Estados Unidos foi ilegal" e viola a Carta das Nações Unidas.

A especialista, que está mandatada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, mas que não se exprime em nome das Nações Unidas, deve apresentar na quinta-feira o seu relatório perante esta instância da organização, da qual os EUA se retiraram em 2018.

Documento aborda uso de drones em assassínios seletivos

O documento aborda de forma geral o uso de drones em assassínios seletivos, mas cerca de metade do relatório diz respeito a Soleimani. Arquiteto da estratégia iraniana no Médio Oriente, o general Soleimani, comandante do ramo dos Guardas da Revolução responsável pelas operações externas da República Islâmica, foi morto em 03 de janeiro num ataque de 'drones' norte-americanos junto ao aeroporto internacional de Bagdad, juntamente com o seu adjunto, o iraquiano Abu Mahdi al-Muhandis, líder dos paramilitares pró-iranianos neste país.

"Tendo em consideração as provas até agora fornecidas pelos Estados Unidos, a seleção do general Soleimani e a morte dos que o acompanhavam constituem um assassínio arbitrário do qual os Estados Unidos são responsáveis em virtude do direito internacional humanitário", afirma Callamard no seu relatório.

Ao justificar a ordem para matar Soleimani, o Presidente norte-americano, Donald Trump, assegurou após a sua morte que o general, que qualificou de "terrorista número um no mundo", preparava ataques "iminentes" contra diplomatas e militares norte-americanos.

Em represália pela eliminação de Soleimani, o Irão lançou em 08 de janeiro mísseis contra bases militares iraquianas onde se encontravam estacionadas tropas norte-americanas, provocando importantes estragos materiais, mas sem mortos nas fileiras do exército dos EUA, segundo Washington.

No seu relatório, Agnès Callamard rejeita o argumento avançado por Donald Trump, ao sublinhar que os Estados Unidos não demonstraram que o general "representava uma ameaça iminente", que não podiam esperar para o atacar e que não estavam em condições de pedir "autorização" ao Governo iraquiano para o aniquilar.

Segundo a perita francesa, Washington não conseguiu demonstrar que o seu assassínio era "necessário".

"Não foi fornecida qualquer prova de que o general Soleimani planificava especificamente um ataque iminente contra interesses norte-americanos, em particular no Iraque, e para o qual era necessária e justificada uma ação imediata", insiste o relatório.

"Nenhuma prova foi apresentada para demonstrar que os Estados Unidos não tiveram tempo de pedir a ajuda da comunidade internacional, incluindo ao Conselho de Segurança, para enfrentar presumíveis ameaças iminentes", acrescenta.

Em simultâneo, Callamard considera que, mesmo em caso de perigo iminente para os Estados Unidos em solo iraquiano, "nada prova que o Iraque não estava em condições ou não pretendia defender as forças americanas no seu território".