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"É um milagre inexplicável não ter sido mais grave". Português mordido por crocodilo em Timor-Leste

AP

O incidente aconteceu numa praia na zona de Baucau, no norte do país.

Um cidadão português foi mordido no domingo por um crocodilo numa praia na zona de Baucau, norte de Timor-Leste, quando estava com um amigo a fazer pesca submarina, contou o próprio à Lusa.

"Pelo tamanho que tinha, talvez uns três metros, se ele quisesse tinha-me levado", disse à Lusa Fernando Madeira, que relatou ter ferimentos nas costas e no braço.

"É um milagre inexplicável não ter sido mais grave e que deve servir de lição para outros e de alerta para a necessidade de que se tomem medidas para garantir a segurança das pessoas", explicou.

O ataque ocorreu a cerca de 200 metros da costa numa zona de recife de coral onde estava com um amigo a fazer pesca submarina na manhã de domingo, na zona de Bunduras, a cerca de 45 minutos de barco da principal praia de Baucau, Wataboo.

"As águas estavam límpidas e o mar estava calmo. Tínhamos visto uma tartaruga e diz-se que nestas condições não surgem crocodilos. Falámos com pescadores da zona que dizem que também não costuma haver ali crocodilos", explicou.

Madeira explica que a dado momento sentiu um "choque muito grande nas costas" e, quando se virou, ainda conseguiu ver o corpo do crocodilo a afastar-se.

"Começámos a nadar para terra, usámos um pano para estancar o sangue e depois viajámos até Baucau onde fui logo ao hospital, tendo regressado ontem [segunda-feira] para tratamentos", referiu.

Depois de falar com uma médica australiana em Díli foi-lhe recomendado viajar até à capital para testes, face a uma preocupação em relação a potenciais infeções, estando atualmente no Hospital Nacional Guido Valadares.

Madeira, que está em Timor-Leste desde 2009 - atualmente gere uma quinta pedagógica com turismo rural em Baucau, segunda cidade timorense -- explica que esta foi a segunda vez que teve um encontro com um crocodilo em Timor-Leste.

Há cerca de oito anos, recordou, estava com duas outras pessoas também a fazer pesca submarina a alguns quilómetros de distância, na altura durante a noite, quando um crocodilo se aproximou e meteu no meio do grupo.

"Ele aproximou-se, fez movimento de ataque, mas não sei porquê não concretizou. Na altura nenhum dos três ficámos feridos", disse.

Fernando Madeira diz que é essencial que, no mínimo, se coloque sinalização nas praias onde há crocodilos e que seria útil pensar, especialmente em zonas balneares ou turísticas, em colocar redes ou barreiras que garantissem a proteção das pessoas.

Ataques de crocodilos em Timor-Leste são cada vez mais frequentes, com várias vítimas mortais e feridos em vários pontos do país.

O problema estava, no passado, mais concentrado na costa sul, mas atualmente há ataques em vários pontos da metade leste-timorense da ilha.

A mais recente vítima mortal de que há registo ocorreu em maio quando um timorense foi morto quando estava a pescar na lagoa de Ira-Lalaro, na região de Lautem, no leste do país.

Em fevereiro, em Díli, um pescador timorense foi dado como desaparecido depois de um alegado ataque de um crocodilo, na zona oeste da cidade.

O portal Crocodile Attack, que regista casos de ataques de crocodilos em todo o mundo, tem registados seis mortos em 2018 e seis em 2019, em Timor-Leste.

Entre 2007 e 2014 houve pelo menos 123 vítimas de ataques de crocodilos no país, 59 das quais mortais.

O impacto da crescente população de crocodilos - aponta-se a possibilidade até de uma migração das populações do Território Norte da Austrália (onde a sua proliferação impede, por exemplo, banhos nas praias de Darwin) - está igualmente a ter impacto ambiental.

Os crocodilos podem estar a contribuir para a queda no número de tartarugas de uma espécie local recentemente descoberta, a 'Chelodina timorensis', afetando outros habitats do país.

Além do mito de criação do país, da ilha crocodilo - há muitos rituais, poemas e outras manifestações culturais que honram o 'avô Lafaek' (crocodilo) -, também há quem em Timor-Leste veja nos ataques uma espécie de punição da natureza contra as vítimas, fatores que condicionam as respostas das autoridades ao problema.