A Amnistia Internacional (AI) alertou na quinta-feira para o "número alarmante" de novos incêndios que lavram na Amazónia brasileira, acusando as autoridades do país de não protegerem a terra e os direitos humanos naquela floresta tropical.
O alerta da AI, organização não-governamental (ONG) de defesa dos direitos humanos, surgiu por ocasião do Dia da Amazónia (05 de setembro), lamentando o facto de já terem sido detetados este ano, até 31 de agosto, cerca de 63 mil incêndios, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) brasileiro.
A Amnistia Internacional destacou ainda que a desflorestação na região aumentou 34,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020 em comparação com o mesmo período de 2018 e 2019, destruindo uma área total de 9.205 quilómetros quadrados.
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A recente destruição florestal, segundo a ONG, pode ser ainda maior, uma vez que um erro do satélite tem afetado a captura de informação sobre alguns incêndios desde 16 de agosto.
"À medida que os incêndios se expandem rapidamente nesta temporada de queimadas, fica claro que os militares brasileiros não têm a experiência ou conhecimento necessários para impedir aqueles que incendeiam a floresta e tomam ilegalmente terras protegidas", disse o responsável pelo setor de Meio Ambiente e Crises da AI, Richard Pearshouse.
Desde maio, o Exército brasileiro tem sido enviado para a Amazónia para conter a desflorestação ilegal e incêndios. Contudo, segundo a ONG, os esforços estão longe de serem eficientes.
"O Governo deve devolver o controlo da monitorização ambiental e da aplicação da lei às autoridades civis competentes. A única maneira de proteger a Amazónia é o Governo mostrar apoio político claro para a proteção ambiental dos civis na Amazónia, começando por restabelecer fundos e recursos, e apoiar agências para fazer cumprir as leis ambientais", frisou Pearshouse.
No total, 74% dos incêndios contabilizados pelo INPE, um órgão governamental, foram registados depois de o executivo brasileiro ter proibido as queimadas em meados de julho de 2020, explicou a AI.
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Parte dos incêndios na região amazónica costumam ser iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que tomam posse de terras ilegalmente e desflorestam a área para criar pastagens.
"Esta atividade ilegal apoia a indústria multibilionária de carne bovina do Brasil", denunciou a ONG.
Desde 1988, o número de cabeças de gado quase quadruplicou para 86 milhões em 2018, respondendo por 40% do total nacional.
A pecuária é a principal causa de ocupação ilegal de terras em reservas e territórios indígenas na Amazónia brasileira, alimentando o desflorestação e afetando os direitos dos povos indígenas e residentes nativos.
No total, 63% da área desflorestada na Amazónia, de 1988 a 2014, tornou-se pasto para gado, numa área cinco vezes maior que Portugal, segundo um relatório publicado pela Amnistia Internacional no ano passado.
Juntamente com os alertas, a ONG lançou uma petição 'online', denominada "Diga não ao gado que pasta ilegalmente na Amazónia".
A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta, com cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados, e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).
